segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Introdução

Viajar é preciso, e para mim sempre foi o motivo e objetivo de quase tudo o que faço.

Mesmo assim, sempre passo por um dilema toda vez que estou para partir. É a relutância em partir sozinho. É um dilema insolúvel pois sempre chego a mesma conclusão, é melhor partir sozinho e ser livre para tomar qualquer rumo ou direção. Mas essa vontade de estar com alguém sempre volta, é o conforto e a segurança de ter alguém com quem dividir os problemas, as alegrias e descobertas do caminho.

A idéia é tentadora, mas onde encontrar a pessoa certa, ou mesmo alguém disposto a partir? É difícil. Infelizmente, hoje em dia a maioria das pessoas está mergulhada em uma luta contra o tempo. Todos estão trabalhando ou se preparando para assumir alguma função nessa máquina de produzir e consumir dinheiro, coisas, e por que não, pessoas.

Sonhar tornou-se difícil, quase que incomum. Sonha-se muito com conforto, carreira e segurança, e pouco com aventura e exploração. Isso nunca me agradou e me incomoda a ironia de o homem ser o único animal capaz de criar, pensar, e chegar a conclusões. E depois deste lindo processo, inventar algo que na maioria das vezes não é realmente necessário, e que acaba por nos aprisionar ainda mais a um mundo artificial e complicado.

Esta é a história de uma viagem, um mergulho em uma outra realidade, muito diferente da realidade urbana, mas muito mais próxima de todos nós do que ela pode aparentar a primeira vista. Espero mostrar com essa história o quão simples pode ser organizar e realizar uma viagem como essa, e incentivar as pessoas que sonham com algo semelhante a partir.

Partir é sempre o mais difícil. Uma vez na estrada, as coisas sempre acontecem, e por mais que se planeje uma viagem, sempre vai ser necessário improvisar. Não quero dizer que o negócio é sair pelo mundo totalmente sem rumo ou planos, mas deve-se gastar menos tempo, energia e pensamentos com desculpas para não realizar os nossos sonhos. O brasileiro é campeão de improvisação. Todos os dias temos que usar a cabeça criativamente para encontrar uma maneira melhor para fazer as coisas. Desde um caminho alternativo para ir ao trabalho até uma maneira para fugir da violência presente na grande cidade.

Na cidade existem milhões de pessoas e incontáveis variáveis que podem nos atrapalhar. Se conseguimos sobreviver aqui sem grandes acidentes, porque não conseguiríamos sobreviver mais próximos à natureza, que é muito mais gentil e inspiradora? As coisas que podem nos atrapalhar em uma viagem, digamos, mais selvagem, são poucas, e com planejamento e equipamentos adequados pode-se ir muito longe, preparado para os problemas que são sempre os mesmos; Orientação, proteção dos elementos, alimentação e locomoção.

Se você tem o equipamento e conhecimento para solucionar esses problemas, pode fazer as malas (não se esqueça de levar dinheiro) e cair na estrada.

Boa viagem!

1 - Preparativos


Eu acabei partindo sozinho, não encontrei ninguém interessado, disposto ou livre para vir comigo. Além disso, não acredito muito em procurar companheiros de viagem. Acho que o acaso oferece oportunidades melhores. Eu sabia que ia encontrar gente pelo caminho e que poderia me juntar e separar dessas pessoas, conforme fossem acontecendo as coisas.

A viagem seria de bicicleta, para mim não existe outra maneira de viajar que proporcione liberdade e sensações tão grandiosas com um custo tão baixo. Também faria várias caminhadas nos locais por onde passasse.

O local seria a Patagônia, que já tem um nome exótico o suficiente para se tornar um local atrativo, e fora isso oferece paisagens maravilhosas quase intocadas pelo homem .

Existem duas teorias para explicar o nome “Patagônia” . A primeira diz que Fernão Magalhães, navegador português a serviço do rei da Espanha, teve a idéia ao perceber que os índios locais tinham pés enormes, daí o nome Patagônia.

A segunda teoria, mais elaborada mas talvez não mais verdadeira, diz que Magalhães se inspirou no romance renascentista “Primaleão da Grécia”, que falava sobre as terras de “Gran Patagon”.

De qualquer forma o nome não importava muito. As informações que eu tinha prometiam muitas possibilidades de aventura em lugares pouco visitados e um contato bem estreito com a natureza . Tão estreito que o vento e chuva prometiam ser grandes adversários no dia-a-dia. As caminhadas também seriam incríveis, passando por lugares muito diferentes; Montanhas, glaciares, florestas, e lagos de origem glacial.

Levaria comigo todo equipamento para acampar. Poderia carregar na bike comida para 15 dias se fosse necessário. Viajando de bike é possível levar todo o necessário para ter uma autonomia total, a única coisa que precisaria seria água, e isso não é um problema na Patagônia.

Seria perfeito, uma bike com tudo que eu precisava, e uma longa estrada pela frente, me levando a lugares maravilhosos. Muito básico e tentador, sem grandes complicações. Teria que conquistar o meu avanço contra o vento e as subidas, mas “ganharia” as descidas sem esforço algum, e elas seriam acompanhadas de boas doses de adrenalina. Encontraria incríveis visuais, que teriam sua beleza ampliada pelo silêncio e sensação de estar sozinho em um lugar primitivo e isolado.

Mal podia esperar, e hoje de volta a São Paulo, olhando para o computador e escrevendo, mal posso esperar pela hora de partir de novo.

De qualquer maneira, antes de partir ainda teria que passar pelas famosas preparações. Preparar-se bem para uma viagem é fundamental, especialmente em uma viagem aonde se está basicamente sozinho, longe de pessoas, hotéis, restaurantes, etc.

O primeiro passo foi procurar um livro que me desse informações a respeito dos lugares por onde iria passar e um mapa. O livro foi fácil, já estava de olho nele fazia tempo e nem precisei comprá-lo, emprestei de um amigo. O livro foi o “Trekking in The Patagonian Andes”, da editora Lonely Planet. Ele foi ótimo para informações sobre o clima e tem informações detalhadas sobre as caminhadas mais importantes que podem ser feitas na Patagônia. Para encontrar um mapa a coisa foi diferente, pois é muito difícil encontrar algo com uma escala adequada. Encontrei mapas da América do Sul, mas não serviam para muita coisa. Acabei arranjando um mapa de segunda mão que serviu até que eu encontrasse outro razoável, o que só aconteceu no Chile.

Com esse material na mão pude ter uma boa idéia do que iria encontrar pelo caminho. A minha primeira impressão foi um pouco intimidadora, o livro falava de ventos muito fortes que sopram durante o ano inteiro, com mais força ainda no verão. Apesar disto, o verão é a melhor época para ir a Patagônia pois assim evitam-se as fortes chuvas do outono, e o frio e neve do inverno, que tornariam uma viagem de bike muito desconfortável. De qualquer forma segundo o livro pode haver neve até mesmo no verão, e as chuvas estão sempre presentes, junto com o vento que vem do quadrante oeste-sudoeste.

O vento traz umidade do Oceano Pacífico, e essa umidade se precipita ao encontrar os Andes. Conclusão, chove muito na Patagônia Chilena, e muito pouco na Patagônia Argentina. A minha rota se mantinha quase que o tempo todo no Chile, e eu estava começando a ficar preocupado com as condições que iria encontrar pela frente. Quanto mais eu pesquisava, piores as coisas pareciam, e várias pessoas que estiveram por lá me advertiram sobre o vento e chuva.

A minha grande esperança era que as pessoas estivessem exagerando. Eu já havia tido essa experiência antes, estar fazendo algo que outras pessoas diziam ser muito difícil ou “loucura”. Nunca aconteceu nada de mal, pelo contrario, foi fazendo as coisas mais “desaconselháveis” ou “loucas” que mais me diverti e aprendi. Além disto eu sabia que muitas pessoas já haviam viajado de bike pela Patagônia, e portanto era possível fazê-lo.

Não havia nada a fazer, somente depois de iniciar a viagem é que eu ia saber a verdade sobre o clima na Patagônia. A única coisa que eu podia fazer era me preparar para o pior possível. A ansiedade era grande pois tudo poderia correr tranquilamente, mas se o vento fosse tão forte poderia ser um pesadelo.

Em relação à rota a seguir não houve muita dúvida. Eu iria começar em Punta Arenas, no Chile e pedalar em direção ao norte, passando por vários parques nacionais onde iria fazer caminhadas. Optei em iniciar no sul pois assim estaria “subindo” para o norte na medida que o verão acabava. A viagem deveria terminar em Puerto Montt, depois de 2300km pedalados em 40 dias (média de 60km/dia), e depois de aproximadamente 60 dias de caminhadas pelos parques nacionais.

Bom, esse era o plano, restava saber o quanto ele iria ser alterado durante o caminho. Depois de ter o plano e os números de dias, quilômetros, etc. definidos, resolvi colocar tudo organizado e datilografado, em forma de um projeto, o qual batizei de “Projeto Patagônia”.

Com o projeto em mãos comecei a procurar um patrocinador, mas faltava pouco mais de um mês para a minha partida e era muito pouco tempo para organizar algo. Acabei conseguindo o apoio da Anderson Bicicletas, que forneceu todas as peças para a bike. http://www.andersonbicicletas.com.br/

Faltava reunir o equipamento de campismo e o fotográfico. Eu passava o tempo organizando estas coisas e pesquisando. Na última hora resolvi levar também um equipamento para pescar trutas. A Patagônia é famosa internacionalmente como um ótimo local para pesca de truta e salmão. O equipamento era bem pequeno e leve, a vara era telescópica, e quando fechada ocupava muito pouco espaço. Tinha também uma carretilha pequena e vários tipos de isca. Eu nunca havia pescado antes, mas com três meses para viajar e muitos rios pelo caminho, com certeza iria acabar aprendendo.

Paguei a passagem, iria de avião, 550 dólares ida e volta, válido por três meses. Gastei mais em equipamentos e passagens do que na viagem em si. Foram 660 dólares em equipamento de camping, e mais 600 dólares em equipamento fotográfico. A super vara de pescar com iscas e tudo mais, ficou em 150 dólares. Nos próximos três meses de viagem, gastaria apenas 800 dólares. Não que eu tenha economizado ou deixado de comer, pelo contrário, comia muito bem, aliás numa viagem de bike a alimentação deve ser muito boa. O motivo de eu ter gasto tão pouco é que quase não havia despesas. Eu acampava de graça, me locomovia de graça, e cozinhava a minha própria comida. Eu só punha a mão na carteira quando parava nas cidades e dormia em pensões. E com 60 dólares comprava comida suficiente para uma semana.

2 - Santiago

Finalmente chegou o grande dia, e eu nem estava ansioso. Estava me sentindo distante, quase que anestesiado. Não pensava em quase nada e parecia que esse negócio de viagem à Patagônia nem era comigo. As malas estavam feitas. Coloquei tudo na mochila para caminhada, exceto pelos itens mais valiosos do equipamento que coloquei dentro de um dos alforjes da bike e levei como bagagem de mão.

Meu amigo João Paulo me levou ao aeroporto, aonde nos despedimos rapidamente e fui fazer o check-in. Despachei a bike sem problemas, não cheguei nem a colocá-la em uma caixa, apenas dobrei o guidom e tirei o ar dos pneus, para o caso de uma despressurização no compartimento de bagagem. A bike pesou 13kg, a mochila outros 13kg, e o alforje (que levei como bagagem de mão) mais 10kg. Era permitido despachar 20kg de bagagem mas não tive que pagar nada pelos 6 kg de excesso.

Dei as minhas últimas voltas pelo aeroporto. Engraçado, para mim quando estou em aeroportos sempre parece que já cheguei ao meu destino. Bom, eu já estava sozinho, ainda no aeroporto de São Paulo, mas em poucos momentos ia estar no aeroporto de Santiago, que ia ser igual a qualquer outro, chão de mármore e janelonas de vidro. É isso mesmo, já podia considerar que a viagem começara. Na realidade a viagem já havia começado muito antes, com as primeiras viajadas mentais.

O vôo foi normal, nada de excepcional, nem me lembro qual foi a comida. Cheguei no fim da tarde em Santiago. Foi com grande alívio que eu recebi a minha bike e mochila intactos. Fui direto pegar dinheiro com o cartão de crédito e em seguida telefonar. Tinha o telefone de três anfitriões potenciais para a minha primeira noite no Chile. Não conhecia nenhum deles mas eles sabiam de minha chegada. O único detalhe é que eu estava uma semana atrasado. Conclusão, não encontrei nenhum deles em casa.

Eu não tinha nenhuma informação sobre Santiago, tinha somente o livro que falava sobre as caminhadas na Patagônia, 3000km mais ao sul. Estava na hora de começar a “hablar Espanhol”. Comprei uma passagem de ônibus até o centro e enquanto esperava por ele, me informei sobre algum lugar para ficar. Eu perguntava aonde era o “albergue de la juventud”, mas o cara para quem eu perguntava não me entendia, o que me fez pensar que “albergue da juventude” não é “albergue de la juventud” em Espanhol.

Ele me recomendava ir para uma “hospedaje”, mas “hospedaje” soava caro demais para mim. Eu queria ir aonde o pessoal de mochila se hospedava, e insistia em “albergue, donde van los mochileros, me entiende?”. Finalmente, ele entendeu “mochilero”, e me falou para ir até o “Refúgio de Padre Hurtado”. Eu não sabia se ele estava me entendendo ou não, que história era aquela de refúgio, padre. Ele me garantiu que no refúgio havia outros viajantes de mochila, e que eu não ia ser obrigado a entrar para nenhuma seita.

Bom, peguei o ônibus, segui a indicação e fui até o refúgio. Nesta altura dos acontecimentos já havia anoitecido, e eu pessoalmente não gosto de perambular à noite por uma cidade grande desconhecida, com uma bike e mochila chamando a atenção. De qualquer forma cheguei fácil até o refúgio, todos a quem perguntava sabiam o caminho. Só faltava aquilo, o “Refúgio de Padre Hurtado” era um abrigo para indigentes idosos. O rapaz que estava na recepção quase caiu para trás quando eu perguntei se podia dormir lá.

Ainda tentamos mais uma vez os meus números de telefone, mas não adiantou. O jeito foi dormir lá mesmo. Foi um choque. Sair de casa e cair naquele lugar. Agora sim, com certeza estava viajando, estava acontecendo algo totalmente diferente do que eu imaginara. Havia pelo menos vinte pessoas em cada dormitório, mas ainda havia camas sobrando. O zelador me indicou uma delas.

Havia muitos barulhos, uns tossiam, outros se mexiam nas camas, que rangiam, outros gemiam. No corredor havia mais barulho ainda, gente andando arrastando os pés, gente falando sozinha, e até um gritando, e ficou gritando palavrões boa parte da noite. Ninguém parecia se incomodar com nada. De vez em quando o zelador trazia mais alguém até alguma cama e o ajudava a se deitar.

Demorei a cair no sono apesar de estar super cansado. Havia sido um dia longo, com um final mais longo ainda, e eu tentava digerir tudo isso e entrar em sintonia com um novo ritmo de vida, imprevisível e diferente, todos os dias dali para a frente.

No dia seguinte saí cedo a procura de um lugar razoável para dormir e aprendi que “hospedaje” não era tão caro assim, e encontrei uma por 10 dólares. Tinha um quarto só para mim, até que não estava mal. Dormi a manhã toda e à tarde saí para comprar as últimas coisas de que necessitava.

Santiago é uma cidade agradável, e foi fácil encontrar as lojas que procurava, estavam inclusive na mesma rua, Calle 18. Precisava de uma ferramenta para desmontar o pinhão (catracas) da roda traseira. Não tinha encontrado a ferramenta ideal em São Paulo, que em inglês se chama “Hyper Cracker”. Em português ela nem tem um nome específico. O pinhão necessita de várias ferramentas combinadas para desmontá-lo, a menos que você tenha esse “Hyper Cracker”. Eu queria encontrar a tal ferramenta pois queria evitar carregar coisas em excesso. Mas não adiantou, o pessoal nem conhecia o tal do “Hyper Cracker”. Em relação a equipamentos mais normais, havia uma grande variedade de acessórios e peças. Resolvi esquecer o maldito “Hyper Cracker”, afinal eu só iria precisar dele no caso de algum raio traseiro do lado direito (o lado das engrenagens) quebrar. Se isso acontecesse eu iria precisar pegar uma carona até a oficina mais próxima e improvisar algo.

Eu também precisava de um adaptador de entrada para fone de ouvido, que convertesse sinais mono para sinais estéreo. Esse adaptador é do tamanho de uma tampa de caneta Bic e era de vital importância. Eu tinha pego junto a Rádio Eldorado de São Paulo um gravador com o qual pretendia gravar uns boletins que viriam ao ar no programa “Esporte-Aventura”. Esse gravador também serviria de walkman, e por isso precisava do adaptador, para poder ouvir música em ambos os ouvidos.

Eu estava mesmo com sorte, havia um monte de lojas de equipamentos eletrônicos ao lado das lojas de bike, e não foi difícil encontrar o adaptador.

Faltava-me agora comprar mapas dos parques nacionais que iria visitar, e fui até o I.G.M. (Instituto Geográfico Militar) procurá-los. Os mapas do I.G.M. são muito bons, e tem informações bem precisas sobre o relevo dos parques. Apesar disto, não indicam as trilhas existentes e é necessário colocá-las no mapa à mão para facilitar a orientação (pode-se fazer isso baseando-se em outro mapa que contenha as trilhas).

Dei azar, era sábado e o escritório estava fechado. Desisti também dos mapas pois no meu livro já havia uns mapas básicos dos parques. Se achasse necessário iria procurar outros melhores depois.

Passei o resto da tarde explorando a cidade. Essa é outra vantagem de se viajar de bike, tinha chegado à noite anterior trazendo meu próprio veículo, e podia me locomover livremente com uma facilidade incrível.

Mas o meu destino era a Patagônia e por isso na manhã seguinte já tinha colocado a minha bike no bagageiro de um ônibus e estava a caminho de Puerto Montt, no extremo norte da Patagônia.

Durante a viagem no Chile iria pegar vários ônibus para cobrir distâncias grandes através de áreas que não me interessavam. Colocava a bike em pé dentro do bagageiro do ônibus (basta retirar a roda traseira) e a amarrava com uma cordinha. Normalmente tinha que pagar aproximadamente 5 dólares pelo transporte da bike mas às vezes o motorista nem se preocupava com isso e a bike viajava de graça.

3 - Puerto Montt

Foram 12 horas de ônibus até Puerto Montt. A estrada era razoavelmente plana, asfaltada e com muitos carros. O tipo de lugar onde não me interessava pedalar. Não gosto de estradas de asfalto, nelas me dá vontade de ir rápido, os carros passam o tempo todo em alta velocidade me fazendo sentir como uma tartaruga. Além disto, os carros fazem barulho, me assustam e roubam aquela sensação de contato com a natureza . Ou seja, quanto mais isolada e primitiva for a estrada, maiores são as emoções ao pedalar nela.

Nas estradas de terra há poucos carros e é mais emocionante pedalar. É necessário negociar com o caminho, buscar a melhor trilha para a bike, com menos buracos. Isso ocupa bastante a mente, e as descidas se transformam em uma aventura de verdade pois se você for rápido demais ou não conseguir evitar um buraco maior, pode levar um tombo e se machucar, o que não é muito agradável, especialmente se você estiver sozinho em uma estrada com pouco movimento.

As condições da estrada variam o tempo todo, às vezes o caminho parece até asfalto de tão bom, e às vezes é péssimo e você acaba quase se arrependendo de estar ali fazendo aquele “programa de índio”. Se chover então, pior ainda, a estrada pode ficar péssima.

Mas estes momentos ruins passam rápido, e servem para contrastar e aumentar a alegria dos momentos bons, e gerar uma incontrolável vontade de “quero mais”. Viajar de bike vicia, mas também é uma atividade que você ama ou detesta. Se a idéia te parece um pouco tentadora, é bem provável que você se apaixone irremediavelmente, e com pouco dinheiro possa realizar muitas viagens.

Bom, voltando ao assunto, Puerto Montt é uma cidade portuária com 110.000 habitantes e um lugar exótico para quem está chegando no Chile. há muitas casas de madeira e de telhas de zinco. Nunca havia visto casas de zinco, é realmente muito interessante, é um material leve, fácil de trabalhar e protege a madeira do excesso de umidade. As paredes de algumas casas são totalmente cobertas de zinco.

Puerto Montt serve como base para se explorar a região dos lagos chilenos e também para visitar a Ilha de Chiloé, que na língua dos índios Mapuche que habitam a região, quer dizer “Terra de Gaivotas”. É também de Puerto Montt que saem barcos com destino a Puerto Natales e Punta Arenas, no sul da Patagônia

Tanto na ilha de Chiloé quanto em Puerto Montt, a cultura é intimamente ligada ao mar, e Puerto Montt é famosa pela grande quantidade de restaurantes de frutos do mar. Há também um grande comércio de artesanato, concentrado na zona do porto.

Chegando à cidade fui para uma hospedaje lotada de Israelenses, que sempre encontram os lugares mais baratos para se hospedar. Dividi um quarto com uma sul-africana que havia acabado de voltar da Antártida e me contou sobre a sua viagem . Ela falou que o lugar é simplesmente fantástico, incrivelmente bonito, e que é possível fazer a viagem em barcos da marinha chilena ou em veleiros que levam turistas. Entretanto os preços eram demasiado caros para mim e por isso nem me permiti sonhar com uma esticada até lá.

No dia seguinte fui pesquisar os preços e opções para chegar ao sul da Patagônia. A viagem de barco era a opção mais interessante, demorava três dias e passava bem perto da costa, que é toda recortada por fiordes e tem enormes glaciares que terminam no mar. A paisagem é maravilhosa e intocada pelo homem . Essa viagem é muito popular entre os viajantes, e portanto uma maneira ideal para encontrar pessoas interessantes. A passagem custava 160 dólares, para dividir um dormitório com 25 pessoas, e as refeições estavam incluídas. O destino final era a cidade de Puerto Natales, a apenas 150km do Parque Nacional Torres del Paine.

Apesar disto, optei pelo avião, que custou 100 dólares e me levou até Punta Arenas, 250km mais ao sul de Puerto Natales, e no extremo sul do continente americano. Optei pelo avião pois simplesmente não aguentava mais esperar para começar a pedalar.

No dia seguinte pela manhã cedo peguei o avião. Eu não esperava nada especial deste vôo mas o visual lá de cima foi simplesmente fantástico. Sobrevoamos o Campo de Gelo Sul, a maior concentração de geleiras fora dos Pólos, com uma área de 14.000km quadrados. Eu nunca havia visto geleiras grandes antes, pareciam estradas brancas, azuis, e cinzas cortando as montanhas. Mas é difícil descrever, as dimensões são enormes. Às vezes as geleiras terminam no mar e cobrem uma área enorme com icebergs.

4 - De Punta Arenas a puerto Natales


Punta Arenas é uma cidade portuária com 100.000 habitantes, nas margens do Estreito de Magalhães.

Antes da construção do Canal do Panamá, o único caminho marítimo entre o leste e o oeste dos Estados Unidos passava pelo Cabo Horn ou pelo Estreito de Magalhães, e Punta Arenas foi criada para servir como porto de apoio para os navios que passavam. A cidade teve seu apogeu na segunda metade do século XIX, época da corrida do ouro na Califórnia e também período de intensa expansão no oeste norte americano. Hoje em dia Punta Arenas permanece um importante “cruzamento” de linhas de transporte, tanto marítimo quanto aéreo.

O tempo correspondia às expectativas, estava chovendo e fazia frio quando pousamos. Arrumei uma carona com uma caminhonete que ia até a cidade e fiquei esperando a chuva passar embaixo de um lugar abrigado, enquanto organizava a bagagem na bike.

A bicicleta tinha dois bagageiros, um dianteiro e outro traseiro. Em cada um eu levava dois alforjes (bolsas) pendurados. Em um dos alforjes dianteiros eu levaria, dobrada, a mochila para caminhadas. No outro levaria comida. Nos alforges traseiros iriam as coisas mais pesadas, roupas, panela, fogareiro, equipamento fotográfico. No bagageiro traseiro entre os alforjes, iriam a barraca e o saco de dormir.

Estava quase pronto para sair, mas ainda faltava um monte de coisas. Uma passada no supermercado e fiz compras para 5 dias. Consegui encontrar também um ótimo mapa da Patagônia inteira, ainda por cima plastificado, no centro de informações turísticas. Passei no posto de gasolina e comprei querosene para o meu fogareiro. Fui para a Zona Franca aonde se pode comprar todo o tipo de coisas bem barato e finalmente comprei um par de luvas e um gorro de lã.

Depois dessa maratona de compras, estava realmente pronto. Eram 18:30, mas eu queria finalmente começar a pedalar, e parti. Era fim de Janeiro, dia 28, e haveria luz até as 23:00. Mal podia acreditar, eu estava finalmente pedalando.

A bike estava pesada, ou talvez era eu que ainda não estava acostumado a pedalar com ela carregada. Em São Paulo eu costumava pedalar todos os dias, uma media de vinte quilômetros, mas o esforço para pedalar a bike carregada é muito maior. É normal sofrer um pouco no início de uma viagem, mas com o tempo acaba se acostumando ao esforço Havia mais carros que eu esperava na estrada, e o vento era forte. Não tão forte como eu esperava mas ainda assim era difícil avançar contra ele.

A estrada seguia paralela ao Estreito de Magalhães por alguns quilômetros, e o visual era inspirador. O tempo estava encoberto, mas não choveu. A estrada era asfaltada e seria assim até Puerto Natales, 250km ao norte. Era bom ter asfalto no começo da viagem, tornava as coisas mais fáceis. O terreno era razoavelmente plano e eu estava cheio de vontade de pedalar.

Pedalei três horas e fiz 52km, o tempo passou super rápido. Parei para acampar às 21:30, na beira de um lago, que na realidade era um braço de mar. Armei a barraca e cozinhei um belo macarrão com atum. Estava esfomeado pois nem tinha almoçado com toda a correria da partida.

Depois de comer pude finalmente relaxar. As nuvens vinham do oeste e passavam baixas no céu, querendo chover. Podia escutar o barulho de pequenas ondas que quebravam na margem do “lago”. O vento havia acalmado e a barraca não sacudia, e fui dormir ouvindo o barulhinho das ondas.

Na manhã seguinte o tempo amanheceu mais encoberto ainda. Tomei o meu café da manhã, que ia ser o mesmo pelos próximos três meses, uma panelada de cereais com leite quente, uma delícia, nunca me enjoei dele, e podia pedalar por três horas antes de sentir fome de novo. O tempo estava feio e começou a garoar, foi o que faltava para me convencer a voltar para a cama. Dormi como um bebê até o meio dia e acordei bem na hora, a chuva estava acabando.

O vento estava muito mais forte do que no dia anterior, e logicamente soprava bem no nariz. Apesar de a estrada ser praticamente plana eu só conseguia pedalar a 6km por hora, uma velocidade ridícula.

Para piorar as coisas começou a chover de novo. A chuva era bem leve e não incomodava muito. O problema é que eu precisava colocar a calça e jaquetas impermeáveis, e depois de 10 minutos estava morrendo de calor. As nuvens passavam rápido e a chuva parava e reiniciava a cada meia hora. Eu parava o tempo todo para por ou tirar roupas conforme o tempo mudava e eu tinha frio ou calor. Também me atrapalhei todo tentando tirar fotos do início da viagem e fazer boletins para a Rádio Eldorado. Era uma quantidade exagerada de equipamentos e roupas para administrar. Eu lembrava das minhas viagens de bike pelo Brasil, em como era simples, duas camisetas, nada de blusas ou roupas para chuva, e em cada rio uma piscina para tomar banho.

Bom, o vento continuava a assobiar na minha orelha e eu não podia nem ouvir música por causa do barulho. Para aumentar a minha felicidade, o meu joelho começou a doer. A chuva voltou a cair, o tempo demorava a passar, os quilômetros percorridos praticamente não aumentavam, e a inevitável pergunta me invadiu, “O que é que eu estou fazendo aqui?”.

Eu me perguntava se seria possível que o tempo ficasse sempre daquele jeito, e se ficasse , o que eu iria fazer. Seria estupidez insistir em pedalar se o tempo fosse sempre tão ruim, afinal eu estava ali para me divertir e não para sofrer. Tentei me acalmar pensando que todo começo é difícil, em qualquer atividade, e que mais cedo ou mais tarde as coisas iriam melhorar.

Depois de 4 horas nestas condições, a estrada virou para a direita (oeste), e eu tinha de repente o meu grande inimigo, o vento, a meu favor. Silêncio total, eu não escutava mais nada de vento pois estava pedalando na mesma direção, a 27km por hora. Incrível como o astral pode mudar tão rápido, até a chuva havia parado, e de repente tudo estava perfeito.

Estava me aproximando de um povoado minúsculo e resolvi parar em um botecozinho para tomar alguma coisa quente. Foi bom estar entre quatro paredes, abrigado do frio e do vento. Eu era o único cliente no bar, mas logo chegou um ônibus lotado de turistas e acabou com o sossego. Os turistas eram alemães e não falavam espanhol nem inglês. Coitado do dono do bar, as pessoas falavam todas ao mesmo tempo e ninguém se entendia. O tempo foi passando e alguns começaram a gritar os seus pedidos achando que assim seriam entendidos.

Eu tentei ajudar mas as pessoas estavam quase histéricas, foi bem estranho, afinal não é difícil pedir um chá, café ou chocolate quente. As palavras são até parecidas, mesmo em línguas diferentes.

Resolvi voltar para a minha estrada, um pouco confuso pela cena no bar. Parei na saída do vilarejo para bater uma foto da bike com as casas ao fundo, e enquanto me afastava para bater a foto, o vento derrubou a bike, que caiu por cima do capacete rachando-o.

Não conseguia acreditar. Porque inventei de parar naquele lugarzinho estranho, bem na hora que o vento estava a meu favor! Guardei o capacete, pois mesmo rachado ele ainda podia servir de proteção, e voltei a pedalar, desta vez com o walkman ligado. Agora sim, tudo estava perfeito, o céu estava limpando e eu estava indo super rápido. Pedalei por mais uma hora e pouco e recuperei a minha média, fechando o dia com 81km feitos em 6 horas de pedal.

Parei para acampar atrás de uma pequena montanha que me protegia do vento, e tive a companhia de uns cavalos que pastavam do outro lado de uma cerca e vieram ver de perto o que estava acontecendo.

Não havia nenhum rio por perto e por isso fui até a estrada para parar um carro. O primeiro para quem fiz sinal parou, era uma família chilena com duas crianças pequenas e foram muito simpáticos. Me deram a água que eu necessitava e foram embora depois de uma conversa rápida.

No dia seguinte eu sentia uma leve dor nas pernas, mas era normal pois estava me acostumando ao ritmo da viagem. O que não era normal era a dor que comecei a sentir nos joelhos, a cada pedalada ela parecia aumentar. Já tinha feito 130km e faltavam ainda 120 para Puerto Natales onde estava planejando descansar e talvez até visitar um médico se a dor continuasse a aumentar.

Durante o dia a dor continuou a aumentar e eu não conseguia mais manter um ritmo razoável, estava se tornando difícil pedalar. O vento não estava muito forte mas mesmo assim eu estava sofrendo para avançar.

Eu pensava que talvez fosse melhor pegar uma carona para não forçar demais o joelho. Poderia descansar em Natales até me recuperar. Mas tinha medo que isso demorasse, e eu não tinha dinheiro ou tempo para ficar parado, pagando hospedaje, esperando a dor passar, e de novo comecei a duvidar que poderia continuar a viagem. Me sentia péssimo, seria ridículo desistir logo no começo.

Fiquei até a tarde com esses pensamentos na cabeça, e parei mais cedo para descansar. Já havia feito 64km e poderia chegar em Natales com calma no dia seguinte.

Estava me aproximando de um rio, e havia placas indicando que era um bom local para pescar. Seria uma boa oportunidade para testar o meu talento de pescador e ao mesmo tempo desviar o pensamento do meu problema no joelho. O local era lindo. Havia uma floresta de Lenga, uma espécie de pinheiro com tronco e galhos torcidos, como que moldados pela força do vento. As florestas de Lenga nunca são demasiado espessas e é possível caminhar entre as árvores sem problemas. O chão era coberto de capim alto, que as vezes chegava à altura da cintura. O céu estava limpo e a luz do sol penetrava através das árvores realçando o verde do capim. Era um colorido bem delicado, verde claro da grama e das copas das árvores, que de vez em quando deixavam espaço para o azul do céu.

Este pequeno paraíso tinha dono, e fui pedir permissão para acampar e pescar nas suas terras. Ele estava cuidando dos cavalos e não ficou surpreso em me ver. O que eu não sabia ainda é que a Patagônia é muito frequentada por ciclistas do mundo todo, e por isso as pessoas reagem com naturalidade ao serem abordadas.

Ele me indicou o melhor lugar para acampar e me recomendou cuidado caso fosse fazer uma fogueira.

Os incêndios florestais são um grave problema na Patagônia, pois no verão é muito seco e no chão das florestas há grande quantidade de madeira. Como o mato não é muito denso, o vento circula livre espalhando o fogo rapidamente. As estatísticas mostram que a maioria dos incêndios são provocados por turistas descuidados.

Antes de montar a barraca eu queria pescar, estava curioso para saber se as coisas podiam ser tão ideais como eu pensava. Eu já estava viajando de uma maneira maravilhosa (vamos esquecer a dor no joelho um pouquinho). Se além disto eu pudesse pescar peixes para o jantar, era bem provável que eu me transformasse para sempre em um ciclista nômade.

Cheguei ao rio, aliás, Rio Rubens, para ser mais preciso. Procurei pelo melhor local, as trutas gostam de ficar nos poços profundos que se formam nas curvas dos rios, e eu logo achei um. Selecionei uma isca tipo colher, coloquei na linha e fiz o lançamento. Engraçado, não via a isca cair na água. Lógico que não, ela estava enroscada na minha calça. Bom, tudo bem, vamos tentar de novo, desta vez com um movimento mais aberto. Cadê a isca? De novo caída aos meus pés, o que foi desta vez? Acontece que eu estava lançando a isca contra o vento, que estava bem forte no fim da tarde. A isca era leve demais e por isso não ia longe. Troquei a isca, colocando a mais pesada que tinha. Agora sim, consegui fazer os lançamentos bem no meio do rio, corrente acima.

Fiquei aperfeiçoando os meus lançamentos. É bem simples, a técnica é lançar longe e recolher a linha lentamente, até fisgar alguma coisa. Eu não sabia ainda, mas o horário para pescar trutas é muito importante, elas não gostam de muita luz e são muito mais fáceis de serem apanhadas quando o sol está se pondo ou nascendo. Havia peixes no rio, inclusive dava para ver uns peixinhos pequenos que saltavam o tempo todo. Eu lançava a isca exatamente aonde eles estavam na esperança de fisgar alguma coisa maior.

De repente, havia algo no meu anzol. Comecei a recolher a linha rapidamente até que ficou muito pesado para a carretilha, que começou a “patinar”. Dei um tranco e senti que havia fisgado algo bem pesado. Não, não era uma bota velha, era apenas um galho. Não desisti, continuei tentando até que fisguei algo bem mais pesado no fundo do rio e arrebentei a linha, perdendo a única isca pesada o suficiente para aquele vento.

O jeito foi desistir, teria que conversar com alguém para saber direito como pescar. Quando fui comprar o equipamento em São Paulo o vendedor estava muito seguro em relação às iscas que eu precisaria, me vendeu umas incríveis, idênticas a sapinhos, baratas, grilos, fora as iscas de “colher” e “mosca”. Cada uma deveria enganar o peixe de maneira diferente e era adequada a uma situação especifica. Mas todas elas eram leves demais para a Patagônia, eu precisava de iscas mais pesadas ou então teria que arremessar a favor do vento.

Bom, me resignei em comer o tradicional macarrão com atum, fiz uma bela fogueira e me pus a pensar na vida e na viagem que estava fazendo.

Realmente não havia muitas opções de coisas para se fazer, e quase toda a minha energia estava voltada para a realização das tarefas necessárias para a execução da viagem. Era uma rotina diferente da que eu levava na cidade, muito mais básica, mas com grandes desafios e recompensas. Era duro lutar contra o vento e ter que pedalar para avançar. Também era cansativo ter que montar acampamento todas as noites e arrumar o equipamento todas as manhãs, mas esse era o preço que tinha que pagar para usufruir daquela liberdade, a total imersão em uma natureza praticamente intocada. Era muito bom estar ali, na beira de uma fogueira, no meio do mato, com um lindo rio a 20 metros de distância. A minha felicidade era composta por poucas coisas, mas essas coisas se combinavam de infinitas maneiras diferentes, e sempre era possível se surpreender com a beleza, pureza, e força da natureza .

Frequentemente eu era invadido por uma profunda calma e sensação de plenitude, uma convicção de que a vida e a felicidade são coisas bem simples. Incrível como podia facilmente sentir isso em meio à natureza . Me lembrava dos meus dias em São Paulo, a eterna correria, que nos envolve até no lazer, um lazer muitas vezes feito de forma neurótica, consumista, como se tivéssemos que conquistar a felicidade para toda a vida em uma única noite.

Esse não era só o meu caso, talvez isso fosse mais verdadeiro para outras pessoas. Qualquer um pode sair à noite e ver a quantidade de gente que literalmente se esborracha em postes por estar bêbado, correndo atrás de satisfação, uma satisfação que não persiste.

O que persiste é a sensação de que está faltando alguma coisa. Aonde é que esta coisa vai ser encontrada? É difícil dizer, cada um tem uma resposta, mas de uma coisa eu tenho certeza, a maneira neurótica como vivemos nas grandes cidades não nos ajuda a perceber aonde está a verdade ou a essência das coisas.

Cada um procura inspiração em uma fonte diferente, para mim ela vem no contato com a Natureza e os elementos. Isso é tão claro para mim que eu Frequentemente pensava em como ia ser bom se toda a estrutura excessivamente artificial que o Homem criou desaparecesse.

Nada de luz elétrica, computadores, carros, aviões, fábricas, escolas, governos, medicina, química, bolsa de valores, favelas, plástico, lixo, polícia. A lista é enorme. Se o homem pudesse negociar a sua sobrevivência apenas com a natureza, tudo seria melhor, e o mundo funcionaria conforme uma lógica mais simples, ao invés de ser um caos total aonde a irracionalidade e interesses mesquinhos prevalecem, ao custo de um planeta que vem sendo destruído e ao custo de milhões de vidas de pessoas que passam por necessidades e dificilmente podem alterar os seus destinos.

Mas o Homem inventou o dinheiro, e todo um universo relacionado a ele. Hoje em dia não podemos mais ir ao rio e pescar o nosso jantar, e nem cortar uma árvore para construir a nossa casa. Temos que trabalhar em uma fábrica ou em um escritório o mês inteiro, e obter a grana, que nos dá a liberdade e condição de sobreviver neste mundo artificial, que nos distanciou do nosso estado natural.

Somos animais, viemos da natureza e pertencemos a ela, que deveria ser a coisa mais preciosa para nós. Será que valeu a pena todo este trabalho para criar todas essas coisas?

Agora é tarde demais, as nossas invenções já estão aí, o mundo está super povoado de pessoas e é impossível voltar a um estilo de vida mais primitivo. Mas ainda está ao nosso alcance reeducar o uso da tecnologia e rever os nossos valores e prioridades. Temos a tecnologia e poder de comunicação para trocar idéias e conversar, temos os números e jornais que nos mostram claramente que estamos nos destruindo, em um ritmo cada vez mais acelerado.

Temos que fazer algo realmente, não basta mais ficar reconhecendo os problemas, temos que agir, não há tempo para ser desperdiçado. O que eu posso fazer? A única coisa que me vem em mente é escrever, e torcer para que faça alguma diferença.

Pois é, vejam só quantas coisas é possível enxergar olhando para as chamas de uma simples fogueira.

No dia seguinte levantei acampamento às 11 horas pois a manhã inteira esteve chovendo. Quando estava entrando na estrada encontrei um casal de ciclistas parado na beira da estrada. Eles estavam indo na mesma direção que eu. Eram o Cris e a Jeanine, suíços, que estavam pedalando na América do sul a quatro meses. Eles eram super simpáticos e continuamos a pedalar juntos em fila indiana, para ter menos problemas com o vento.

Eu não conseguia me posicionar de maneira adequada para me proteger do vento e também estava louco para conversar com alguém, por isso ficava mudando de posição e conversando com os dois.

Cris era mecânico de bicicletas e já havia feito outras viagens de bike. Jeanine era secretária de alguém no ministério dos esportes na Suíça. Era a primeira viagem dela em uma bicicleta. Eles já haviam pedalado algo como 3000 km, um sinal de que ela havia se adaptado muito bem à vida em duas rodas.

Fiz uma maravilhosa descoberta nesta manhã, o meu joelho não doía nada se eu o mantinha aquecido. Fiz essa descoberta por acaso. Eu sempre pedalava de calças curtas e não sentia frio. Apesar disto, o vento era bem gelado e estava resfriando os tendões e ligamentos do joelho. Nesta manhã pedalei com as calças impermeáveis, que esquentavam bastante, e a dor desapareceu por completo.

Comentei a descoberta com os suíços e para a minha surpresa eles também estavam tendo o mesmo problema. Combinamos de procurar umas joelheiras ou algo parecido quando chegássemos em Puerto Natales.

Estávamos quase chegando em Natales e o Cris me perguntou se eu gostaria de tomar um mate. Mate é o chimarrão na Patagônia, só que a erva utilizada por eles é menos forte e amarga que a erva que usamos no Brasil. Eu não sou muito fã de mate, ou chimarrão se você preferir, mas naquele frio qualquer bebida quente cairia muito bem.

O que eu não entendia era a pressa em tomar algo. Afinal de contas estávamos quase chegando em Natales, faltavam 15km com muita descida, não compensava parar, montar o fogareiro, ferver a água, etc., seria muito trabalho.

Mas o Cris tinha uma solução para estes problemas. Estávamos chegando a um posto policial e segundo o Cris eles certamente teriam água quente. Eu achei a idéia ótima, se ela funcionasse. Eles me contaram que frequentemente faziam isto, simplesmente paravam nas fazendas ou qualquer lugar habitado e pediam água para um mate. As pessoas se surpreendiam um pouco com dois ciclistas gringos falando espanhol, mas eram sempre super hospitaleiras.

Além de pedir água quente, Cris e Jeanine às vezes pediam para usar o forno para fazer pão. O irmão do Cris era padeiro e o havia ensinado a fazer um ótimo pão integral. Isso surpreendia os fazendeiros mais ainda, mas todos saiam ganhando. Os fazendeiros conheciam um pouco sobre a Suíça, tinham um pouco de companhia para quebrar a solidão, e ganhavam um pão delicioso. Além de aprender a receita, é claro. Já Cris e Jeanine conseguiam fazer o seu pão, e tinham uma ótima oportunidade de conhecer bem de perto a cultura gaúcha e praticar Espanhol, que aliás já falavam bastante bem.

Bom, chegando ao posto policial eu esperei que Cris fizesse os contatos. Não é que funcionou mesmo? Entramos e fomos levados a uma sala aonde nos sentamos em um sofá. A água foi posta para ferver enquanto nós conversávamos com um dos policiais. Aquele posto policial servia de polícia fronteiriça, pois naquele ponto a estrada se bifurcava e levava à Argentina, a apenas 17km de distância. Na minha opinião havia policiais demais, algo como oito, para cuidar de uma estrada aonde havia pouquíssimo movimento. De qualquer forma tomamos o mate, que desceu muito bem, e continuamos o nosso caminho.

Assim que começamos a pedalar começou a chover, a primeira chuva de verdade que vi até então. Nas outras vezes as chuvas foram muito leves, uma garoa fina, sempre acompanhada de muito vento que acabava me secando na medida em que me molhava, ou seja, eu praticamente não me molhava. Bom, agora era diferente, o vento estava leve e a chuva grossa. Paramos para colocar as nossas roupas impermeáveis, e eu fiz a segunda descoberta do dia. Só que foi uma descoberta desagradável; A minha jaqueta e calças “impermeáveis” não eram tão impermeáveis assim. Seguravam a chuva por cinco minutos e aí eu já começava a sentir a água me molhando. Isso era mal pois eu estava levando um número mínimo de peças de roupa e era fundamental ter as roupas de baixo secas quando eu parasse, pois só tinha uma blusa que esquentava bem. Enquanto estava pedalando eu não tinha problemas com o frio mas era vital me agasalhar bem quando parasse. Desta vez não ia ser problema pois estávamos chegando na cidade e teríamos abrigo, mas eu tinha imaginado que estas roupas iam me possibilitar pedalar debaixo de chuva, o que não era verdade, e isso me tornava dependente de bom tempo para poder pedalar.

Comentei o assunto com Cris, que me disse que tinha o mesmo problema. A verdade é que a maioria dos materiais “impermeáveis” perdem a sua impermeabilidade depois de um certo tempo, especialmente se lavados com sabão que não seja de PH neutro ou se lavados com certa violência, com escova ou sendo centrifugados. Esse não era o nosso caso, aliás eu até evitava lavar a jaqueta exatamente para não ter esse tipo de problema.

Para uma roupa ser realmente impermeável ela deve ser feita de borracha ou de nylon resinado. O problema com este tipo de material é que eles não permitem a evaporação da transpiração e a pessoa acaba se molhando com o próprio suor. Cada pessoa deve definir as suas prioridades. Os materiais impermeáveis que permitem a evaporação da transpiração são muito bons contra o vento e neve, além de serem leves e práticos, mas não oferecem proteção total contra a chuva e exigem cuidados especiais na lavagem.

Continuamos a nos molhar com a chuva, mas descíamos bem rápido e podíamos ver a cidade perfeitamente.

5 - Em Puerto Natales

Puerto Natales fica nas margens de um braço de mar chamado Seno Última Esperanza. Aliás Última Esperanza também é o nome da província, ou estado, onde estávamos. Nomes bem sugestivos, e o visual correspondia à imaginação. Do outro lado do Seno, que tem aproximadamente 2km de largura, havia montanhas altas com os picos cobertos de neve. Naquele exato momento estava nevando lá em cima, pois a chuva aqui embaixo era neve em altitudes mais elevadas.

Natales é bem pequena, com apenas 8.000 habitantes, e não havia nenhum sinal de presença humana fora dos limites da cidade. O tempo chuvoso contribuía para dar um ar mais sombrio ainda ao lugar, mas isso só aumentou a minha animação. Eu estava no lugar certo, fazendo a coisa certa, e apesar do vento, chuva e dor no joelho, tinha conseguido percorrer 250km, o que queria dizer que eu conseguiria fazer quantos quilômetros eu me propusesse a fazer.

Não havia ninguém na rua por causa da chuva e fomos diretamente até a casa de informações turísticas, perguntar por algum hotel ou “hospedaje” barato.

Estávamos de volta a civilização, havia aquecimento na casa. Incrível como é gostoso ter quatro paredes te isolando da chuva e do frio. Ficamos nos esquentando por um bom tempo, até que a chuva diminuiu e fomos até a Hospedaje Casa Cecilia, a apenas dois quarteirões de distância.

Havia um enorme movimento na hospedaje, eu não conseguia entender de onde tinham saído tantos turistas, suíços, alemães, franceses, e até um grupo de três brasileiros! Tivemos até um pouco de dificuldade para conseguir um quarto.

Depois de um maravilhoso banho quente e uma sopinha, fui me encontrar de novo com o Cris e a Jeanine, que tiveram que pegar um quarto em uma outra pensão que pertencia à mesma dona.

Os preparativos para o almoço já estavam a pleno vapor, fiquei impressionado com a quantidade de equipamento que eles carregavam. Eles tinham uma pequena pasta que continha vários tipos de tempero, inclusive óleo e vinagre, coisas que são difíceis de levar em uma bike pois podem vazar. Eles estavam fazendo uma salada enorme e um prato de macarrão maior ainda. Uma garrafa de vinho já tinha sido trazida por um francês, e a conversa rolava solta.

Incrível o quão rápido nossa situação mudou. Apenas duas horas atrás estávamos pedalando na chuva e no frio, sozinhos, sem imaginar quantos viajantes havia tão perto de nós. Para mim foi uma grande surpresa, eu achava que a Patagônia seria um lugar difícil de se viajar e que haveria pouco turismo ali. Entretanto, as hospedajes estavam lotadas. Janeiro é alta temporada na Patagônia. Puerto Natales é o ponto de partida para se visitar o Parque Nacional Torres del Paine, o mais famoso no Chile e talvez na América do Sul também . Todos os dias há ônibus que vão e voltam ao parque , que se localiza a 150km ao norte de Puerto Natales. O resultado disto é que todos os dias conhecíamos novas pessoas, e passávamos horas matando a nossa fome de conversar.

O tempo estava péssimo, choveu três dias seguidos, chegamos exatamente na hora certa. Usamos o tempo para descansar, comer bem, e fazer umas joelheiras para nos proteger do frio. Encontramos uma senhora que fazia blusas com lã de carneiro, e encomendamos umas joelheiras com ela. Foi uma ótima idéia pois nunca mais tivemos problemas com o frio ou dor.

No mesmo dia em que chegamos a Natales, chegaram outros quatro ciclistas. Dois alemães que já haviam encontrado os suíços antes pela estrada, e mais um argentino, e um americano. Eu mal podia acreditar, parecia até que a grande moda era pedalar na Patagônia. Na realidade o que acontece é que aquela era a melhor época para se pedalar por ali, e por isso havia aquela concentração de ciclistas.

Era curioso como cada ciclista tinha seu estilo próprio e uma história diferente. O argentino era o “hippie” da turma, cabelo e barba enormes, o equipamento todo remendado, e era quem mais pedalava, Tinha, como ele dizia, “fome de comer estrada”, e partiu no dia seguinte ao que chegou, junto com o americano. O americano era bem reservado e não deu para saber muito dele.

Os Alemães estavam iniciando a viagem deles e, como eu, tinham três meses para pedalar. Apesar disto tinham uma grande distância para percorrer e uma data certa para chegar a Quito, no Equador, a não sei quantos mil quilômetros mais ao norte. Eles teriam que pegar carona ou ônibus para cobrir algumas partes do percurso. Estavam com pressa e também saíram no dia seguinte.

Eu não saí até que o tempo melhorou, e pude ver as marcas dos pneus deles na lama durante os 100km até o Parque Torres del Paine. Com certeza eles sofreram bastante na chuva, mas nunca soube dos detalhes pois nunca os reencontrei. Acho que eles nem ficaram no Parque pois se o tivessem feito, eu os teria encontrado.

Assim que o tempo melhorou eu me preparei para partir, e comprei uma capa de chuva de verdade, daquelas amarelas emborrachadas. Não queria arriscar passar frio em caso de chuva. Ia deixar os suíços para trás, eles estavam curtindo passar o dia todo jogando conversa fora, mas eu achava que as conversas estavam começando a se repetir demais, já havia contado a minha viagem e ouvido as dos outros centenas de vezes, e estava começando sentir “fome de estrada” de novo.

Fiz compras suficientes para 15 dias, pois no parque Torres del Paine só havia um armazém que cobrava preços bem caros e não tinha muitas coisas. Seguindo o exemplo dos suíços encrementei a minha cozinha com três caixinhas de filme fotográfico contendo temperos como curry, noz moscada e canela. Também levei “Aji chileno”, um molho de pimenta bastante semelhante a chili.

Além das novidades, comprei também o tradicional. Para o café da manhã musli, que na realidade não existia. Eu comprava aveia e misturava com uvas passas, leite em pó e canela, era uma delícia. Todas as manhãs comia uma panelada e podia pedalar até uma da tarde sem sentir fome. Na hora do almoço comia pão. Acabei até aprendendo a receita dos suíços e fazendo o meu próprio pão para este trecho. Levava queijo, salame, e um delicioso doce de leite para passar no pão. Um chocolatinho fazia a sobremesa, e para beber levava suco tipo “Tang”, que por sinal era muito bom. Para o jantar levava macarrão ou purê de batatas desidratado, e carne de soja desidratada. Para fazer molho para o macarrão usava sopas tipo “Maggi”, e assim podia sempre fazer uma combinação diferente destes ingredientes, nunca me enjoando do que comia. Vale lembrar que com a fome que sentia no fim do dia, comeria até macarrão sem molho nenhum. Eu levava ainda cebola, alho e cenouras. Não levava nada de frutas pois ocupavam muito espaço e são difíceis de conservar sem amassar.

Demorei um bom tempo para colocar todos os mantimentos na bike, que ficou mais pesada do que nunca. Depois de comprar querosene para o fogareiro estava finalmente pronto e fui me despedir dos suíços, mas no caminho arrebentaram dois aros da roda traseira. Saco, já era de tarde e eu não aguentava mais ficar em Natales. Fui empurrando a bike até a hospedaje dos suíços para que Cris me ajudasse. Os raios quebraram no lado direito da roda, ou seja, o lado difícil de arrumar sem a ferramenta adequada, o famoso “Hyper Cracker” que eu não conseguira comprar em Santiago.

O Cris tinha a ferramenta e arrumamos a bike rapidinho. Passei em uma bicicletaria e comprei mais alguns raios de reserva pois agora a bike estava mais carregada e a estrada seria de terra.

Finalmente estava de volta à estrada, às 18:30, o mesmo horário que eu saíra de Punta Arenas.

6 - De Natales a Torres del Paine


De Natales até o Parque Torres del Paine deveriam ser algo como 100/150km, não sabia com certeza pois estava seguindo uma estrada que não estava aberta ao tráfego normal e nem constava nos mapas. A estrada ligava Natales a fazendas e depois seguia até o Parque, mas não havia pontes e por isso ela estava fechada para o trafego de veículos convencionais.

Mas esta estrada era 50km mais curta que a estrada normal e passava por uma área muito mais bonita e interessante. Quem me deu essas informações foi o Cris, que por sua vez tinha ouvido falar dela através de seu irmão, que havia feito aquela viagem alguns anos atrás. Só não sabíamos se a distância era de 100 ou 150km, mas sabíamos que os rios sem ponte eram pequenos e “atravessáveis”.

O tempo estava encoberto e ameaçando chover, mas se manteve seco. Estava pedalando em um vale estreito, com montanhas cobertas de neve à minha volta. A estrada era de terra e não havia nenhum carro. Eu estava sozinho de novo e a sensação era ótima, parece que a aventura aumenta quando se está sozinho.

Havia alguma coisa estranha no ar e demorei a perceber o que era. É que não havia nada de vento, e o silêncio era total quando eu parava de pedalar. Era a primeira vez que isso acontecia e o silêncio dava uma aparência diferente à paisagem, a fazia parecer delicada e misteriosa, até mesmo um pouco ameaçadora por causa das nuvens baixas.

Era muito bom perceber essas coisas, a natureza estava sempre se renovando e me impressionando de uma maneira diferente, bonita e inesperada. Às vezes a diferença era sutil, outras vezes mais forte e dramática.

Depois de três horas de pedalada e 40km percorridos, parei para acampar na beira de um riozinho, sobre o qual havia uma ponte. Somente perto do Parque é que os rios seriam sem ponte. Achei lenha para uma fogueira e depois de jantar ainda fiquei curtindo o silêncio daquela noite meio sombria na beira do fogo.

Na manhã seguinte, para minha surpresa, o céu amanheceu limpo e o vento estava praticamente ausente. Comecei a pedalar com vontade e após 10km parei para observar melhor o horizonte à minha frente. Eu podia ver, a uma grande distância, umas montanhas com formas bem estranhas e recortadas. Elas aparentavam ser pequenas mas eu sabia que era o efeito da distância, pois aquelas deveriam ser as famosas Torres del Paine, vistas à uma distância de aproximadamente 60km. Elas estavam cobertas de neve e por isso eram tão fáceis de perceber em contraste com as colinas que as rodeiam.

A estrada era bastante plana e eu consegui manter uma boa velocidade, logo chegando às margens de um lago de águas azuis bem claras.

Continuei a pedalar e logo encontrei o primeiro rio sem ponte. Ele era pequeno e passei no embalo, o fundo era plano e foi fácil de atravessar. Do outro lado do rio havia um rebanho de vacas, que ao me verem em meu cavalo metálico ficaram assustadas. Elas estavam acostumadas a ver cavalos de carne e não de ferro, e fugiram em disparada.

As vacas não fugiam para longe da estrada, apenas corriam uns 500m pela beira dela e ficavam me esperando, para depois correr de novo. Eu tentava ultrapassá-las mas não conseguia, e ficamos brincando de pega-pega por um bom tempo.

Finalmente elas cansaram da brincadeira e me deixaram ultrapassar. Logo em seguida encontrei um portão, que precedia uma ponte sobre um rio bem grande. “É isso, estou entrando no parque”, pensei. Segundo o meu mapa o parque se iniciava logo após um grande rio. Mas eu estava enganado, ainda tive que pedalar mais uns 20km até chegar ao “Rio Grande”, que marcava a fronteira do parque. O terreno agora era cheio de pequenas montanhas bem íngremes e eu tinha que descer para empurrar a bike em muitas das subidas. Podia ver as marcas profundas deixadas pelos ciclistas que vieram antes de mim e ficava imaginando como eles deviam ter sofrido para passar por ali.

Após mais de duas horas nesse sobe e desce, finalmente cheguei a uma espécie de platô e podia ver de novo as Torres. Parecia que nunca ia alcançá-las. Elas estavam bem visíveis mas ainda longe.

Lá pelas 19:30 eu finalmente cheguei ao famoso “Rio Grande”. Na verdade o rio era enorme, e a correnteza era forte. Felizmente havia uma ponte sobre o rio pois ele era demasiado largo e profundo para ser atravessado a pé ou nadando. Armei a minha barraca do lado de fora do Parque, antes do rio, e devorei o jantar rapidamente.

Resolvi tentar de novo a minha sorte como pescador pois tinha visto umas pessoas pescando na ponte. Eu, muito otimista, reuni lenha para a fogueira na qual ia assar a minha primeira truta. Preparei o equipamento de pesca e fui para a ponte, ao lado de um pescador argentino. Ele era jovem mas tinha cara de quem sabia o que estava fazendo, pelo menos o equipamento dele estava bem usado. Ele me falou que o horário era ideal para pescar, as trutas gostam de pouca luz e por isso são mais fáceis de apanhar de manhã cedo ou no fim da tarde. Apesar disto ele estava tentando pescar ali há dois dias e não teve nenhuma sorte.

Estávamos sobre a ponte, de costas para o vento e por isso era fácil lançar a isca na água. Se eu fosse apanhar algo, teria que ser naquela tentativa. Mas o tempo foi passando e a luz foi ficando bem fraca. Às 22:00 o meu companheiro argentino resolveu desistir. Eu resolvi ficar, talvez pudesse contar com um pouco de sorte de principiante.

Assim que ele foi embora uma truta mordeu a isca. Eu senti um tranco na linha e puxei a vara para fisgar o peixe. Imediatamente comecei a recolher a linha, sentindo o peso da truta. O peixe deu um enorme salto para fora d’água, parecia que estava saltando em câmara lenta de tanto tempo que ele ficou no ar. Era mesmo uma truta, eu lembrei das fotos que tinha visto. Era linda e logicamente enorme, a maior do rio com certeza. Ela não gostou de eu a estar puxando corrente acima e puxou com força no sentido contrário, ganhando linha de volta.

Era guerra, eu regulei a carretilha para dificultar o trabalho da truta e de repente ela parou de puxar. Era minha vez, eu recolhia a linha como um louco, e a distância entre nós ia diminuindo aos poucos. A truta é um peixe famoso por ser combativo mas eu estava ganhando terreno apesar de ela conseguir recuperar linha de vez em quando.

Foi então que eu comecei a pensar em como tirar o peixe da água. Eu estava sobre a ponte a uns dois metros acima do nível da água. Era muita altura para levantar um peixe, eu teria que descer até a margem, mas era impossível pois havia uma árvore aonde a linha iria enroscar se eu tentasse descer. A única possibilidade seria saltar da ponte para a margem, mas lá estava a maldita árvore. A solução então seria saltar dentro da água, na beira do rio, mas era perigoso quebrar um pé nas pedras do fundo. Eu pensava tudo isto enquanto enrolava a carretilha como um louco, e o peixe estava se aproximando. A culpa era daquele pescador que eu estava imitando. Onde já se viu pescar em cima de uma ponte de onde não se pode descer!

Bom, o peixe estava agora embaixo de mim, e nadava quase calmamente, deixando a nadadeira dorsal aparecer fora da água às vezes. Dei uma outra olhada para as pedras sob a água onde teria que saltar mas não tive coragem, e me preparei para puxar o peixe.

Foi ridículo, o peixe nem saiu da água. A linha arrebentou com ele ainda dentro da água, e ele provavelmente iria morrer à toa com uma isca pendurada na boca. Eu estava possesso, queria gritar de raiva, queria pular de cabeça atrás da filha da truta, quebrar a vara, jogá-la no rio, mas me contive e voltei para a minha barraca.

Acendi a fogueira, mas ficar olhando para o fogo não me acalmou. Fui para a cama ouvindo uma música bem calma no walkman, e acabei pegando no sono pois estava super cansado. Aquele havia sido o dia mais longo até então, 5 horas de pedal para cobrir 50km.

7 - Torres del Paine



Na manhã seguinte a primeira coisa que me veio à cabeça foi a truta, mas felizmente eu teria um monte de coisas nas quais pensar e com as quais me distrair. Iria finalmente entrar no parque, começar a caminhar e chegar até as famosas torres, que pareciam dentes de um jacaré gigante de boca aberta.

O Parque Torres del Paine é provavelmente o parque nacional mais famoso na América do Sul, tem uma área de 2420km quadrados, e foi declarado patrimônio da humanidade pela Unesco em 1978. O nome Paine tem suas origens na língua dos índios Mapuche e quer dizer azul claro. Provavelmente a área recebeu esse nome por causa dos inúmeros lagos glaciais de cor azul claro que existem por lá.

O maciço do Paine atinge uma altura de mais de três mil metros e se destaca do relevo circundante, que tem uma altura média de apenas 100 metros. As Torres do Paine são três enormes colunas de granito rosado.

Existe uma trilha que circunda o maciço inteiro, tem 86km de extensão e leva uma média de 8 dias para ser percorrida. Existem caminhadas adicionais que se desviam da trilha principal e fazem com que o tempo de caminhada e a distância possam ser maiores caso se queira explorar o parque mais profundamente.

O parque é bastante visitado por turistas chilenos e do mundo inteiro, e tem vários campings e refúgios ao longo do percurso. Existem até hotéis de luxo dentro do parque, uma infra-estrutura impressionante.

Atravessei a ponte sobre o Rio Grande, que estava bem destruída. Era impossível atravessá-la de carro, ou mesmo pedalando, pois a maioria das tábuas havia caído. No pedaço mais crítico havia somente duas tábuas. Sobre uma coloquei a bike, e eu ia caminhando na outra, empurrando a bike. Não havia condição de pedalar. O vento soprava forte e por isso atravessei bem devagar tomando muito cuidado para não perder o equilíbrio e cair na água.

Comecei a pedalar, com as Torres diretamente à minha frente. Eu estava me dirigindo ao Lago Grey, aonde havia uma guarderia, o local aonde se encontram os guarda parques. O plano era deixar a bike lá, colocar a bagagem na mochila, e fazer uma caminhada até o Glaciar e Lago Pingo.

A distância até a guarderia era de apenas 25km, mas eu não imaginava quanto esforço ia me custar para chegar até lá. O grande problema foi o vento, que começou a soprar forte já pela manhã. Ele vinha do lado esquerdo e eu tinha dificuldades para pedalar em linha reta. A estrada estava em más condições e a melhor parte para se pedalar era o extremo direito dela. Era uma pedalada delicada pois o vento ameaçava me empurrar para fora da estrada. Fui me acostumando e até aumentei um pouco a velocidade pedalando o mais rápido que podia. Foi uma imprudência, e logo paguei por ela. Uma rajada mais forte me empurrou um pouquinho para a direita e quando dei por mim estava voando, mais precisamente aterrissando de lado no barranco que havia ao lado da estrada, e rolando igual a um jogador de futebol quando quer encenar uma falta. Tudo foi muito rápido, mas felizmente não me machuquei. A bike também estava inteira mas a parte esquerda do bagageiro dianteiro havia entortado para fora. Desentortei o quanto pude com a mão, mas com isso o metal deu uma rachadinha, que comprometeu a resistência do bagageiro. Teria de encontrar algum lugar para soldá-lo. A minha sorte é que ele era de metal, que é um material fácil de soldar, e não de alumínio para o qual necessitaria de uma solda especial. De qualquer forma eu precisaria de sorte para encontrar uma máquina de solda, talvez em um dos hotéis ou com os guarda parques.

Deixei o problema para depois, por hoje daria para chegar até a guarderia sem complicações. Faltavam então 18km, só que a estrada virava para a esquerda e eu comecei a ter o vento bem de frente. Parecia até que o vento estava aumentando, eu tinha que pedalar em primeira marcha, fazendo a ridícula velocidade de 6km por hora! Daquele jeito eu levaria três horas para chegar até a guarderia!

Não havia nada a fazer, a não ser pedalar. O vento continuou aumentando e depois de mais ou menos uma hora ficou difícil pedalar. Eu estava indo tão devagar que se tornava complicado manter o equilíbrio em cima da bike, e acabei levando outro tombo.

A roda da frente oferecia bastante resistência ao vento, e se eu a desalinhasse um pouco, o vento a dobrava com violência para o lado. Como a bike estava carregada e eu estava andando bem devagar, era difícil evitar cair. A solução foi andar a pé, empurrando a bike, em plena planicie!

O vento já estava muito forte, mas ia aumentar ainda mais. Eu estava finalmente conhecendo os famosos super ventos da Patagônia. E já que eles demoraram para aparecer, estavam soprando com vontade. Lá estava a natureza com outro de seus espetáculos surpreendentes. As Torres continuavam ali ao lado, lindas, impassíveis, mas as nuvens sofriam com a violência do vento. Elas eram espremidas contra as Torres, e forçadas a subir as suas paredes. Quando finalmente superavam os cumes, seguiam sua louca corrida. Parecia até que as Torres eram chaminés de um trem a vapor, deixando um rastro de fumaça inclinado no céu.

Vendo isso eu entendi o motivo de o vento estar tão forte. Eu estava em um vale, entre o Maciço das Torres e uma outra montanha. O vale funcionava como um funil, multiplicando a força do vento. O vale se estreitava ainda mais lá na frente e a estrada deixava de ser plana. Havia uma subida, não muito íngreme, mas com uns dois quilômetros de comprimento.

Mas eu ainda não tinha chegado lá. O vento agora estava levantando nuvens de poeira e pequenas pedras quando soprava mais forte. Eu podia ver as rajadas se aproximando pois elas levantavam uma verdadeira nuvem de poeira da estrada. Eu me inclinava para a frente, freiava a bike, e fechava os olhos até as rajadas passarem.

Não havia nenhum lugar onde se esconder do vento, tudo era absolutamente plano, teria de continuar de qualquer maneira. Na subida a coisa piorou ainda mais, era difícil subir andando, o melhor era correr pois aproveitava melhor a força da inércia. Eu aguentava correr algo como vinte metros e tinha que parar para descansar. Foi em uma destas paradas para descansar que me distrai e desalinhei um pouco a roda da frente em relação ao vento. Foi o suficiente para que a bike fosse jogada para o chão de novo. Eu tentei evitar que ela caísse e acabei indo para o chão junto! Era o cúmulo, cair de bike estando em pé, no chão!

Com muito esforço, acabei chegando ao topo da subida aonde encontrei uma pedra, atrás da qual dei uma parada para descansar. Dali para a frente foi mais fácil pois era descida, e eu desci com todo cuidado pois já havia levado tombos suficientes naquele dia. Antes de chegar a guarderia, ainda encontrei com um casal de ciclistas ingleses que estavam indo na direção contrária. Eles estavam se divertindo com o vento pelas costas e nem precisavam pedalar.

O guarda parque me recebeu muito bem e me informou que o vento havia atingido 100km por hora nas rajadas. Deixei a bike na guarderia e fui até as margens do Lago Grey, aonde havia vários icebergs encalhados na areia!

Esses icebergs haviam se desprendido do Glaciar Grey, a mais ou menos 15km de distância e foram arrastados pelo vento até encalhar na areia! Eu estava entrando em contato com um outro universo, aonde as dimensões eram enormes e o tamanho do Homem insignificante. O passar do tempo também não fazia muita diferença pois aqueles glaciares já estavam ali muito antes do homem ter dado os primeiros passos na Terra.

Já que estamos falando de glaciares e icebergs, convém explicar um pouco sobre como funciona a mecânica das águas nesta parte da Patagônia.

Um glaciar pode ser definido como um “rio” de neve e gelo. Ocorre muita precipitação de neve nas montanhas. Essa neve vai se acumulando e precisa escorrer para o lado mais baixo da montanha, exatamente como faz a água. A diferença e que a neve é solida e “escorre” muito lentamente, tão lentamente que acaba se transformando em uma espécie de gelo, devido as variações de temperatura que sofre ao longo do dia e a compactação ocorrida com a pressão do seu próprio peso. O gelo “escorre” ainda mais lentamente que a neve, rachando na medida em que se move, e cada glaciar tem a sua velocidade própria de movimento, que nunca passa de centímetros por hora.

Os glaciares ocupam áreas enormes, cobrindo vales inteiros entre montanhas. O gelo dos glaciares está sempre derretendo, e por cima e por baixo deles existem inúmeros rios, que acabam formando lagos. Portanto, aonde há um glaciar, há sempre um lago, e também um rio, por onde corre o excesso de água do lago. É por isso que existem glaciares, lagos e rios com o mesmo nome, todos relacionados entre si.

Uma grande particularidade dos glaciares na Patagônia é que muitos deles não se originam em simples montanhas e sim no Campo de Gelo Sul, que é a área de maior concentração de geleiras fora dos Pólos, com uma área de aproximadamente 14.000 quilômetros quadrados. O Campo de Gelo Sul é o que resta da última era glacial na América do Sul. Há também o Campo de Gelo Norte, que se localiza um pouco ao norte do Campo de Gelo Sul. É bem menor, mas ainda assim tem uma área de 4500 quilômetros quadrados.

Aquele estava sendo um dia cheio de emoções e ainda não tinha terminado. Fiquei um bom tempo nas margens do Lago Grey olhando os icebergs e depois voltei a guarderia para me preparar para a caminhada.

O guarda parque era muito simpático e acostumado a ter ciclistas deixando suas bikes com ele. Peguei minha mochila de caminhada, que estava dobrada dentro de um dos alforjes dianteiros e a montei, colocando nela a sua armação interna que eu carregava junto com a barraca. Depois de montada a mochila, separei as roupas, equipamentos e comida que ia necessitar e organizei tudo. Estava levando comida suficiente para 4 dias, e a mochila estava pesando por volta de 12kg.

Neste primeiro dia iria somente até o Refúgio Pingo a uns 40 minutos de distância e dormiria lá. A caminhada era curta mas foi gostosa, pela margem do Rio Pingo. Era outro estilo de viagem, que permitia um contato mais próximo à natureza ainda do que quando estava de bike.

O refúgio, que estava muito mal conservado, estava lotado com argentinos, chilenos e europeus. Havia várias barracas em volta do refúgio e montei a minha perto das outras, tendo um pouco de dificuldade com o vento, que já tinha enfraquecido, mas continuava bem forte. Preparei o jantar e voei para a cama. Finalmente o dia chegara ao fim. Ainda demorei a pegar no sono pois o vento sacudia a barraca que estalava e fazia barulhos estranhos.

No dia seguinte o vento continuava forte e ameaçava chover. Comecei a me preparar, e com a minha tradicional lentidão matinal estava pronto para sair às 11:30.

Iniciei a caminhada sozinho, a trilha seguia o Rio Pingo por um certo tempo, depois entrava em uma floresta de Lenga e começava a subir uma montanha. A trilha era bem bonita e dava para ver o topo de montanhas nevadas por entre as copas das árvores.

Depois de 2 horas de caminhada cheguei em uma cachoeira e parei para almoçar. A cachoeira não era muito bonita e por isso continuei em seguida, desta vez acompanhado por um grupo de chilenos que me alcançaram enquanto eu almoçava. Eram 5 amigos que estavam pela primeira vez no Parque, fazendo a caminhada até o Glaciar Pingo para depois percorrerem o circuito em volta do Maciço do Paine.

O terreno até o refúgio não era muito acidentado mas havia começado a chover e havia muita água na trilha. Isso atrapalhou os chilenos que não tinham sapatos a prova d’água e precisavam sempre buscar um caminho mais seco para prosseguir. Eu os deixei para trás e logo cheguei ao refúgio.

O refúgio Zapata estava ainda mais mal cuidado que o refúgio Pingo. As paredes eram totalmente pretas devido à fumaça que escapava da “salamandra”, que é um tipo de fogão à lenha. O local estava infestado de “ratones” e por isso toda a comida tinha que ser pendurada em arames no teto. Não havia ninguém dormindo lá mas preferi montar a minha barraca do lado de fora.

Algum tempo depois os chilenos chegaram e passamos o resto da tarde no refúgio secando as roupas que penduramos sobre a salamandra, que não parava de soltar fumaça e defumar a todos no local.

No dia seguinte criei coragem para tomar um banho de rio. Desde que saíra de Natales não tive nenhuma chance de tomar banho e nem teria tão cedo. O jeito foi encarar o rio gelado mesmo.

A água corre muito rápido e não dá para entrar mais fundo que a altura das coxas pois a água acaba te derrubando. Entrei até a altura dos joelhos e deitei rapidamente na água. Era super frio e saí rapidamente pois além do frio, quando se deita na água a correnteza começa a te arrastar imediatamente. Sai do rio, me ensaboei tremendo de frio e mergulhei de novo. Sorte que com a força da correnteza o sabão vai embora rapidamente. Me sequei no vento mesmo pois a minha toalha era bem pequena e não dava para me secar inteiro com ela. Engraçado como o vento funcionava bem como secador. Fora da água estava tão menos frio que dentro, que eu me sentia quase confortável!

Bom, até que não foi tão ruim. Acabou rápido, e eu já estava aquecido de novo, e limpo. Voltei ao refúgio, e junto com os chilenos, fui até o lago e glaciar Pingo.

Antes de chegar ao nosso destino, teríamos que atravessar a pé o rio Pingo pois a ponte que passava sobre ele havia sido destruída na semana anterior por uma enchente. Chegando ao rio procuramos por um local adequado para atravessar, e gastamos algo como duas horas para encontrá-lo pois todos os lugares pareciam fundos demais.

Finalmente escolhemos fazer a travessia em um lugar onde o rio era bem largo e parecia ser menos fundo. O nosso cobaia para a travessia foi o Maurício pois ele era o único que tinha trazido um par de sandálias para atravessar o rio com mais facilidade. Os outros teriam que atravessar descalços mesmo. A travessia não foi difícil, o rio estava na altura do início da coxa e usamos bastões de pau para ajudar a manter o equilíbro. O problema maior era a água fria. Chegava a doer de tanto frio, mas antes de chegar ao outro lado, os pés já estavam adormecidos e ninguém sentia mais frio. As pedras do fundo também atrapalhavam bastante e tínhamos que ir devagar para não machucar os pés. Chegando no outro lado paramos para secar os pés e conversar, e vimos dois turistas que vinham atrás de nós e estavam chegando no rio. Eram o Cris e a Jeanine!

Foi legal reencontrá-los, eles haviam me alcançado rápido e haviam tido os mesmos problemas com o super vento. Fomos todos juntos até o Lago Pingo, mas no caminho começou a chover de novo, e quando chegamos no lago não havia muita coisa para ver com o tempo encoberto.

Resolvemos voltar pois todos estavam molhados e cansados. Quando estávamos andando à uma meia hora, o tempo abriu de repente, confirmando a famosa Lei de Murphy.

Passamos mais uma tarde comendo, defumando as nossas roupas e a nós mesmos. Pelo menos estávamos em um grupo grande e o tempo passou rápido conversando.

No dia seguinte o tempo continuava ruim, choveu até o meio dia e só então comecei a caminhada para voltar a guarderia. Voltei sozinho pois o Cris e a Jeanine já tinham ido e os chilenos conseguiam ser mais enrolados que eu para se arrumar. Nos encontramos todos no refúgio Zapata pois era o último refúgio grátis naquela área do parque.

É possível ficar no Parque gastando pouquíssimo dinheiro, mas é necessário um pouco de planejamento pois não são todos os refúgios e campings que são grátis. Foi por isso que paramos todos no refúgio Zapata, para poder ter o dia seguinte inteiro para chegar ao próximo refúgio grátis.

No dia seguinte eu e os suíços saímos cedo pois pretendíamos pegar uma lancha que partia da guarderia Grey, atravessava o lago e levava até o glaciar Grey. O nosso plano era iniciar a caminhada lá. Optamos por não fazer o circuito completo pois não tínhamos tempo e ouvíramos dizer que a parte de trás do circuito não era tão interessante quanto a parte da frente. Entretanto, não pudemos fazer o planejado pois só era permitido comprar passagem de ida e volta para a lancha, e não tínhamos tanto dinheiro(30 dólares ida e volta).

Ficamos bem aborrecidos pois teríamos que dar uma volta enorme para só então chegar ao glaciar. Esse problema seria facilmente contornado se houvesse uma ponte para atravessar o Rio Grey. Por enquanto os turistas tem que pagar por travessias de barco até que a administração do Parque resolva melhorar um pouco a estrutura existente. Existe um projeto que envolve a construção de algumas pontes e campings, mas vai levar algum tempo até que seja posto em execução.

Mudamos os nossos planos e resolvemos pedalar até o refúgio Pudeto, que era grátis, e de lá poderíamos pegar uma lancha pagando passagem só de ida. Pedalei com os suíços até a administração do Parque e fiquei por lá procurando uma máquina de soldar para arrumar o meu bagageiro. Dei sorte pois havia uma com os militares, que estavam consertando as estradas do parque e tinham máquinas pesadas. Em cinco minutos já tinha arrumado tudo, e mais uma vez fiquei feliz por ter um bagageiro de ferro, que é fácil de soldar.

Reencontrei os suíços no refúgio e passamos a tarde comendo, que é o passatempo predileto do ciclista, e arrumando as mochilas para o dia seguinte. Deixamos as bikes em uma guarderia perto de Pudeto e no dia seguinte pegamos a lancha até o camping Pehoe.

A travessia leva uma hora e custa 12 dólares. O camping Pehoe tem uma localização estratégica e muitas pessoas passam a noite lá. Pode-se acampar por 4 dólares, com direito a banheiro com água fria para banho, ou dormir no refúgio, pagando 15 dólares, com direito a banheiro e água quente.

Optei por acampar ali mesmo. Cris e Jeanine foram embora em direção ao glaciar Grey, aonde iriam acampar. Eu acabei indo até o Grey também mas não levei a minha mochila, pois iria voltar para dormir em Pehoe. Foi uma boa idéia, de Pehoe até o Grey eram três horas de caminhada, com mais três horas para a volta.

Acabei levando menos tempo que isso pois sem a mochila ia mais rápido que os outros. O glaciar Grey é realmente impressionante. Um corredor de gelo imenso que desce do Campo de Gelo Sul e termina no lago Grey, aonde a parede de gelo, de 40m de altura, se rompe e enormes blocos de gelo caem na água aonde flutuam e vão derretendo aos poucos.

A trilha até o Glaciar estava cheia de gente. Encontrei dois grupos de brasileiros e também um enorme grupo de argentinos, que estavam fazendo a sua viagem de formatura no circuito.

Achei bem original, eram garotos e garotas com uma média de 15 anos. Estavam em um grupo de cem pessoas, acompanhados por 6 professores. Entretanto, durante a caminhada cada um seguia seu próprio ritmo e o grupo se dispersava, para se encontrar somente no final do dia, quando tinham que montar as barracas, cozinhar, lavar, etc.

As trilhas no Parque são muito bem marcadas e não há risco de se perder. O terreno também não é demasiadamente acidentado. Existem muitas subidas íngremes, mas não há nenhum trecho onde seja perigoso cair e se machucar. É pesado carregar uma mochila por várias horas, durante dias seguidos, mas a grande maioria do pessoal estava se divertindo muito. Havia aqueles que estavam sofrendo para carregar as mochilas, mas o grupo estava se movendo lentamente e havia tempo de sobra para fazer as caminhadas.

Cheguei de volta ao camping ao anoitecer e descobri que tinha vizinhos, os professores que acompanhavam o grupo de argentinos. Eles eram, como eu, professores de inglês. A escola era bilíngüe. Para minha surpresa eles estavam tranquilos, não havia problemas com o grupo, todos cozinhavam sua própria comida ou jantavam no refúgio. Eles me falaram que o maior problema que tinham era para acordar um ou dois dorminhocos pela manhã.


No dia seguinte caminhei até o Camping Italiano, a duas horas e meia de distância do Camping Pehoe. Lá reencontrei os suíços, e juntos caminhamos até o Campamento Britânico. Foram mais duas horas e meia de subida forte. Estávamos entrando no Vale Francês, que para mim foi o lugar mais interessante e bonito no parque.

Na saída do Camping Italiano podíamos ver a nossa esquerda o Cerro Paine Grande, com 3050 metros de altura. A montanha era coberta pelo Glaciar Francês, que se equilibrava precariamente nas encostas íngremes da montanha. De vez em quando podíamos ouvir um estrondo, como um trovão. Eram pedaços de gelo se rompendo, e caindo montanha abaixo, batendo nas pedras, formando uma cachoeira de gelo e neve. Era um espetáculo maravilhoso, mais uma demonstração de força e beleza da natureza .

À nossa direita podíamos ver os Cuernos del Paine, que como o nome indica, se assemelham à chifres. Os Cuernos são formados por blocos de granito marrom claro cobertos por uma camada de cascalho preto em forma de cone, daí a semelhança com chifres.

Na medida em que caminhávamos víamos outras montanhas. Ao lado dos Cuernos. Podíamos ver o Cerro Máscara, Hoja e também o Espada, todos eles com formas belas e estranhas.

Atravessamos uma bela floresta de Lenga e chegamos ao Campamento Britânico, em meio as árvores. Não há nenhuma infraestrutura nos campamentos, que são apenas áreas aonde acampou-se muito ao longo dos anos e por isso não há vegetação rasteira. Não há banheiro ou latas de lixo, e o próprio campista tem que levar o seu lixo de volta ou então queimá-lo. Para obter água não há problemas pois os campamentos se localizam todos às margens de rios de águas limpíssimas.

A maior parte dos turistas não acampa no Campamento Britânico. O lugar estava vazio, com apenas uma barraca que pertencia a escaladores que estavam em alguma montanha na área. Geralmente as pessoas acampam no Camping Italiano e sobem somente para passar meio dia na parte mais alta do vale, o que é um erro, pois não há tempo suficiente para se explorar o vale direito.

No dia seguinte eu, Cris e Jeanine caminhamos até o miradouro, 30 minutos ao norte do campamento. De lá podíamos ter uma visão mais ampla do vale. O Vale Francês é totalmente fechado no lado norte. Havíamos entrado nele pelo lado sul e seguido um rio entre os Cuernos e o Cerro Paine Grande. O lado norte do vale se fecha em uma espécie de círculo, e o miradouro se localiza mais ou menos no centro deste círculo. Estávamos totalmente cercados por montanhas, uma mais estranha e bonita que a outra. Ficamos parados ali por um bom tempo, apenas admirando o visual. De vez em quando cascatas de gelo despencavam pelas encostas do Cerro Paine Grande, rugindo como trovões.

Em direção noroeste a partir do miradouro, é possível subir por uma espécie de vale entre os Cerros Espada e Fortaleza. Não há trilha, mas havíamos conversado com outras pessoas e sabíamos que era possível subir por ali. A orientação era bastante simples, só havia um caminho a seguir, e se a visibilidade se mantivesse boa poderíamos encontrar nosso caminho para entrar e sair deste vale lateral sem problemas.

Jeanine não quis ir pois estava cansada da subida do dia anterior, fomos apenas eu e o Cris. O caminho a seguir era realmente bastante óbvio mas deixei o Cris ir na frente, afinal de contas além de suíço ele era instrutor de montanhismo, e sabia tudo sobre montanhas.

A subida se tornava cada vez mais íngreme. Estávamos caminhando sobre pedras, acima da altura máxima atingida pela vegetação. Havia pedras de todos os tamanhos, e caminhávamos sobre as maiores pois assim havia menos risco de que elas virassem e torcêssemos um pé.

É muito curioso como é fácil perder a noção de distância nas montanhas. Como elas são enormes, aparentam sempre estar logo ali. Nós continuávamos a caminhar e a distância parecia não diminuir. Depois de um certo tempo chegamos ao local que achávamos ser o fim do vale, mas descobrimos que não tínhamos percorrido nem a metade da distância. Paramos para descansar e comer um chocolate. Também colocamos roupas mais quentes pois o vento havia começado a soprar forte.

O céu ainda estava azul, mas não podíamos ter uma idéia real sobre como o tempo iria se comportar pois estávamos fechados no vale e não podíamos ver se havia nuvens se aproximando. Continuamos a nossa caminhada, agora já estávamos entre o Cerro Espada e o Fortaleza, a uma altitude de 1700 metros. Às vezes o chão estava coberto de neve, neve esta aonde eu tratei logo de pisar em cima, as minhas primeiras pegadas na neve na Patagônia!

O nosso objetivo era chegar ao fim deste vale pois havíamos visto no mapa que ele se interligava a outro vale, o Vale do Silêncio, e queríamos chegar neste ponto, aonde há um grande abismo, para dar uma olhada.

Havia começado a nevar, uma neve bem fininha, como se fosse uma garoa, mas estávamos quase chegando e não desanimamos. Acabamos não podendo chegar ao local onde os dois vales se encontram, pois havia um glaciar cobrindo os últimos 500 metros do caminho.

Os glaciares são como um campo de gelo e neve que se movimenta, muito lentamente, mas se movimenta. Ao se movimentar o gelo racha,e por isso a superfície dos glaciares é toda coberta de fendas, que às vezes são bem profundas. Cris me explicou que seria muito perigoso continuar pois muitas fendas estavam cobertas pela neve, e podíamos cair numa delas e não teríamos como sair, pois não tínhamos nenhum equipamento para isso.

Que ironia, ter chegado até ali e ter que voltar. O glaciar era bonito, com a coloração tipicamente azulada deste tipo de gelo, e toda a paisagem tinha um aspecto meio lúgubre, pois com a neve a visibilidade havia reduzido bastante, e não enxergávamos além de 700 metros.

Ficamos alguns minutos admirando o cenário mas logo tivemos que retornar pois as nossas roupas não eram eficientes contra a água, e estava nevando mais forte, com bastante vento. Felizmente, apesar da visibilidade estar baixa, não tivemos problemas para encontrar o caminho de volta.

A descida foi bem mais rápida que a subida mas cansou bastante. Tínhamos que descer rápido pois estávamos com frio, mas também tínhamos que tomar cuidado para não escorregar ou torcer um pé.

De volta ao acampamento, conseguimos acender uma fogueira para nos aquecer, e almoçamos ao redor dela.

Havíamos combinado de descer até Pehoe à tarde e logo após o almoço o Cris e a Jeanine desceram, mas eu fiquei descansando e esperando o tempo melhorar um pouco pois continuava a garoar.

Acabei tendo que descer com garoa mesmo pois estava ficando tarde e eu tinha pela frente aproximadamente 4 horas de caminhada até Pehoe. Isso somado às quatro horas que caminhei com o Cris de manhã, totalizariam 8 horas. Acabei me arrependendo depois por não ter ficado mais um dia explorando outras partes do vale.

A descida até Pehoe foi sem incidentes. Tive a oportunidade de experimentar caminhar com a minha capa amarela, que provou ser excessivamente quente. Cheguei em Pehoe ao anoitecer, estava chovendo forte e ventando muito. Procurei em vão pelos suíços. Queria dormir na barraca deles pois estava complicado montar a barraca sem ficar totalmente ensopado. Não os encontrei e estava totalmente escuro.

Encontrei com o rapaz que tomava conta do camping e lhe contei a minha história. Ele me deixou dormir de graça em uma das barracas que eles tinham para alugar. Pude me jogar dentro do meu saco de dormir e desmaiar embalado pelo barulho da chuva.

No dia seguinte procurei os suíços de manhã mas não os encontrei, e acabei deixando o camping às 11:30, para caminhar 5 horas até a administração do Parque. Havia bastante vento mas eu o tinha a favor, o que tornou até divertida esta caminhada que passa por uma parte do parque que não é muito bonita. A única coisa que me chamou a atenção nesta caminhada foram umas nuvens que haviam “encalhado” sobre as Torres. Havia uma nuvem gigante em forma de cegonha, com longas asas e pescoço. Apesar do vento que vinha das Torres em minha direção, a nuvem permanecia parada no mesmo lugar. Fiquei observando-a por um bom tempo até que finalmente ela começou a girar sobre si mesma e se desintegrar. Aquela não era a primeira vez que eu via nuvens estranhas no parque. O que ocorre é que as nuvens se chocam contra o maciço das Torres, que atua como barreira para elas. As nuvens são pressionadas a subir pelo vento e com isso assumem formas estranhíssimas e podem ficar pairando sobre as montanhas por um longo tempo.

Chegando na administração peguei uma carona até o Refúgio Pudeto, aonde reencontrei os suíços. Todos os dias eu me separava e reunia com eles, isso porque eles eram sempre mais rápidos para se organizar e gostavam de começar o dia cedo. Eu era mais despreocupado e lento, e costumava deixar o acampamento para pedalar ou caminhar sempre por volta das 11:00 da manhã. Como eu e eles estávamos fazendo o mesmo trajeto, nos reencontrávamos fatalmente, sempre nos surpreendendo como isso ocorria tão rápido e facilmente.

Recuperamos as nossas bikes que haviam ficado com o guarda parque de Pudeto e nos preparamos para sair na manhã seguinte com destino à Hosteria las Torres, aonde iniciaríamos a nossa última caminhada no parque, passando pelos campamentos chileno, das torres e chegando até o Campamento Japonês, de onde pode se continuar até o Vale do Silêncio.

Para variar um pouco, os suíços me deixaram para trás de manhã enquanto eu conversava com as outras pessoas que estavam no refúgio e arrumava a bike. O vento estava muito forte e a favor, foi uma delícia pedalar até a hosteria, nas subidas parecia que havia alguém empurrando a bike.

Chegando na hosteria, encontrei o Cris e a Jeanine começando a caminhar. Eu ainda almocei, descansei e arrumei a mochila antes de sair.

A trilha subia por uma encosta bastante íngreme, e o vento estava muito forte, dificultando bastante a caminhada. Depois de uma hora a subida diminuiu de intensidade e o vento atrapalhava menos. Em uma hora e vinte minutos cheguei ao Campamento Chileno, e com mais quarenta e cinco minutos cheguei ao campamento de las Torres, aonde encontrei os suíços. Eles já haviam montado a barraca e estavam cozinhando uma sopinha para espantar o frio. Jeanine já havia se escondido em seu saco de dormir e Cris estava fora, cuidando da sopa, tremendo de frio, pois eles não haviam trazido, naquela caminhada, roupas que os aquecessem o suficiente quando estavam parados. Eles planejavam ficar dentro dos sacos de dormir se ficasse muito frio. Esse problema só ocorreria quando estivessem parados pois ao caminhar o corpo gera calor suficiente para que a pessoa se aqueça com roupas mais leves.

Os suíços tinham mochilas bem pequenas e não podiam carregar muito equipamento. Por isso eles sempre reduziam o equipamento deles ao mínimo quando fazíamos caminhadas, e me criticavam por carregar coisas “desnecessárias”. Eu tinha uma blusa de lã extra e por isso não passei frio neste dia.

Depois de descansar um pouco, deixei Cris e Jeanine se aquecendo na barraca deles. Eles tinham esta vantagem, podiam juntar seus sacos de dormir e aquecer um ao outro. Continuei até o Campamento Japonês, pois estava ansioso por conhecer o Vale do Silêncio. Eu adorava aqueles nomes dramáticos e sugestivos, sempre geravam uma expectativa enorme e isso aumentava a emoção de chegar a esses lugares.

O Campamento Japonês não é muito frequentado, e serve de acampamento base para expedições de Andinistas que estejam tentando escalar as Torres. Havia algo como 15 barracas no acampamento, todas vazias pois o pessoal estava acampado o mais próximo possível das montanhas.

Tinha a impressão de estar em um acampamento fantasma, ou que algo houvesse acontecido com as pessoas que deviam estar ali. Havia pegadas em volta das barracas, roupas secando em varais improvisados, louça sem lavar na beira do rio, mas ninguém por perto. Várias barracas haviam recebido extensões improvisadas com pedaços de lona ou tetos de barraca velhos, e o acampamento todo tinha o aspecto de uma espécie de campo de refugiados. Me resignei a passar uma noite sem conversar com ninguém e logo me recolhi para dormir.

Na manhã seguinte entrei no famoso Vale do Silêncio, que como esperava, não tinha nada de silencioso. No momento em que acabei de contornar uma montanha que marcava a entrada do Vale, dei de cara com um vento fortíssimo, que soprava no sentido contrário ao que eu tinha que caminhar. Continuei subindo, pelo menos a subida não era muito íngreme. O visual não era muito especial, o Vale Francês era mais bonito. O especial acabou ficando por conta do tempo mesmo. O vento não parava de aumentar e logo começou a cair aquela “neve garoa” de novo, me obrigando a parar atrás de uma pedra para colocar a minha jaqueta.

Logo em seguida encontrei com um inglês que estava descendo ao Campamento Japonês para passar um dia mais confortável, pois não haveria escalada com um tempo péssimo como aquele. Ele me explicou aonde era o acampamento dos brasileiros na montanha.

Eu já sabia que havia escaladores brasileiros lá em cima, e inclusive estava levando um pacote de sopa de presente para eles. Eu não os conhecia mas ia visitá-los de qualquer maneira.

Havia várias expedições acampadas no Vale, todas instaladas em barracas na neve, bastante expostas ao vento. Elas pareciam incrivelmente pequenas para suportar aquele vento. Eu tinha que caminhar abaixado para poder manter o equilíbrio e estava usando óculos escuros para poder manter os olhos abertos, pois já estava nevando mais pesado, e o vento estava extremamente forte.

Finalmente cheguei ao acampamento dos brasileiros, que aliás podia ser chamado de “palácio” em comparação com os outros acampamentos. Eles estavam em uma espécie de caverna que foi aproveitada como abrigo. A caverna era formada por uma enorme pedra que estava apoiada sobre uma pedra menor, deixando um grande espaço sob a pedra grande. Havia vãos entre as pedras mas eles tinham sido tampados com pedras menores, que eram cobertas ainda com pedaços de uma lona plástica, que fazia as vezes de porta também .

O espaço interno era bastante razoável, algo como 4 metros de comprimento por 3 de largura, e dava até para ficar em pé no meio. Realmente um ótimo abrigo, muito melhor que qualquer barraca. A caverna havia sido montada por alguma expedição anterior mas todos que acampavam nela contribuíam para a sua manutenção. Os brasileiros estavam acampando nela pois foram os primeiros a chegar no local naquela temporada.

Sérgio e Luís ficaram surpresos em me ver, afinal não é todo dia que se recebe a visita de um brasileiro desconhecido chegando no meio de uma tempestade.

Sérgio era do Rio de Janeiro e Luís de Curitiba, e eles estavam tentando escalar uma das Torres do Paine. Eles estavam acampados na caverna há 24 dias mas ainda não haviam tido uma boa oportunidade para tentar escalar a montanha. O tempo esteve péssimo durante o mês inteiro e somente uma expedição havia conseguido atingir o cume de uma das Torres.

Sérgio e Luís haviam conseguido chegar somente à base da montanha e deixado alguns equipamentos esperando por eles para quando fossem tentar a escalada. Eles me contaram que o problema maior para se escalar na Patagônia é a impetuosidade e imprevisibilidade do clima.

A pedra em si não é extremamente difícil de se escalar, mas o clima frequentemente muda radicalmente e de uma maneira muito rápida, de forma que pode-se começar a escalar com o clima em condições ideais e no meio da escalada ser apanhado por ventos fortíssimos que muitas vezes obrigam o escalador a ficar parado na montanha, sem poder subir ou descer. Depois de algumas horas nestas condições a pessoa pode começar a congelar e se as condições não permitirem a descida a pessoa pode acabar morrendo congelada sem poder fazer nada para se salvar.

Parecia ser uma morte horrível, e eles me contaram que todos os anos acontecem acidentes naquelas montanhas. Naquele verão o único acidente havia ocorrido com um suíço que perdeu o dedinho de uma das mãos por congelamento.

Ficamos conversando por um bom tempo sobre escaladas e sobre a minha viagem também , e tomamos uma sopa para nos aquecer. Incrível como estava frio. Durante a caminhada eu não havia sentido nada de frio mas dentro da caverna precisei colocar todas as roupas que tinha comigo e mesmo assim não foi suficiente. Acabei resolvendo voltar para a minha barraca aonde estaria mais quente.

Deixei Sérgio e Luís na caverna, eles estavam planejando esperar mais alguns dias por um tempo melhor e se não houvesse melhora iriam escalar algo mais fácil no Vale Francês, deixando as Torres para uma outra oportunidade.

Passei mais uma noite no Campamento Japonês, desta vez acompanhado por dois escaladores canadenses. Esta foi a primeira vez que acampei duas vezes no mesmo local.

No dia seguinte desci até a Hosteria las Torres, aonde havia um camping, e tomei um delicioso banho quente. Faziam oito dias desde que eu havia tomado aquele banho gelado no rio. Eu não tive coragem para repetir a dose, por isso fiquei tanto tempo sem banho, estabelecendo um recorde que ainda ia ser quebrado durante a viagem!

Recuperei a minha bike e imediatamente me dirigi até a saída do parque. Estava cansado das caminhadas e louco para pedalar de novo. O roteiro dali para a frente prometia muitas emoções pois eu ia pegar uma trilha de cavalos e seguir por ela até a Argentina, entrando no pais por um caminho utilizado somente por pessoas que conheciam o local, ou então trekkers e ciclistas.

Essa era outra das descobertas do irmão do Cris, que havia feito aquele roteiro alguns anos antes. Era mais um privilégio de ciclistas, poder seguir um caminho por onde não passa praticamente ninguém. A vantagem era de novo economizar quilômetros, desta vez eram 150 quilômetros a menos do que a estrada normal, e ainda por cima passando por uma área muito pouco visitada, uma tentação irresistível.

Apesar da expectativa e de estar feliz por estar na estrada de novo, me senti um pouco deprimido nesta tarde. Eu amaldiçoava a viagem e a mim mesmo nas subidas, estava sem paciência para fazer força. Mas depois das subidas sempre vinham as descidas e o meu bom humor voltava na hora.

Continuei desta maneira até ouvir um ruído leve, mas desagradável. Era o ruído de um raio da roda arrebentando. Parei para ver de que lado o raio havia quebrado e, lei de Murphy em ação, era do lado direito, o lado para o qual eu necessitava aquele maldito Hyper-cracker que eu não tinha.

Não pude fazer nada a não ser me revoltar e continuar a pedalar até a Laguna Azul, rezando para conseguir improvisar alguma maneira de consertar a roda, pois senão teria que voltar e seguir pela estrada normal.

A Laguna Azul me surpreendeu com sua beleza, e havia um refúgio grátis bem na margem do lago, muito bonito e tranquilo. Antes de ir ao refúgio parei na casa do guarda parque para perguntar se ele tinha ferramentas. Eu ia precisar de uma morsa para desmontar a roda traseira.

O guarda parque não tinha nenhum tipo de ferramenta, mas me disse que havia um casal de ciclistas dormindo no refúgio, e que talvez eles pudessem me ajudar.

Não acreditei quando os vi, eram o Cris e a Jeanine! Foi muito legal revê-los pois eu achava que havíamos nos separado definitivamente.

Eles haviam pedalado até a Laguna Azul mas estavam indecisos em relação a continuar pela trilha de cavalos, pois não sabíamos direito como seria o caminho até a Argentina. Segundo o irmão do Cris era “fácil”, o único problema seria atravessar um rio sem ponte carregando a bike. Haveria também um trecho sem trilha alguma, mas neste trecho não havia mato, era tudo pasto, fácil para pedalar ou empurrar a bike.

Jeanine me disse que conhecia bem o irmão do Cris, e o que era “fácil” para ele muitas vezes era impraticável para outras pessoas, e por isso ela preferia seguir pela estrada normal. Cris também queria prosseguir pela trilha alternativa, mas acabou cedendo e resolveu seguir com Jeanine, de maneira que eu iria partir bem cedo na manhã seguinte, sozinho.

Já era noite, e conversávamos tudo isso enquanto eu arrumava os raios da roda. Eu já estava craque em trocar raios e tive uma grande sorte de encontrar o Cris com o seu Hyper-cracker no refúgio. Os raios foram o único problema que tive com a bike na viagem. Isso foi devido à alguma pancada sofrida pela roda no transporte, que fez com que o aro entortasse ligeiramente, o que por sua vez fazia com que alguns raios ficassem mais tencionados que outros, e assim propensos a se romperem.

8 - De Torres del Paine a El Calafate



Levantei às três da madrugada e às cinco estava saindo, depois de me despedir dos meus amigos. Logo saí do parque, atravessando um portão que dava acesso à uma fazenda, pela qual a estrada continuava. Fazia muito frio pois ainda estava escuro, e não havia ninguém à vista na saída do parque ou na fazenda.

A estrada logo virou na direção oeste, a direção da Argentina, e começou a subir ligeiramente. Era natural ter subida pois afinal de contas a fronteira entre o Chile e a Argentina é formada pelos Andes, e eu ia ter que atravessá-los. Entretanto sabia através do meu mapa que eu não atingiria uma altitude superior a 800 metros. Apesar disto a pedalada foi bastante cansativa pois havia muitas subidas e descidas íngremes.

Depois de duas horas e meia cheguei a Estância la Porfiada, que quer dizer “A Teimosa”. Havia feito 21 quilômetros de estrada de terra boa da Laguna Azul até ali. Havia vários cachorros e eles latiam desesperados anunciando a minha chegada. Felizmente estavam amarrados.

Resolvi esperar até que alguém aparecesse para me mostrar o caminho a partir dali. Eu podia ver uma trilha que continuava em frente, mas não tinha certeza que aquele era o caminho a seguir. Fiz um lanchinho e deitei na grama, estava um dia lindo e caí num sono gostoso aquecido pelo Sol.

Igor chegou logo depois que eu acordei, e me convidou para entrar e tomar um café.

A casa era bastante simples, de madeira, e ele morava ali sozinho. Seu trabalho era andar a cavalo todas as manhãs para se assegurar que as vacas estivessem bem . A estância era enorme e havia muitas vacas. Apesar disto ele tinha muito tempo livre para fazer o que quisesse, e apenas os cachorros , cavalos, vacas e o rádio para lhe fazer companhia.

O rádio era o elemento mais importante para aliviar a solidão e ficava ligado o tempo todo .Havia um programa especialmente feito para as estâncias, aonde se transmitiam mensagens de amigos, familiares, etc.

Igor me convidou para almoçar, e enquanto esquentava a comida me contou que muitos ciclistas passavam por ali. Ele já havia recebido inclusive pessoas que estavam viajando a pé.

Nunca vou esquecer este almoço, carne de carneiro e batatas assadas no forno. A minha primeira refeição de verdade e com gosto de comida caseira que comi em quase um mês de viagem. Comi muito bem, Igor não parava de me dar mais comida. Com certeza havia aprendido que o ciclista é um tipo com grande apetite.

Para ajudar a fazer a digestão, me ofereceu um chá com pisco, que desceu muito bem,

Retomei a viagem logo em seguida, através de um “sendero”, ou trilha, que Igor me indicou. O caminho estava em boas condições, se tratava de uma antiga estrada desativada por onde passavam apenas vacas e cavalos, e de vez em quando, bicicletas.

Logo após a casa de Igor encontrei o tal rio que devia atravessar carregando a bike. O nível da água estava baixo e por isso foi fácil atravessá-lo. Nem precisei levantar a bike, simplesmente a empurrei pela água, que mal chegava ao meio da roda.

Depois de mais 23 quilômetros, cheguei a casa de Orlando, que é primo de Igor e toma conta do extremo oeste da estância. Ele também vive sozinho, com oito cachorros, dois cavalos e tem uma rotina bastante semelhante a de Igor, basicamente andar a cavalo cuidando das vacas.

A casa dele tinha as paredes feitas de telhas tipo “Eternit”, como muitas outras casas que eu já havia visto antes na Patagônia. A diferença era que na casa não havia piso, apenas chão de terra. A casa havia acabado de ser construída pelo próprio Orlando, e o chão no interior ainda estava coberto de grama, o que tornava a cabana mais original ainda.

Dentro não havia nenhuma parede dividindo o ambiente. Num canto havia a cama de Orlando, e na frente dela havia um latão de óleo de 80 litros que foi transformado em um fogão a lenha, que também servia como aquecedor e churrasqueira. Em baixo da janela estava a mesa e ao lado dela estavam guardados os equipamentos para andar a cavalo, como selas, cabrestos, freios e etc.

Orlando foi um ótimo anfitrião, eu mal havia chegado e já estávamos comendo um delicioso churrasco à base de costelas assadas em frente ao fogão-aquecedor-churrasqueira. Depois de comer ficamos conversando, cada um contando as suas histórias. Orlando havia tido uma vida interessante, com vários empregos diferentes, e estava ali porque gostava da tranquilidade do campo. Era muito inteligente e com um ótimo senso de humor, o que contrastava com a sua aparência de gaúcho sério.

Coloquei o meu colchão e saco de dormir perto do fogão e adormeci, escutando ao rádio, que também aqui era a única ligação com o mundo “civilizado”.

Orlando tem um pouco mais de trabalho que seu primo pois a estância faz fronteira com a Argentina, e não há cercas que impeçam que as vacas passem ao outro lado. Por isso ele tem que acompanhar as vacas mais de perto. Apesar de estar “sozinho”, Orlando contava com a ajuda de seus oito cachorros quando tinha que tocar o gado, e eles eram extremamente eficientes.

A fronteira Argentina estava a apenas um quilômetro de distância, e podíamos ver o marco fronteiriço da porta da cabana. Fomos a pé até o outro lado da fronteira, aonde mora um outro gaúcho que cuida da estância que existe do lado argentino.

O “viejo Pineda” tem 84 anos e leva uma rotina dura como todos os gaúchos, praticamente todos os dias monta em seu cavalo e percorre os campos controlando as vacas. Era inacreditável que ele conseguisse fazer isso realmente pois ele nem conseguia ficar em pé direito e também andava com bastante dificuldade. Mas Pineda era uma espécie de figura lendária por aqueles lados, havia praticamente nascido em cima de um cavalo e iria cavalgar até que realmente não pudesse mais. Ficamos tomando mate, enquanto ouvíamos as intermináveis histórias de Pineda.

Nas histórias sempre havia o mesmo vilão, “El Leon”, ou o puma, que era o inimigo preferido de Pineda. Depois vim a saber que “el viejo Pineda” era famoso como o maior matador de pumas da área e como grande mentiroso também .

Apesar das eventuais mentiras, a essência da história era verdadeira. Gaúchos e pumas nunca se deram bem por aqueles lados, e na maioria das vezes os gaúchos matam os pumas se existe uma oportunidade, pois segundo eles, os pumas matam muitos bezerros e ovelhas, causando grandes prejuízos. Isso abalou bastante a imagem que eu fazia dos gaúchos como um povo que vive em meio à natureza harmoniosamente.

À tarde voltamos a cabana de Orlando que havia insistido para que eu experimentasse dar uma volta à cavalo. Foi um fracasso, eu nunca havia conseguido cavalgar sem problemas antes e essa vez não foi exceção. No início tudo correu bem e eu conseguia controlar o animal, mas o cavalo é um ser muito esperto e percebe quando o cavaleiro não esta à vontade ou está com medo. Assim que ele percebeu que eu não era exatamente um cavaleiro experiente, começou a bufar e sacudir a cabeça, o que me deixou ainda mais nervoso. Em seguida ele começou a aumentar o passo e a galopar, cada vez mais rápido. Eu tentava acalmá-lo e fazê-lo parar, mas a única coisa que consegui era fazê-lo cavalgar em círculos, o que pelo menos servia para abaixar a velocidade.

Acabei conseguindo parar o cavalo e imediatamente o devolvi a Orlando. Estava um pouco desapontado com a minha incompetência como cavaleiro mas não me preocupei muito pois não tinha muitas ilusões em relação a me tornar um.

No dia seguinte Orlando saiu cedo com o cavalo e me deixou sozinho em sua casa enquanto eu me preparava para partir.

Teria que percorrer algo como 20 quilômetros até encontrar a estrada normal no lado argentino. A trilha seria bastante estreita e acidentada e por isso eu coloquei as coisas mais pesadas na mochila, que eu levaria nas costas, e deixei a bike o mais leve possível para poder empurrá-la, atravessar rios, carregá-la, etc.

Por sorte eu teria praticamente apenas descida pela frente, o que facilitava bastante as coisas. A trilha percorria uma área de campo aberto e a orientação era bastante simples, caso eu perdesse a trilha, bastava seguir o curso de um riachinho que me levaria até a estrada.

Apesar de a trilha ser fácil de seguir, não podia pedalar o tempo todo pois o terreno era muito esburacado devido às pegadas feitas pelas vacas que costumavam passear por ali. O dia estava muito bonito, e eu me sentia muito bem. A sensação de estar sozinho trilhando um caminho não convencional aumentava a emoção de tudo.

Depois de um certo tempo, a trilha entrava em uma floresta e eu passei a viajar ainda mais devagar pois tinha que desmontar da bike o tempo todo para passar sobre troncos de árvores caídas.

A floresta não me causou problemas. Quando voltei a entrar em campo aberto, a trilha se tornou mais estreita ainda e bem indefinida, desaparecendo por completo às vezes. Isso não causava problemas de orientação pois àquela altura eu já podia ver a estrada na planície lá embaixo, a mais ou menos 5 quilômetros de distância.

Era impraticável pedalar por causa do terreno acidentado e largura da trilha. Eu tinha que empurrar praticamente o tempo todo, escolhendo se era eu ou a bike a ficar fora da trilha, passando Pelo capim. Quando era eu a caminhar fora da trilha, sofria com as pernas sendo arranhadas, e quando colocava a bike no capim tinha que fazer muita força para empurrá-la.

Ainda bem que era descida, se estivesse tentando atravessar da Argentina para o Chile teria problemas bem maiores. Depois de um certo tempo consegui ver uma estradinha à minha direita que levava diretamente à estrada principal. Ela estava um pouco longe da trilha, mas a descida até ela era forte e por isso optei em tomar um atalho radical pelo capim para ganhar tempo.

Foi fácil pois na descida todo santo ajuda, mas quando fui voltar a pedalar, percebi que o pneu dianteiro havia esvaziado um pouco. Eu não queria parar para trocá-lo pois queria chegar logo à estrada principal, aonde havia uma fazenda, para só ali descansar. Depois de encher o pneu montei na bike e continuei a pedalar. A descida era forte e logo cobri os poucos quilômetros até a estrada.

A Estância Lago Roca tinha um enorme portão, com uma roda de carroça em cada lado. Havia uma placa com o nome da estância pendurada, balançando com o vento. A vegetação era meio desértica, apenas com arbustos rasteiros. A estância parecia abandonada, protegida do vento atrás de uns ciprestes enormes. Para completar o clima de velho oeste só faltava passar uns arbustos ressecados rolando à minha frente.

Atravessei o portão empurrando a bike pois o pneu já estava murcho de novo, e me dirigi à entrada da casa. Não havia ninguém à vista, e fui bater na janela, já que não havia campainha.

Depois de esperar um tempo aparentemente interminável, apareceu um senhor idoso, com cara de personagem de um filme de suspense, destes em que a família toda foi assassinada e enterrada no jardim.

Contei para ele a minha história, apontando para a bicicleta que estava encostada na cerca, para torná-la mais plausível. Ele demorou um pouco para entender que eu estava realmente fazendo aquilo que estava dizendo. Ele me convidou para entrar e tomamos um delicioso chá enquanto conversávamos. Meu anfitrião deu risada ao saber que eu estivera com o “viejo Pineda”, e me disse para dar um bom desconto nas histórias que seguramente o velho havia me contado.

Depois do chá fui remendar o pneu furado. Tive problemas para encontrar os furos pois eles haviam sido provocados por espinhos bem pequenos e eram difíceis de encontrar. Ao todo encontrei quatro furos no pneu da frente, e por isso resolvi deixar para consertar depois, substituindo a câmara furada por uma de reserva que levava comigo. Fiquei surpreso em como o pneu havia demorado para esvaziar mesmo com quatro furos. Os furos eram realmente muito pequenos.

Me despedi do fazendeiro e caí na estrada de novo, faltavam apenas 40 quilômetros de estrada plana para eu chegar em El Calafate, a minha primeira cidade na Argentina. Finalmente estava chegando em uma cidade, depois de 17 dias desde que saíra de Puerto Natales. El Calafate é uma pequena cidade nas margens do Lago Argentino, e sua economia está praticamente toda relacionada com o movimento de turistas que visita o Parque Nacional Los Glaciares, ao norte da cidade.

Logo que saí da Estância Lago Roca, percebi que o meu pneu traseiro estava um pouco vazio, e parei para enchê-lo. Com certeza ele devia ter algum “mini furo” também e talvez fosse possível pedalar até a cidade sem precisar trocar a câmara. Estava enganado, pude pedalar uns 15 minutos e o pneu já estava murcho de novo. Que situação ridícula, eu já não tinha uma câmara de reserva sem furos e teria que remendar pelo menos quatro furos, aliás mini furos, que são difíceis de encontrar. Para aumentar a minha felicidade estava começando a chover, e não havia nenhum lugar protegido da chuva aonde eu pudesse remendar a câmara.

Na verdade eu não estava com a mínima vontade de consertar nada. Eu estava molhado, cansado, com fome, e a apenas trinta quilômetros da cidade, aonde poderia tomar um delicioso banho quente.

A solução óbvia para o problema era pegar uma carona, e logo apareceu o primeiro carro, que foi inútil para mim pois não tinha espaço para a bike. O segundo carro era um caminhão, que parou, mas também não tinha espaço pois estava super carregado com vacas. Que saco, a chuva continuava a cair e eu já estava completamente ensopado. Finalmente o terceiro carro apareceu, uma linda caminhonete ano setenta e pouco, cheia de espaço na caçamba e com um motorista legal que parou ao ver me fazendo gestos alucinados na beira da estrada.

Coloquei a bike na caçamba e entrei na cabine, que estava deliciosamente seca e quentinha. O motorista e seus amigos estavam trabalhando na restauração de um barco que levava turistas para passear no Lago Argentino, e faziam aquele trajeto todos os dias. Era engraçado andar de carro de novo, as subidas e descidas passavam por nós como se nada estivesse acontecendo, nem mesmo barulho de vento havia.

9 - El Calafate e Perito Moreno



El Calafate é bem pequena, mas foi interessante estar de novo em uma cidade, e ver tantos carros, casas e pessoas juntas. Segui diretamente até o “Hotel Los Dos Pinos”, ou “Os Dois Pinheiros”. Eu já havia ligado para eles quando ainda estava no Chile para pedir para usar o endereço deles para receber uma encomenda do Brasil, era o meu tripé para a máquina fotográfica.

Chegando lá descobri que o tripé não havia chegado ainda, estava retido em Buenos Aires e eu teria que pagar 50 dólares de imposto de importação para poder recebê-lo. Fiquei revoltado por ter que pagar para receber uma coisa que era minha, e que depois voltaria de novo ao Brasil. Além de tudo o tripé valia menos que 50 dólares. Resolvi pagar mesmo assim pois estava deixando de bater muitas fotos por não ter um tripé.

Nada podia estragar a minha alegria por estar de volta à civilização e aos chuveiros com água quente. Fiquei embaixo do chuveiro até estar com os dedos enrugados como ameixas, e aí fui até o meu quarto, que até então só tinha eu como ocupante.

Esvaziei todas as mochilas, jogando tudo desordenadamente por todas as camas. Era bom poder ser desorganizado para variar um pouco, pois quando estava “no mato”, tinha que ser bem organizado para não ter que perder tempo procurando coisas ou pensando em como empacotá-las. Quase todas as coisas tinham o seu lugar certo nas mochilas e os penosos processos de empacotar e desempacotar aconteciam quase que automaticamente.

O quarto não ficou vazio por muito tempo, logo chegaram dois argentinos, e depois mais três, que estavam viajando de carona. Viajar “a dedo” é muito popular entre os argentinos, era impressionante o número de mochileiros que eu via pelas estradas ou caminhando pelas cidades, parecia até que estávamos de volta aos anos sessenta.

Logo apareceram mais três pessoas no nosso quarto. Um brasileiro, Fred, de Campinas, que estava viajando de carro e que estava dando carona para duas garotas argentinas.

Foi uma noite divertida e longa, todos estavam com vontade de conversar. O vinho rolou solto a noite inteira animando ainda mais a festa. No fim da noite ainda fizemos uma super macarronada aonde entraram todos os ingredientes que encontramos. Fizemos até umas pizzas com fatias de pão, queijo e orégano.

Após o jantar fomos todos dormir. Na manhã seguinte todos iriam embora, exceto eu, que ainda ia ficar mais um dia na cidade.

Foi gostoso passar um dia como turista, sem pedalar, caminhando à toa pela cidade, comendo biscoitos de chocolate, alfajores, e vendo as lojas de artesanato.

No dia seguinte deixei a bike no hotel, e com a mochila nas costas me uni a dois mochileiros argentinos e fomos até a saída da cidade, tentar uma carona até o Parque Nacional Los Glaciares. Depois de meia hora parou uma caminhonete de um pessoal que estava viajando e pescando trutas pelos rios e lagos da região.

Estava viajando motorizado de novo, e cobrimos os 80km até o parque num piscar de olhos. A entrada no parque foi grátis, pois “mochileiros” não precisam pagar.

O Parque Nacional Los Glaciares tem aproximadamente 200km de extensão de norte a sul e tem como limite a oeste o Campo de Gelo Sul, e a leste as planícies da Patagônia e seus lagos enormes. Durante os 80km de estrada de Calafate até o parque a estrada seguiu praticamente o tempo todo pelas margens do Lago Argentino. A atração principal na parte sul do parque é o Glaciar Perito Moreno, exatamente para onde estávamos nos dirigindo.

Chegando ao parque dei de cara com o Cris e a Jeanine! Para variar nos reencontrávamos de novo, parecia que era impossível nos separarmos. Tomamos uma cerveja enquanto colocávamos as fofocas em dia. Eles estavam hospedados em uma estância na saída do Parque, aonde morava Lautaro, um fazendeiro que já havia acolhido ao irmão de Cris quando ele esteve viajando pela Patagônia. Eles haviam avisado a Lautaro que eu provavelmente apareceria também , de forma que eu poderia ter mais uma amostra de genuína hospitalidade gaúcha.

Nos separamos de novo pois os suíços haviam passado a manhã toda explorando os arredores do Glaciar e iam pegar uma carona para voltar a estância. Fui sozinho observar o Glaciar.

O Glaciar Perito Moreno, provavelmente o glaciar mais famoso do mundo, é realmente uma visão extraordinária. Uma quantidade imensa de gelo descendo do Campo de Gelo Sul até as margens do Lago Argentino. O próprio lago, enorme, tem a maior parte da sua água proveniente do derretimento do gelo do Glaciar Moreno e de outros três glaciares que também desembocam nele. Um paredão de gelo gigante, de quatro quilômetros de largura, e com até 80 metros de altura, avança sobre a superfície da água, quase que dividindo o lago em dois. Essa divisão costumava realmente acontecer, até alguns anos atrás. O lago tinha uma área enorme separada da parte principal. O gelo literalmente isolava as duas partes do lago, e a parte menor tinha o seu nível de água aumentado em até 15 metros de altura! Uma vez a cada quatro anos aproximadamente, a pressão se tornava demasiada, e o gelo acabava se rompendo, permitindo que o excesso de água escorresse de uma parte do lago para a outra num espetáculo de incrível força e beleza.

Infelizmente, já fazem muitos anos que não ocorre mais essa divisão do lago . Uns dizem que o Glaciar está retrocedendo naturalmente, outros dizem que o Glaciar está diminuindo devido ao aquecimento global. O fato é que o lago não se divide mais.

Mesmo assim, ainda pode se observar outros tipos de espetáculos naturais igualmente surpreendentes. Pedaços do glaciar constantemente se rompem, com um barulho ensurdecedor. Os enormes blocos de gelo despencam, desaparecendo momentaneamente na água, para depois ressurgir, como que querendo saltar de volta ao seu lugar original. Esse balanço do gelo levanta uma enorme onda que se espalha em todas as direções podendo facilmente virar uma embarcação que esteja próxima demais.

Fiquei no miradouro, a uma distância de apenas duzentos metros do Glaciar por algumas horas, e pude ver o gelo despencando várias vezes.

No fim da tarde fui até o estacionamento pegar uma carona para encontrar os meus amigos. Existe um movimento muito grande de carros entre o parque e El Calafate e não foi difícil arrumar um que me levasse até a saída do parque.

Localizei a estância facilmente e logo estava com os suíços e Lautaro, que era realmente muito simpático. Ficamos conversando e tomando chimarrão. A erva usada para chimarrão no Chile e Argentina não é tão amarga como a usada no Brasil, aonde eu nunca gostei da bebida. Na Patagônia estava quase me transformando em um fã do “mate”. Se ficasse por lá muito tempo iria acabar como os suíços, carregando a minha própria cuia e erva.

Mais tarde vim a saber que o mate é uma bebida extremamente saudável, com um monte de vitaminas, e que serviria perfeitamente como complemento vitamínico na dieta de um ciclista ou de qualquer pessoa em qualquer lugar. A maioria dos gaúchos não come nada pela manhã antes de sair cavalgando, eles apenas tomam várias cuias de mate, e não apresentam nenhum sinal de debilidade física, muito pelo contrário.

Depois de colocar a prosa em dia começamos a nos preparar para o jantar. O primeiro passo foi picar lenha para podermos cozinhar. Nada de fogões à gaz nas fazendas da Patagônia. A lenha é abundante, e não é necessário derrubar nenhuma árvore para obtê-la, o próprio vento se encarrega disto. Além do mais, ter um fogão à lenha aquece muito a casa, o que torna a lenha a opção mais viável e inteligente para combustível.

Depois disto, Lautaro selecionou a carne que iríamos comer. Ele não tinha geladeira, e mantinha a carne ao ar livre numa espécie de gaiola, só que com paredes de tela bem fina, para que mosquitos não pudessem entrar. O infalível vento se encarregava de manter a carne resfriada. Fiquei feliz em saber que o vento também tinha outras utilidades por ali além da de atrapalhar os ciclistas.

O jantar ficou uma delícia, um guisado de carne de carneiro, com batatas e molho de tomates, acompanhado de muito vinho. Comemos como verdadeiros ciclistas esfomeados recuperando os quilos perdidos.

Após o jantar ficamos um bom tempo ouvindo as histórias de Lautaro, que já havia inclusive participado de caminhadas através do Campo de Gelo Sul.

Ele também costumava trabalhar guiando turistas em cavalgadas de vários dias levando cavalos extras carregados com os equipamentos de camping e mantimentos. Me senti um inútil lembrando a minha incompetência como cavaleiro. Realmente o cavalo era o meio de transporte ideal na Patagônia. Com ele é possível andar em praticamente qualquer lugar, passando por áreas literalmente intocados pela mão do homem , usufruindo de uma liberdade enorme. Além disto, viajando desta forma a pessoa fatalmente desenvolve uma relação íntima com a cultura gaúcha, penetrando em um universo exótico, aonde há muito para se aprender em relação à convívio com a natureza .

Lautaro me falou que raramente cavalgava por estradas, os caminhos eram todos através do campo ou florestas de Lenga. É necessário se informar com os fazendeiros para saber sobre os melhores caminhos e os lugares certos para atravessar rios e outros obstáculos. Ele me disse também que alguns viajantes compram cavalos para realizar viagens longas, e ao final da viagem os vendem de novo.

Eu estava impressionado, não imaginava que ainda fosse possível viajar assim, sem estradas e cavalgando livremente por terras de outras pessoas. Deveria ser uma experiência incrível, talvez ainda volte a procurar Lautaro, caso algum dia consiga aprender a andar à cavalo.

No dia seguinte nos despedimos de Lautaro, os suíços voltaram para Calafate pedalando e eu peguei mais uma carona, estava curtindo dar um descanso para as pernas, e pegar carona é sempre uma experiência interessante, aonde tudo pode acontecer. Eu mal cheguei na estrada e apareceu um carro que parou. Eram turistas australianos, muito simpáticos, que ficaram preocupados ao me ver tentar pegar carona naquele “fim de mundo”.

Engraçado como as coisas podem ser tão relativas e as aparências podem enganar tanto. Eu não estava sofrendo nenhum pouco, as coisas estavam acontecendo com grande facilidade e naturalidade, era muito fácil pegar carona, e estava perfeitamente habituado a pedalar e carregar tudo que eu necessitava na bike ou na mochila. Comia também muito bem e afinal de contas não ventava tanto assim na Patagônia. O vento estava sempre ali, mas raramente me atrapalhava seriamente. A chuva também , até então não tinha visto nenhuma chuva de verdade, iguais as que temos no Brasil. A chuva era mais garoa do que chuva, e não ocorria com tanta frequência como as pessoas e os livros diziam.

Isso confirmava a hipótese que eu tinha levantado quando ainda estava planejando a viagem. As pessoas enxergam problemas demais quando consideram a hipótese de manter um contato mais estreito com a natureza . Com um certo preparo, equipamento e paciência, é possível superar os problemas que surgem pelo caminho.

Tudo é uma questão de hábito. Eu já estava habituado a viver daquela maneira, e não achava desconfortável. Quando chovia ou ventava mais forte eu reclamava para mim mesmo, mas era natural, havia um preço a pagar por aquela liberdade, e de vez em quando eu pagava umas “prestações” de desconforto, às vezes eu pagava outras de solidão. Mas eu estava totalmente feliz, fazendo a coisa certa para mim, saboreando várias vezes ao dia aquele gostinho de realização pessoal. O legal é que todos os dias acontecia algo diferente, e os lugares por onde passava pareciam ser sempre mais bonitos que os anteriores.

Bom, de volta a Calafate tomei outro banho delicioso e aproveitei para lavar roupas pois na manhã seguinte iria partir de novo com a bike.

Havia combinado de me encontrar com os suíços às dez da manhã do dia seguinte para partirmos juntos mas eu não consegui fazer todas as compras a tempo e eles acabaram indo sem mim. Acabei saindo às 11:30. Estava com a bike carregada ao máximo pois estávamos indo para Chalten, que é uma cidade bem pequena e tinha fama de ser super cara por ser muito turística. Na verdade Calafate também é bem cara e os preços acabaram sendo praticamente os mesmos.

O vento estava a meu favor e fiz uma media de 25 km/hora por 30 km. Depois o asfalto acabou e eu entrei na famosa “Ruta 40”. A Ruta 40 atravessa toda a Patagônia Argentina de norte a sul e entre os ciclistas é famosa por causa dos terríveis ventos, a falta de água e também falta de locais protegidos para acampar.

O vento estava forte, agora soprando de lado e me atrapalhando um pouco. Mas depois de mais 50 km cheguei a uma espécie de posto rodoviário aonde reencontrei o Cris e a Jeanine. Era um lugar bem estranho, havia uma casa enorme que era ocupada por apenas uma pessoa, que passava o dia todo sentado junto ao fogão, ouvindo rádio, olhando pela janela, e contando os raros carros que passavam. Tomamos um pouco de mate com ele e fomos dormir no galpão aonde havíamos guardado as bikes.

Na manhã seguinte estava bem frio, a Patagônia Argentina é bem mais seca que a Chilena e acho que isso contribui para aumentar a sensação de frio. Saímos cedo para os meus padrões, às 9:30 da manhã, e depois de duas horas paramos no Hotel La Leona para descansar, comer um pedaço de torta e tomar um chocolate quente. Acabamos comendo vários pedaços de torta, que era realmente deliciosa.

O Hotel La Leona é realmente um lugar estranho. Um Hotel na beira da Ruta 40, aonde passam pouquíssimos carros. Quase ninguém se hospeda lá, e o negócio vive de vender tortas, sanduíches e etc. aos turistas que passam por ali. O lugar é administrado por uma senhora e suas duas filhas, o que torna o lugar mais original ainda. A paisagem é bem desértica e venta muito.

Resolvemos passar o resto do dia por lá mesmo. O Cris aproveitou para fazer pão, Jeanine ficou escrevendo e eu fiquei ajudando uma das garotas a plantar umas árvores que formariam uma barreira para o vento quando crescessem. Para mim foi muito legal fazer algo diferente da nossa rotina de viajante, algo importante e concreto, como plantar aquelas árvores. Fico curioso em saber se elas realmente sobreviveram à falta de água e ao vento.

No fim da tarde fui até o rio que passava perto da fazenda, que era tido como bom para pescar, e resolvi tentar a sorte na pescaria junto com o Cris. Depois de experimentar em diferentes lugares acabei fisgando uma truta. Para minha surpresa a truta não lutou ao ser arrastada para fora, parecia até que ela queria ser pescada. Finalmente tinha valido a pena trazer o equipamento de pesca.

A truta era de tamanho médio, com um quilo e meio, e junto com outras duas que o pessoal do hotel tinha, fizemos um belo jantar para todos.

No dia seguinte o nosso objetivo era chegar a Chalten, uma pequena vila dentro da parte norte do Parque Nacional Los Glaciares. A distância até lá era de aproximadamente 90 quilômetros na direção oeste, exatamente a direção da qual vinham os ventos.

10 - Los Glaciares - Fitz Roy



A estrada até Chalten é uma estrada secundária e não recebe muita manutenção. Resolvemos fazer esse trecho de carona pois o vento estava muito forte.

O Cris e a Jeanine partiram cedo pela manhã com o ônibus que leva turistas até o Parque, deixando as bikes no Hotel para virem buscá-las depois. Eu preferi esperar mais tempo pois queria pegar uma carona com uma caminhonete para poder levar a bike comigo. Combinamos de nos encontrar no parque mas não combinamos nenhum lugar especifico, já que sempre nos encontrávamos automaticamente. Nos despedimos com um casual aceno de mão já que eu estava longe plantando mais árvores. Mal sabíamos que não iríamos mais nos encontrar.

Duas horas depois que os suíços foram embora, apareceu uma caminhonete que aceitou levar a mim e a bike. Eles não iam até Chalten e sim até a ultima Estância antes da vila, que segundo o motorista ficava a apenas dois quilômetros de distância da mesma.

A viagem correu sem problemas, mas as condições da estrada eram bastante ruins e teria sido penoso pedalar por ali. Logo chegamos na última estância onde o motorista me deixou, mas Chalten ainda estava bem distante, com certeza a mais de dois quilômetros.

Demorei mais de duas horas para chegar. Foram dezesseis quilômetros, fazendo uma média de apenas 6,5 km/hora, pois o vento estava soprando com muita força.

Chalten funciona como base para se explorar a parte norte do Parque Nacional Los Glaciares, e ali pode se encontrar Hospedajes, hotéis mais luxuosos e campings também. Para acampar não é necessário pagar nada, mas também não há infra-estrutura nenhuma. Pega-se água para cozinhar no rio e o único banheiro disponível é o da guarderia do parque, que só abre durante o dia. Há ainda mini mercados, restaurantes, posto de gasolina e correio.

A atração principal desta parte do Parque são as montanhas, e a mais famosa de todas é o Cerro Fitz Roy, uma enorme coluna de diorito, de cor alaranjada, que se eleva a 3441 metros de altura. Igualmente famosos e impressionantes são os Cerros Torre e Torre Egger que se erguem como agulhas apontando para o céu.

Cheguei ao entardecer no parque e armei minha barraca na área livre de campismo. No dia seguinte fui e voltei até a Laguna Torre para ver mais de perto o Cerro Torre. Foram seis horas de caminhada, sem mochila, mas não dei sorte e o Cerro Torre estava parcialmente encoberto por nuvens. Mesmo assim valeu a pena pois a área ao redor da montanha é muito bonita.

Retornando à Chalten conheci um grupo de turistas argentinos muito simpáticos e comprei uma garrafa de cinco litros de vinho para tomarmos juntos. Passamos uma noite muito agradável conversando e bebendo à beira de uma fogueira.

No dia seguinte desmontamos as barracas. Os argentinos estavam indo embora do parque de carona, e eu estava partindo para ir até a base do Fitz Roy. Deixei a bike na guarderia junto com as coisas que não iria usar na caminhada. Havia sobrado bastante vinho e enchi a minha garrafa de água com ele para levar na caminhada, seguindo o conselho dos argentinos.

Nos despedimos, para provavelmente nunca tornarmos a nos encontrar. Viajar é assim, ganha-se a companhia de pessoas muito agradáveis e especiais, e depois de um breve tempo, perde-se a companhia delas pois os caminhos se separam. Novas pessoas vão surgir, com certeza. Havia sido assim com o Cris e a Jeanine, e agora era com os argentinos.

Deixei o acampamento para trás, caminhando em direção ao Fitz Roy, que mesmo à uma distância de 13 quilômetros era bastante imponente. Estava quase chegando ao acampamento Rio Blanco aonde passaria a noite, e parei para bater uma foto com o Fitz Roy ao fundo pois o sol estava se escondendo atrás dele. Era uma visão encantadora, o Fitz Roy sem a luz do sol aparentava ser cinza ao invés de bege. Os raios de sol pareciam querer atravessá-lo, mas não conseguiam, tendo que se contentar em contorná-lo por cima. Podia ver claramente os raios emergindo de um ponto comum além da montanha, abaixo da minha linha do horizonte, como se alguém estivesse atrás do Fitz Roy acendendo vários holofotes em direção ao céu.

Apareceram dois ingleses que estavam voltando para Chalten, e eles me pediram para que tirasse uma foto deles com o pôr do sol atrás. Eles estavam voltando de uma escalada bem sucedida em uma das montanhas menores do maciço do Fitz Roy, e mal podiam esperar para chegar em Chalten para comemorar. Eu lhes disse que nem precisavam esperar tanto pois eu estava com a minha infalível garrafa de vinho bem ali.

Brindamos ali mesmo, à saúde da escalada deles, à saúde do pôr do sol e à saúde da aventura. Foi comovente mas rápido pois tínhamos que chegar aos nossos destinos antes que escurecesse totalmente, e assim nos despedimos.

Logo cheguei ao Campamento Rio Blanco, que oferece uma vista maravilhosa da montanha, e montei a minha barraca, de costas para o oeste, caso o vento começasse a soprar. Havia este detalhe, o vento não estava soprando, e isso realçava ainda mais a beleza do local. Parece até que é possível ver mais quando há silêncio, fica se mais alerta, como se algo tivesse sido esquecido, ou como se algo importante fosse acontecer a qualquer momento.

Não havia muito tempo para divagações e tratei de juntar lenha para uma providencial fogueirinha. Esta tarde dispensei o meu fogareiro e cozinhei na fogueira mesmo, observando o dia acabar de se transformar em noite.

No dia seguinte acordei cedinho para ter uma das visões mais bonitas da viagem. O sol estava nascendo, logicamente no leste, iluminando bem de frente o maciço do Fitz Roy, com a luz mais delicada que pode oferecer. A montanha tinha um tom entre o cor de rosa e o amarelo, difícil de descrever. O céu estava azul clarinho, sem nenhuma nuvem, e o silêncio era o mesmo da tarde anterior.

Havia poucas pessoas acordadas no campamento, elas haviam acordado para ver o nascer do sol e mal ousavam cochichar entre elas para não quebrar a magia do momento. Não havia mesmo o que falar, podíamos apenas olhar, e respirar aquele ar fresco puríssimo. Não valia a pena nem mesmo pensar, tentar definir ou entender a pureza e perfeição da natureza , mais uma vez surpreendendo com outro de seus shows.

Para comemorar tanta poesia fiz uma panelada de musli, afinal o dia seria longo, com muita caminhada para chegar o mais perto possível do grande Fitz Roy, que foi batizado em homenagem ao capitão Fitz Roy, do navio Beagle. Fitz Roy e o naturalista Charles Darwin percorreram em 1834 o Rio Santa Cruz até uma distância bem próxima da cordilheira, tendo sido muito provavelmente os primeiros europeus a avistar a montanha.

Do Campamento Rio Blanco há uma trilha que leva até a Laguna de Los Tres, a 1160 metros de altitude, praticamente aos pés da montanha. A trilha é bastante clara e fácil de seguir, mas a subida é bastante puxada pois há uma diferença de altitude de 450 metros. O Fitz Roy não é visível durante a maior parte da caminhada pois fica encoberto pelo morro que é bastante íngreme. Foi um grande prazer acabar de vencer a subida e dar de cara com a laguna e o Fitz Roy ao fundo. Incrível como basta subir um morro a mais para ter uma visão mais bonita que a anterior. A laguna aumentava ainda mais a beleza do local.

O Fitz Roy estava perto, mas eu queria chegar mais perto ainda, e comecei a analisar os possíveis caminhos para me aproximar mais. Diretamente a minha frente estava a laguna, e parecia ser possível andar pela margem esquerda dela até alcançar um glaciar que descia diretamente da montanha. Ali eu teria que parar pois não tinha equipamento para caminhar no gelo, e nem seria aconselhável fazê-lo sozinho.

A minha direita havia uma montanha, o Cerro Madsen, com aproximadamente 1850 metros. Podia visualizar uma rota até o topo da montanha ali de onde eu estava, e o caminho não parecia ser demasiado íngreme ou passar por partes perigosas. Optei por subí-lo pois lá de cima com certeza poderia ter um campo de visão bem maior que das margens da lagoa.

Iniciei a subir em direção a encosta que planejara seguir até o topo da montanha e lá acabei encontrando uma espécie de trilha que levava para cima, o que era um bom sinal e indicava que eu estava no caminho certo e que era realmente possível subir por ali. A subida era bem puxada e longa, mas eu não tinha pressa e parava o tempo todo para observar o panorama. O meu campo de visão aumentava a medida que eu subia. O Campamento Rio Blanco já estava difícil de localizar mas ainda podia ver a minha barraca minúscula lá embaixo. Podia ver também uma nova lagoa ao sul da Laguna de Los Três, era a Laguna Sucia.

Continuei a subir caminhando tranquilamente sobre pequenos fragmentos de pedra que formavam um piso bastante firme, até encontrar uma parede de pedra praticamente vertical que atravessava o meu caminho. Teria que escalá-la se quisesse prosseguir pois não havia como contorná-la. Felizmente a pedra era toda rachada e não faltavam lugares para apoiar os pés e as mãos. A parede tinha mais ou menos cinco metros de altura e de onde eu estava podia ver que seria possível continuar a caminhar por cima dela.

Escalei com todo o cuidado pois não poderia sofrer nenhum tipo de acidente ali em cima. Não havia ninguém para me resgatar e naquela altitude sem barraca ou saco de dormir eu poderia morrer de frio caso não pudesse me mexer. Escalei devagar testando antes de colocar o meu peso nos apoios para não apoiar em nenhuma pedra excessivamente solta. Era incrível como a pedra estava totalmente fraturada. Era daqui de cima que saiam as pedrinhas sobre as quais eu caminhava lá embaixo.

Logo cheguei ao topo da parede e pude continuar sem problemas, apenas caminhando mais lentamente pois o topo dela era bem irregular. Acabei tendo que descer do outro lado da parede para poder continuar na direção certa. Passei então a caminhar sobre a neve, subindo uma rampa bastante longa e íngreme. Ali também havia perigo pois se por acaso houvesse neve fresca caída em cima de neve congelada, eu poderia facilmente escorregar ao apoiar o meu peso pois eu estava com botas normais sem “grampons” para aderência no gelo. A solução foi avançar bem devagar somente apoiando os pés aonde eu podia sentir firmeza. Já podia ver o topo da minha grande montanha e logo estaria lá.

Antes de chegar no topo tive outra visão maravilhosa. Pude ver, praticamente abaixo de mim, o que havia atrás do Cerro Madsen. Era o Glaciar de Piedras Blancas, simplesmente fantástico, visto assim do alto. Podia ver todas as fendas no gelo. Podia ver também como há áreas onde o gelo se move mais devagar e por isso sofre menos fraturas. O mais impressionante era o lado leste do Glaciar que praticamente desabava em direção ao lago formado por ele mais embaixo. As fendas nesta parte eram realmente enormes.

O topo do Cerro Madsen é formado por uma espécie de pilar de pedra de uns três metros de altura, também fácil de escalar. Fiquei ali sentado, maravilhado com o visual, embelezado desta vez não só pelo silêncio, mas também pela adrenalina que circulava no meu sangue. Aliás àquela altura o meu sangue não se contentava em simplesmente “circular” nas minhas veias, ele estava apostando corrida, quebrando o recorde de velocidade do circuito.

O Fitz Roy continuava bem mais alto do que eu, mas eu o estava vendo de um novo ângulo. Havia realmente valido a pena subir até ali para vê-lo melhor. Todo o maciço do Fitz Roy, composto por várias “agulhas”, montanhas menores mas não menos espetaculares, estava mais bonito lá de cima. Eu me sentia menos diminuído olhando para as montanhas estando eu mesmo no topo de uma delas.

A descida até o acampamento ocorreu sem incidentes, tomei o cuidado de descer bem devagar nos momentos críticos para não ter nenhum acidente, e logo estava caminhando de novo na trilha normal.

De volta a Rio Blanco encontrei com um casal inglês que havia conhecido na subida à Laguna de Los Três e jantamos juntos à beira de uma nova fogueira. Bebemos o meu vinho e comemos um delicioso macarrão. Tivemos até chocolate de sobremesa, e a companhia de um senhor que estava viajando sozinho e era policial em Londres.

Na manhã seguinte tomamos café juntos perto da minha barraca pois durante a noite o tempo havia mudado completamente e estava ventando com muita força e garoando. A garoa parou logo mas o vento continuou a soprar forte o dia inteiro.

Por volta do meio dia comecei a caminhar junto com o casal inglês, Warren e Martha, em direção ao Glaciar de Piedras Blancas, aquele que eu havia visto no dia anterior do topo do Cerro Madsen. Chegamos lá depois de uma hora e meia de caminhada sendo empurrados e sacudidos pelo vento. Almoçamos em meio às enormes “piedras blancas” que existem por ali e em seguida nos separamos.

Os ingleses voltaram ao acampamento enquanto eu prossegui até a Piedra del Fraile. A trilha até lá segue o curso do Rio Blanco para depois virar a esquerda e seguir o leito do Rio Elétrico, que passa ao lado da Piedra del Fraile. Existem várias opções de caminho para sair do Rio Blanco e seguir o Rio Elétrico, e eu tive o azar de escolher uma trilha que simplesmente terminou em lugar nenhum, no meio de uma floresta de Lenga. Felizmente a direção a seguir era bastante óbvia, eu deveria caminhar entre a montanha, que deveria estar sempre a minha esquerda, e o rio, que deveria estar em algum lugar à minha direita. Eu não podia ver o rio por causa do mato que obstruía a visão, mas sabia que ele estava por ali. Mas eu podia ver a montanha e fui caminhando aos pés dela até que acabei por encontrar a trilha de novo e a partir daí segui sem novidades até chegar aonde queria.

Piedra del Fraile é um refúgio e camping de propriedade privada e é necessário pagar em torno de cinco dólares para acampar ali. Mas o local oferece uma comodidade valiosíssima, água quente para tomar banho! A água é armazenada em um tambor de metal que é aquecido com fogo à lenha, bastante engenhoso e deliciosamente confortável. Além disto, em Piedra del Fraile às vezes é possível comprar pão e deliciosos bolos feitos pelo proprietário, tudo depende do quão cheio estiver o camping.

Tomei um delicioso banho, mas não pude demorar muito pois havia várias pessoas na fila, o camping estava lotado de argentinos que estavam se preparando para uma caminhada no Campo de Gelo Sul.

Próximo à Piedra del Fraile existe uma passagem que leva ao Gelo, chamada Passo Marconi. O Passo Marconi é a entrada mais utilizada por grupos que vão caminhar no gelo. Entra se por ali e caminha se até o Passo del Viento aonde é possível sair do gelo e voltar até Chalten. Uma aventura como estas leva entre uma semana e duas, o tempo de duração depende das condições climáticas no Campo de Gelo, e das condições físicas e velocidade do grupo.

O clima no Campo de Gelo pode ser perfeito ou péssimo, com tempestades de neve acompanhadas por ventos fortíssimos e que chegam a durar até uma semana, situação na qual a única coisa a fazer e ficar dentro da barraca e esperar uma melhora no tempo. Realmente não é uma viagem para qualquer um, e olhando para aquelas pessoas me perguntava se elas estariam realmente preparadas para o pior, caso ele viesse a acontecer. O grupo tinha quinze pessoas e dois guias. Várias pessoas me pareciam estar fora de forma para uma atividade física extenuante e prolongada. Além disto havia com eles uma equipe de televisão com três repórteres, que teriam que carregar peso extra, como câmeras de televisão, baterias extras, cabos ,etc.

Não cabia a mim julgá-los, e pensei que o guia não seria irresponsável a ponto de levar pessoas inexperientes ou despreparadas a uma situação potencialmente perigosa.

Na manhã seguinte, bem cedo, o grupo partiu, e eu nem os vi sair. Queria ter visto como um grupo tão grande se locomovia. De qualquer forma acabei levantando cedo também pois queria explorar um pouco os arredores.

Escolhi subir ao miradouro do Fitz Roy e ter uma outra visão da montanha, agora da sua face norte. Para chegar ao miradouro deveria seguir uma trilha que parte da Piedra del Fraile e sobe por uma encosta muito íngreme até uma espécie de vale situado a mais ou menos 1500 metros de altitude, ou seja 1000 metros acima da Piedra del Fraile. O miradouro era ali e segundo o dono do camping seria o fim da trilha para pessoas sem equipamento para caminhadas no gelo.

A subida era realmente cansativa, mas o segredo para não sofrer demais nessas situações é o mesmo, subir devagar, parando para descansar e apreciar o visual.

Depois de uma hora e meia, mais ou menos, cheguei ao miradouro. Era realmente muito bonito, podia ver o Fitz Roy quase até o topo, que estava encoberto por nuvens. Estava ventando bastante e o céu estava escurecendo progressivamente. Também podia ver ali de cima o caminho que levava até o Passo Marconi, um glaciar longo e de inclinação suave.

Diretamente à minha frente, entre eu e o Fitz Roy, havia um glaciar, que representava o fim da caminhada para mim. Se pudesse atravessá-lo, poderia atingir o Passo del Quadrado, de onde poderia avistar o Cerro Torre e toda a cadeia de montanhas a oeste do Fitz Roy. Mas isso estava fora de cogitação pois a subida até o Passo era íngreme demais e havia varias fendas encobertas por neve no caminho.

Entretanto, havia um outro caminho que parecia ser praticável sem grandes problemas. Ele levava até o Passo Guillaumet, a aproximadamente 2200 metros de altitude. Ali de longe a subida não parecia ser impraticável e o mais importante é que ela não estava coberta de neve. O único problema é que eu teria que caminhar sobre um glaciar por uns duzentos metros. Mesmo assim o glaciar aparentava não ter fendas naquele trecho e isso me provocou ainda mais.

Resolvi prosseguir, e quase no início do glaciar encontrei um homem olhando pensativo em direção ao Passo Guillaumet. Puxei conversa com ele, era um Italiano, Maurizio, e me contou que estava no fim da sua viagem. Ele era espeleólogo glacial, ou seja, explorador de cavernas no gelo, e havia participado de uma expedição em busca de cavernas no Campo de Gelo Sul.

Obviamente ele sabia tudo sobre caminhadas no gelo, e eu lhe perguntei se ele achava ser possível caminhar sobre aquele glaciar até o Passo Guillaumet. Ele me disse que o gelo aparentava estar sem fendas e ele também estava pensando em tentar chegar ao Passo. Prosseguimos juntos através do gelo, um na frente do outro para no caso de um cair em alguma fenda o outro poder ajudar.

Atravessamos o gelo sem incidentes e começamos a caminhar pelas pedras. Logo paramos para discutir que rota seguiríamos até o Passo. Acabamos mudando o nosso plano pois um pouco à direita do Passo Gullaumet parecia haver um caminho escalável que nos possibilitaria ver o Cerro Torre e toda a cadeia de montanhas a oeste do Fitz Roy, exatamente a mesma vista que teríamos se subíssemos o Passo del Quadrado. O caminho aparentava ser um pouco difícil, mas resolvemos tentá-lo assim mesmo pois a vista de lá prometia ser muito mais interessante que do Passo Guillaumet.

O tempo estava piorando rapidamente e nos apressamos para chegar no topo antes que ele piorasse de vez. No meio da subida começou a chover, mas não desanimamos. Logo chegamos em um lugar a partir do qual era impossível continuar a caminhar.

Prosseguimos escalando, usando as duas mãos para nos apoiar. A escalada não era muito difícil mas era bem mais longa do que aparentava a princípio, e logo estávamos totalmente molhados.

Depois de algum tempo não tínhamos mais certeza de estar escalando na direção certa, era possível que houvéssemos desviado um pouco da rota certa e isso nos faria chegar em algum trecho mais difícil de escalar. De qualquer maneira a escalada já havia se tornado bastante difícil, especialmente por a pedra estar molhada e estarmos com frio. Além disto não tínhamos nenhuma corda ou equipamento de segurança e uma queda do ponto aonde estávamos seria mortal.

Resolvemos voltar atrás e subir pelo Passo Guillaumet mesmo pois era mais seguro.

Tínhamos que descer devagar antes de poder recomeçar a subir e por isso começamos a sentir ainda mais frio, estávamos até tremendo um pouco. O tempo continuava a piorar e as nuvens acabaram por encobrir o próprio Passo e o local até aonde havíamos escalado.

Seria inútil subir até o Passo, a única coisa que poderíamos ver lá de cima seriam nuvens, e por isso concordamos em descer. Precisávamos nos movimentar para aquecer e não perdemos tempo nos lamentando pela escalada frustrada. Valeu a pena ter subido até ali, havíamos chegado a 2150 metros de altitude, a apenas 50 metros do Passo, e tínhamos uma belíssima vista das montanhas menores à nossa volta e do Passo Marconi à distância. O tempo encoberto e a mistura de chuva e neve que estava caindo dava uma aparência tenebrosa a paisagem e aumentava a nossa emoção. Durante a descida encontrei um pedaço de corda e um bastão de caminhada abandonado por alguma expedição e os levei como souvenir e para nos dar segurança na volta através do glaciar.

Atravessamos o glaciar praticamente correndo sobre nossas pegadas para nos aquecer, e logo chegamos a uma pedra grande atrás da qual nos protegemos do vento e fizemos um delicioso lanche com pão, salame, biscoitos e até chocolate. Isso fez com que nos sentíssemos bem melhor, e logo chegamos de volta à Piedra del Fraile.

Chegando lá encontramos Alessio, companheiro de Maurizio na expedição de espeleologia. Ele nos contou que havia caminhado em direção ao Glaciar Marconi e viu a expedição dos argentinos se preparando para atravessar o Rio Elétrico. Eles estavam atravessando o rio no lugar errado, a apenas um quilômetro do local certo. Ele disse que não entendeu o porque disto pois se ele que havia vindo da Itália sabia onde era o local mais adequado para atravessar o rio, com certeza o guia, que era argentino, sabia também .

O resultado desta imprudência foi que a repórter de televisão e um dos cameraman, perderam o equilíbrio no meio da travessia do rio e foram arrastados pela correnteza. A água estava correndo rápido, na altura da cintura, e é muito difícil recobrar o controle dos movimentos uma vez que se é arrastado, devido ao frio e as roupas molhadas que tornam difícil se mexer. Os guias correram inutilmente pelas margens do rio gritando para que aqueles que estavam na água nadassem em direção à margem. Finalmente os repórteres saíram da água, a mais ou menos trinta metros abaixo do local onde eles haviam escorregado, duros de frio. Os guias então fizeram uma fogueira para aquecê-los e secar as suas roupas, e acabaram acampando por ali mesmo .

Alessio contou tudo isso com um tom de desprezo na voz criticando muito a atitude dos guias, que segundo ele, quase mataram duas pessoas depois de apenas uma hora de caminhada, ainda em uma zona relativamente segura, correndo um risco totalmente desnecessário.

Eu lhe perguntei se o risco havia sido tão grande assim com água apenas na altura da cintura, e ele me respondeu que o risco maior não era devido a profundidade da água e sim devido a temperatura.

Todos esses rios próximos a glaciares são formados pela água do degelo do próprio glaciar e são extremamente frios. Quando uma pessoa cai numa água tão fria e molha a cabeça, corre um grande risco de desmaiar devido ao choque térmico e consequentemente morrer afogado pois é muito difícil que alguém consiga encontrar e retirar o corpo da água a tempo para uma ressuscitação.

A conversa se concentrou então nos riscos que caminhar no gelo pode apresentar. Aproveitei a presença dos dois experts e obtive todas as dicas que podia, afinal eu mesmo estava planejando fazer uma caminhada sobre o Campo de Gelo Sul, e ao que tudo indicava eu iria estar lá sozinho.

Maurizio me explicou que o maior risco em se caminhar no gelo é cair dentro de uma fenda. Os glaciares estão em constante movimento e esse movimento causa fendas na superfície do gelo. Essas fendas variam de tamanho e profundidade mas tem uma característica em comum, se estreitam no fundo assumindo uma forma de “v”, com a parte mais larga na superfície e o vértice no fundo. Essa característica faz com que a pessoa que cai numa fenda tenha grandes possibilidades de se entalar no fundo e ficar praticamente impossibilitada de se mover. Caso isso aconteça a pessoa depende quase que exclusivamente de ajuda externa para sair da fenda. É uma operação trabalhosa que requer técnica no manuseio de cordas e muita força.

Caso uma pessoa caia em uma fenda e não tenha ninguém para resgatá-la, ela terá poucas chances de se auto resgatar, mesmo com equipamento adequado, como grampons (espécie de garras de ferro que se colocam nas botas, para ter aderência no gelo), e picareta para gelo. No meu caso eu não tinha nenhum equipamento e teria que absolutamente evitar cair numa fenda.

As fendas são especialmente perigosas quando estão cobertas de neve pois se tornam praticamente invisíveis. Maurizio me tranquilizou dizendo que na zona onde eu pretendia caminhar não havia fendas e também não havia neve. Ele havia explorado aquela área, próxima ao Passo del Viento, em busca de cavernas no gelo e me garantiu que era seguro caminhar sozinho por ali.

Ele me contou que não havia encontrado grandes cavernas por lá, mas que eu encontraria algumas pequenas se caminhasse nas bordas da geleira, aonde o gelo se encontra com a pedra.

Maurizio me deu outro conselho, o de tomar muito cuidado com os pequenos rios de degelo que correm sobre a geleira. O leito destes rios é extremamente escorregadio e se uma pessoa escorrega ao atravessar, pode ser arrastada pela correnteza ou simplesmente escorregar pelo gelo liso caso o rio seja inclinado. O que ocorre é que muitas vezes estes rios terminam em uma espécie de cachoeira que despenca dentro das famosas cavernas, aonde acabam por formar um lago. É morte na certa. Felizmente os rios que encontraria seriam bem pequenos e não representavam risco algum.

Por falar em rios, eu também teria pela frente, antes de chegar ao Campo de Gelo, uma travessia de rio considerável, e deveria fazê-la de manhã cedo quando o nível da água é mais baixo. Deveria ter cuidado com a profundidade da água e força da correnteza, que pode “arrancar” os pés do chão e dar uma “rasteira” em quem está atravessando, e aí as coisas podem se complicar.

A última recomendação era a de ter bom senso e não se arriscar desnecessariamente, observar o clima atento a mudanças, e não hesitar em recuar caso sentisse necessidade.

Foi ótimo encontrar Maurizio e Alessio. Além se serem simpáticos e interessantes, haviam me esclarecido muitas coisas. Desde o Brasil, eu estava namorando a idéia de caminhar no Campo de Gelo, mas me sentia inseguro pelo fato de não ter nenhuma experiência no gelo e também por estar indo sozinho. O livro do qual eu extraía informações para as caminhadas, o “Trekking in the Patagonian Andes” dizia que a caminhada até o Passo del Viento, o portão de entrada para o Campo de Gelo, só deveria ser feita por grupos, e mesmo assim composto por pessoas super experientes. O livro nem mencionava a possibilidade de caminhar no gelo. Graças aos italianos eu pude fazer uma reavaliação dos riscos e possibilidades de fazer a caminhada, e havia resolvido ir.

A nossa conversa acabou durando o jantar inteiro e fui dormir pensando em quantas coisas legais a viagem havia me proporcionado até então e em quantas ainda me proporcionaria.

Na manhã seguinte comi o resto do jantar para o café da manhã pois a minha comida havia acabado, de forma que também desmontei a minha barraca e me preparei para voltar a Chalten, aonde iria me preparar para ir até o Campo de Gelo Sul.

Em cerca de duas horas descendo pela trilha que acompanhava o rio, cheguei a ponte do Rio Elétrico, e a partir daí caminhei pela estrada que levava a Chalten. Logo passou uma perua carregada de turistas e peguei carona com eles, que pararam ao me ver fazendo sinal. Quase todas as caronas que peguei na Patagônia foram assim, o primeiro carro que passava me levava, não sei se foi por eu ser uma pessoa de sorte ou se é realmente fácil pegar carona por lá.

11 - Los Glaciares - Campo de Gelo



De volta a Chalten não fiz muita coisa até a manhã seguinte, quando fiz as compras e me preparei para seguir até o Passo del Viento. Eu iria sozinho mesmo, já era início de Março e o parque estava com um movimento bem menor de turistas. De qualquer forma eram poucas as pessoas que iam para aqueles lados do parque. Tão poucas que a trilha até lá é bem mal marcada e chega a não existir em vários trechos, aonde caminha-se em campo aberto escolhendo o melhor caminho.

Para ir ao Passo del Viento é necessário obter com os guarda parques uma “autorização de escalada”, que é concedida sem problemas e é grátis. A autorização serve para que os guarda parques possam monitorar o movimento de pessoas na trilha, e possam sair a procura de alguém, caso essa pessoa não retorne dentro do prazo dado.

Os guarda parques me explicaram o caminho a seguir e me mostraram fotos do Passo, para que eu o reconhecesse. Além disto, Maurizio havia desenhado dois mapas, um mostrando o caminho até o passo, e outro indicando o caminho até o refúgio que existe na beira do Campo de Gelo. A existência de dois refúgios no caminho facilitava muito as coisas e pude viajar mais leve, sem levar a minha barraca.

Comecei a caminhar às 12:30 e depois de duas horas e meia de subida moderada, cheguei ao topo da encosta da montanha pela qual havia subido. De lá podia ver o Vale do Rio Túnel pelo qual iria prosseguir, até as margens do Lago Toro aonde dormiria no refúgio. Também podia ver o Passo, que ainda estava bem longe, mas diretamente à minha frente. Era tranquilizador vê-lo de tão longe, e o caminho parecia ser bastante óbvio à distância.

Iniciei a descer e logo estava no vale propriamente dito. A partir daí o relevo era praticamente plano, tão plano que grande parte do vale era um grande banhado. A trilha desaparecia e cabia a mim escolher o meu próprio caminho, e eu escolhi justamente o errado. Ao invés de me manter o mais próximo possível do leito do rio, o que seria o caminho certo, escolhi seguir em linha reta em direção ao Lago Toro, para assim caminhar menos.

Depois de mais ou menos quinze minutos comecei a encontrar água na minha frente, mas podia seguir saltando sobre pequenas “ilhas” que estavam acima da água, usando o bastão para caminhadas como apoio. Resolvi andar mais à direita, aonde havia uma floresta, pois ali certamente não haveria água. Na floresta as coisas não melhoraram tanto pois o mato era bastante fechado e era difícil caminhar com a mochila, que enroscava nos galhos várias vezes. Prossegui devagar, atravessando um pequeno rio que encontrei pelo caminho.

Estava revoltado por ter escolhido exatamente o caminho errado. Eu estava caminhando muito lentamente e começava a pensar na ironia que seria caso precisasse acampar no mato logo naquele dia, que tinha deixado a barraca na guarderia.

Depois de um longo tempo, acabei por encontrar a trilha e logo em seguida cheguei ao refúgio.

O refúgio era realmente engraçado, uma casinha de metal pintada de laranja, em forma de triângulo. Exatamente como uma casa de cachorro em tamanho exagerado. Não havia janelas, e dentro havia espaço para quatro pessoas apenas, o que permitia um rápido aquecimento do lugar.

Ao lado da casinha encontrei um outro refúgio improvisado por expedições anteriores, uma espécie de barraco, cujas paredes eram feitas de troncos de árvores caídas, e o teto era feito de lona, coberta com outras árvores menores para evitar que o plástico fosse arrancado pelo vento. Havia até uma porta, essa feita de tábuas mesmo. A decoração do lugar era feita com caveiras de vacas mortas, penduradas ao lado da porta. Dentro era bem escuro e havia um local para se fazer uma fogueira e cozinhar. Várias panelas enormes, de expedições anteriores, estavam empilhadas em um canto. Havia também latas de açúcar, chá, e algumas velas , que foram muito úteis pois eu tinha apenas uma lanterna como fonte de luz e não queria cozinhar gastando pilhas.

Fazia muito frio, com certeza devido à proximidade do Campo de Gelo, e dormi pesadamente logo após terminar o jantar.

Na manhã seguinte comi a minha tradicional panelada de Musli, à qual eu vinha acrescentando chocolate em pó, uma delicia.

Saí cedo, pois não tinha barraca para desarmar e também teria que atravessar o Rio Túnel, e como o rio é alimentado pelo degelo do glaciar, o melhor seria atravessá-lo o mais cedo possível, antes que o sol derretesse muito gelo.

Segui o Rio Túnel até chegar ao Lago Toro, que contornei pela direita conforme as indicações de Maurizio. Ao chegar ao lado oposto do lago, encontrei o trecho onde o rio que escorria do glaciar encontrava o lago. Neste ponto, o rio se dividia em vários braços menores, formando um delta, mais fácil de se transpor que o rio inteiro.

Me preparei para entrar na água, tirando as botas e as meias. Infelizmente eu não tinha sandálias, que seriam perfeitas para proteger os pés. Fiquei apenas de calças curtas e jaqueta, com o capuz levantado para proteger a cabeça da água caso eu escorregasse.

Me restava então escolher o lugar para a travessia, e foi aí que novamente eu cometi um erro, que poderia ter me custado muito caro. O pequeno delta entre o glaciar e o lago tinha algo como 50 metros de comprimento. Próximo ao glaciar a água era mais funda e a correnteza mais forte, pois eram poucos os canais por onde a água corria. Próximo ao lago o número de canais era bem maior, a correnteza mais fraca, e também a profundidade da água era menor. Logicamente escolhi fazer a travessia o mais próximo do lago possível.

Esse foi o meu erro. Eu não sabia que a água que escorre do degelo de um glaciar é carregada de sedimentos, e esses sedimentos se depositam ao longo do leito dos rios. Se a água corre com grande velocidade os sedimentos se mantém suspensos, depositando-se lentamente, dispersos em uma grande área. Se a água corre lentamente, os sedimentos se depositam em maior concentração naquele local. Era exatamente isso que acontecia nas margens do lago.

Tudo correu bem enquanto eu caminhei pela margem do lago aonde ela havia passado a noite toda sem estar coberta pela água. O piso era firme e plano. Assim que coloquei a perna dentro da água, para atravessar o primeiro canal, senti o meu pé tocar a areia do fundo e continuar a afundar, até a água estar pela metade da minha coxa. Tomei um susto enorme, e inclinei o corpo para trás, enquanto enfiei a outra perna na água para poder retirar a primeira.

Tudo foi muito rápido, e com movimentos um tanto desesperados consegui sair do pequeno canal, molhado até a cintura. Ninguém havia me prevenido sobre aquilo, e se eu tivesse encontrado a “areia movediça” longe da margem, tenho minhas dúvidas se teria conseguido sair da água.

Voltei com as pernas tremendo pela descarga de adrenalina até a parte alta do delta, e iniciei ali a travessia, utilizando o bastãozinho de caminhada como apoio. A água atingiu a altura do meio da minha coxa mas a travessia foi tranquila. O único problema é que por estar descalço tive que caminhar devagar para não machucar os pés e também tinha um pouco de dificuldade para manter o equilíbrio.

Uma vez do outro lado parei um pouco para secar os pés e me recuperar do susto, que foi sem duvida nenhuma o maior da viagem

A partir deste ponto segui uma trilha bem marcada que subia a montanha, contornando o glaciar. Depois de uns duzentos metros a trilha levava até o glaciar, por onde continuei a caminhar. O glaciar estava sem neve alguma e não havia fendas na beira dele. Somente ao caminhar mais para o interior é que se viam as fendas, que se aprofundavam e alargavam, até transformar a superfície do glaciar em uma coisa totalmente caótica e inóspita.

E lá estava eu, dando os meus primeiros passos em um glaciar de verdade. A caminhada com Maurizio havia sido fichinha perto desta. Era o Glaciar do Rio Túnel, as fendas eram enormes, e eu podia escutar os rios que corriam pelo fundo delas.

Continuei a seguir pela beira do glaciar, totalmente tomado pela emoção. Tudo ali era novo para mim, um universo enorme e desconhecido, de uma beleza estonteante, com formas estranhas e de dimensões enormes. As forças que moldavam aquela paisagem eram gigantes e me faziam sentir muito pequeno e insignificante.

Depois de andar mais ou menos um quilômetro sobre o gelo voltei a seguir a trilha, que reiniciava às margens do glaciar. Ela seguia paralela ao glaciar mas eu deveria virar a esquerda e subir uma rampa íngreme, aonde, segundo Maurizio, encontraria uma outra trilha, que era mais fácil de seguir. Subi a rampa procurando a segunda trilha, e quando a vi não pude alcançá-la pois no meu caminho havia uma encosta muito inclinada e escorregadia. Percebi então que havia cometido outro erro, havia subido a rampa que saía da trilha cedo demais. Se tivesse caminhado uns cem metros a mais antes de subir, não teria problemas com a rampa inclinada. A solução foi voltar até a trilha original, mas desta vez resolvi não tentar pegar a trilha de Maurizio, e seguir pela trilha normal.

A trilha normal me levou às margens de um lago formado por um segundo glaciar. A trilha terminava na margem esquerda do lago e era óbvio que devia seguir por ali mesmo, pois a apenas 300 metros dali acabava o vale e iniciava-se uma subida íngreme que levava até o Passo. Cheguei ao início da subida, mas não encontrei trilha alguma. Isso significava que a trilha que eu estava seguindo provavelmente não era a trilha “normal”. A trilha “normal” era a de Maurizio. De qualquer forma isso não importava mais muita coisa, e comecei a subir pela rampa, que era bastante íngreme, e coberta de grama.

Logo perdi contato visual com o Passo e me limitei a subir pelo caminho mais fácil, que por sorte me levava na direção certa. Continuei a subir, sempre procurando encontrar sinais de pessoas que houvessem passado por ali, mas não encontrava nada. Era uma sensação meio estranha, eu sabia que estava na direção certa, mas a falta de uma trilha ou algo que me confirmasse a direção, me fazia ficar um pouco nervoso. Procurava ver o Passo, mas como a rampa era íngreme demais, não o encontrava.

Depois de quase uma hora por essa subida pude ver o Passo a uns quinhentos metros de distância, à minha direita. Em seguida encontrei uma espécie de rampa que levava diretamente ao Passo, e era com certeza a “trilha”. Entretanto, não havia nenhum sinal da passagem de pessoas por ali. A grama, que é facilmente danificada ao ser pisada, estava em perfeitas condições.

Em dez minutos estava no topo, finalmente no Passo del Viento, que no Brasil se apresentava para mim como um dos pontos altos da viagem. E era realmente um ponto alto, a 1500 metros de altura. O vento, apesar de estar soprando bem forte não me impressionou muito pois eu esperava encontrar aqueles ventos que mal te permitem manter o equilíbrio em pé.

O mais impressionante de tudo era o visual. Atrás de mim podia ver os glaciares por onde passei, o Lago Toro, todo o Vale do Rio Túnel e também a encosta que o separa de Chalten. À minha frente porém, estava o lugar que sonhara ver desde que saíra de São Paulo, o Campo de Gelo Sul.

É difícil descrever o lugar e a emoção que senti ao vê-lo. O gelo estava a 800 metros de altitude, bem mais baixo que eu, e portanto podia vê-lo muito bem. Um verdadeiro mar, riscado por longas faixas marrom. O gelo não era branco como eu esperava, e sim meio cinza, devido à grande quantidade de pedras que o glaciar triturava com a sua passagem. As faixas marrom se formavam nas áreas onde havia maior atrito entre o gelo e a pedra. A superfície era plana, mas pontuada por “ilhas” que eram as montanhas cuja altura excediam a altitude do gelo.

O tempo estava encoberto, era difícil saber o que era nuvem e o que era neve. Era impossível identificar a linha do horizonte, e a sensação era a de estar penetrando em um outro mundo, em uma outra era. O campo de gelo parecia imutável, absolutamente poderoso, maior e mais pesado do que qualquer coisa ao seu redor. A imponência do visual me fez prender a respiração e praticamente calou o vento, que fazia barulho na minha orelha.

Podia ver o gelo se estender por aproximadamente 30 quilômetros à minha frente, aonde parecia estar o horizonte. O fim do campo de gelo era muito mais além. À minha direita a visão não alcançava muito longe pois era obstruída pela cordilheira aonde eu estava, mas eu podia ver ao longe um cordão de “ilhas” maravilhosamente brancas, que se elevavam do “mar” cinzento.

À esquerda havia uma espécie de “península” que avançava sobre o gelo. O gelo a contornava para em seguida iniciar uma longa e suave descida que iria levar ao Lago Viedma, o qual não era visível pois estava atrás de outra montanha. Essa parte do gelo que desce em direção ao lago, recebe o nome de Glaciar Viedma, o maior da América do Sul.

Fiquei por um bom tempo ali, paralisado pelo impacto do visual. O ponto onde eu estava representava o limite entre os domínios do homem , que ficavam para trás, e uma área aonde o homem não significava nada, e não havia nem mesmo plantas . Uma bandeira argentina hasteada de cabeça para baixo e meio destruída pelo vento, marcava este limite.

Apesar de o campo de gelo ser uma área absolutamente inóspita, ele é o motivo de uma séria disputa territorial entre o Chile e a Argentina, cujas relações diplomáticas estão razoavelmente abaladas por causa dela.

Durante um bom tempo ouvi falar da disputa sem entender o que poderia haver ali de tão valioso, até que li em um cartaz que o campo de gelo é uma enorme reserva de água doce para o futuro, quando, segundo algumas previsões, a água potável será uma mercadoria rara e valiosíssima.

Talvez o gelo não fosse tão inatingível como aparentava. Talvez ele tivesse sobrevivido milhões de anos intocado apenas para ser desperdiçado, usado para matar a sede de “progresso” do homem moderno.

Engraçado como podia ver estas coisas tão claramente estando tão mergulhado na natureza . A maneira absurda como o homem obtêm o seu sustento da natureza , lesando cada vez mais os recursos naturais em busca de mais dinheiro e conforto. Esquecendo se o quão pequena a espécie humana é perante a natureza e ignorando como estamos nos condenando a viver um futuro trágico por não condicionarmos o uso da tecnologia e a exerção de nossas atividades à uma manutenção do nosso patrimônio natural.

Previsões apocalípticas à parte, iniciei a descida em direção ao Campo de Gelo. Desci por uma trilha que acabou por desaparecer, mas o caminho a seguir era claro, devia virar a esquerda ao chegar ao final da descida, e seguir um riozinho, até que ele terminasse em um pequeno lago. Às margens do lago deveria encontrar o refúgio. Fazia bastante frio e cheguei ao refúgio sob uma fina “garoa” de neve.

O refúgio era bastante grande, com beliches para dez pessoas e mais espaço no chão para quem necessitasse. Fiz um chá e uma sopa para me recompor. Eu havia caminhado 5 horas do Lago Toro até o Passo del Viento (das quais uma hora e meia foram gastas em caminhos errados), e do Passo até o refúgio gastara 2 horas. Havia sido um dia cansativo, mas maravilhoso, e antes de dormir ainda dei mais umas voltas pelos arredores.

No dia seguinte saí para explorar o gelo. Desenhei um mapa com o trajeto que iria fazer e deixei em cima da mesa para o caso de eu sofrer algum acidente. Levei comigo roupas quentes, um pouco de comida, lanterna, um pedaço de corda e o meu fiel bastãozinho para caminhadas.

Pretendia caminhar em direção ao sul pela terra, para tentar ver o ponto onde o Glaciar Viedma encontra o lago de mesmo nome. Olhando do refúgio parecia ser logo ali, e mais uma vez eu me deixei enganar por esse tipo de ilusão. Eu estava a uma distância muito grande do lago, e caminhei por duas horas sem ver nenhum sinal dele. Havia sempre uma encosta a mais para subir ou uma curva a mais na montanha. Acabei desistindo, meio revoltado por gastar o meu escasso tempo caminhando em uma direção inútil. Voltei ao refúgio para comer e descansar um pouco.

À tarde saí na direção oeste, pela península que avançava para dentro do Campo de Gelo. Caminhei por uma hora e cheguei no topo da península, de onde podia ver gelo em quase todas as direções, simplesmente fantástico. De lá desci para finalmente caminhar sobre o gelo.

A área onde um glaciar encontra a pedra é uma zona interessante, aonde ocorre um incrível confronto de forças. A pedra tenta permanecer imóvel, mas o glaciar força a passagem, erodindo-a e às vezes perdendo pedaços também . Nessa zona há sempre pequenos rios de água correndo sobre gelo, erodindo o mesmo no processo.

Cheguei ao gelo justamente em uma área aonde havia uma espécie de reentrância no perfil da pedra. Isso fazia com que houvesse um grande buraco entre o gelo e a pedra pois o glaciar, ao correr paralelo à pedra, não preencheu esta reentrância. O resultado disto é que era possível se aproximar do glaciar “por baixo” dele.

Nesse local específico, a parede de gelo tinha apenas dez metros de altura, e não era uniforme, havia enormes rachaduras no gelo, através das quais era possível entrar no glaciar. Dentro destas pequenas cavernas a água escorria pelas paredes, formando pequenos rios no chão. Em certos lugares a água caía livre desde o teto até o chão, formando pequenas cascatas.

Era uma surpresa para mim encontrar logo de cara com uma caverna, pena ela ser tão pequena. Podia caminhar somente por uns dez metros no seu interior. As formas esculpidas no gelo pela água eram absurdas. A água correndo pelas paredes, caindo do teto, fazendo barulho ao tocar o chão, e depois continuando a correr, dava a impressão de o glaciar ser uma coisa viva, um monstro de água solidificada que avançava lenta, porém inexoravelmente.

Saí da “caverna” e escalei pela pedra para poder subir no topo do glaciar e finalmente caminhar sobre ele.

Era realmente como Maurizio me havia dito, não existiam fendas, e era seguro caminhar. O tempo estava encoberto desde a manhã, com uma cara ameaçadora, e eu o observava constantemente para evitar ser surpreendido por uma tempestade.

Aparentemente havia nevado um pouco a noite anterior pois a superfície do gelo estava coberta por grandes flocos brancos congelados. A superfície do gelo era bastante áspera e permitia um caminhar bastante seguro, se bem que um tanto assustador a princípio pois a cada passo eu esmagava os flocos congelados, que faziam barulho ao se romper.

A sensação que eu tinha era a de estar realmente em outro planeta, totalmente desconhecido. Não podia ver nenhuma fenda, mas podia ver algumas mini fendas, que aparentavam ser antigas fendas, recomprimidas e forçadas a se fechar de novo, porém deixando pequenas falhas na superfície. Essas pequenas falhas estavam cheias de água, cuja superfície estava congelada.

Quebrei a superfície gelada de algumas destas mini fendas para ver o quão fundo elas eram, e constatei que elas eram bem fundinhas, o suficiente para engolir uma pessoa.

Por sorte elas eram bem visíveis, e seria difícil cair em uma delas, de modo que me pus a caminhar pelo gelo, em direção ao horizonte. Depois de uns dez minutos não havia mais nenhuma “mini fenda”, o gelo se tornara ainda mais plano, e a única particularidade na superfície eram as ocasionais faixas marrons geradas pelos sedimentos que afloravam à superfície.

Pude perceber porém, que onde ocorriam as faixas marrom, o gelo apresentava pequenas rachaduras na sua superfície, o que podia esconder fendas maiores, e isso começou a me fazer sentir medo.

Parei para pensar no que Maurizio me havia dito, eles haviam passado duas semanas explorando aquela região e não encontraram fendas ou cavernas grandes, e por isso eu podia me tranquilizar e caminhar em paz.

Na realidade o que estava acontecendo é que eu estava me impressionando por estar em um lugar totalmente surreal e desconhecido, e estava com a minha capacidade de julgamento um pouco alterada. Por exemplo, eu escutava o barulho de minúsculos rios que correm pelo glaciar, e cogitava a hipótese de o barulho estar vindo de algum rio invisível que estivesse correndo bem embaixo dos meus pés, e que a superfície do gelo fosse ceder a qualquer momento e eu cairia em algum rio subterrâneo. Depois de pensar isso, o barulho que eu fazia ao caminhar esmagando o gelo, parecia ser o barulho de placas de gelo se rompendo para que eu caísse em alguma fenda invisível.

Eu sabia que estava exagerando, mas quando se está sozinho em um lugar estranho é muito mais fácil sentir medo. De qualquer forma o medo é uma sensação desagradável, mas super benéfica pois te impede de cometer excessos inúteis e perigosos.

Eu já estava caminhando pelo gelo há um bom tempo, e se eu estava começando a me sentir desconfortável, deveria ir embora sem me recriminar, afinal de contas aonde eu poderia chegar caminhando uma hora a mais, ou mesmo cinco horas a mais?

Chegaria a algum outro ponto onde encontraria gelo, pedra e água combinados de uma maneira bastante parecida às que já havia visto.

O ideal seria retornar ao gelo com mais algumas pessoas, com equipamento adequado, e com conhecimento sobre o local, para aí sim poder explorar e sentir a sensação de estar caminhando em outra dimensão sem sentir mais medo do que o necessário.

Resumindo, voltei ao refúgio. Havia tido bastante aventura nos últimos dias e estava acabando mais uma fase de caminhadas. Breve estaria pedalando de novo em direção a novas emoções.

Fui dormir cedo e continuei a viver grandes aventuras, desta vez em forma de sonho. Eu era perseguido por uma espécie de baleia assassina, azul clara e branca, as cores do gelo. Essa baleia simplesmente se materializava do gelo, era feita de gelo do glaciar. A minha sorte é que ela se despedaçava ao saltar fora do gelo. Mas ela se rematerializava em seguida, e continuava a me perseguir através dos glaciares.

Esse foi realmente um sonho muito louco, mas não foi o único nem o mais violento. Várias vezes durante a viagem tive sonhos estranhos e emocionantes, muito vívidos, e o melhor de tudo é que eu não os esquecia.

No dia seguinte me despedi do gelo. Parti ao meio dia, e prossegui por cinco horas, incluindo uma parada para almoço no meio do caminho, até o refúgio no Lago Toro.

Lá encontrei as primeiras pessoas que via em três dias, um casal de americanos e dois casais sul africanos. Nenhum deles estava planejando ir ao Campo de Gelo. Os americanos acabaram indo até o Passo del Viento no dia seguinte pois eu jurei que aquela era a visão mais impressionante que eles podiam ter no Parque. Eles foram, e concordaram comigo mais tarde quando nos reencontramos.

No dia seguinte caminhei com os sul africanos de volta a Chalten. Em Chalten fui tomar umas cervejas e escrever umas cartas. No dia seguinte iria embora do Parque em direção ao norte.

12 - Ruta 40 e Cerro Castillo



Fui colocar as cartas no correio e lá conheci uma mulher muito simpática com quem fiquei conversando por um bom tempo. Eu estava a fim de pegar uma carona até a Ruta 40, a 80 km de distância, pois a estrada até lá era péssima. Perguntei se ela conhecia alguém que fosse para lá no dia seguinte e para minha sorte ela tinha um amigo indo para lá na manhã seguinte. Logo fui apresentado a Max, um baixinho loiro com uma cara entre engraçada e estranha. Ele era simpático e me falou que estava indo até Bariloche, a uns 1500km mais ao norte, e se eu quisesse poderia ir com ele até lá.

Isso era mais sorte do que eu poderia esperar, e eu topei na hora, só que não iria até Bariloche e sim até Perito Moreno, a mais ou menos 700km, aonde eu reentraria no Chile. Combinamos de nos reencontrar no dia seguinte pela manhã.

Eu estava feliz, ia economizar 700km de Ruta 40, aonde não há muita coisa para ver, há pouca água, e o vento sopra mais forte do que no Chile.

Eu não tinha nenhum problema em pegar caronas. Não estava pedalando para acumular quilômetros ou bater recordes, e sim para me divertir. Além disto, com essa carona economizaria um bom tempo e poderia utilizá-lo para fazer algo diferente mais tarde.

No dia seguinte fui falar com Max, já com a minha bagagem arrumada, e as coisas mudaram de figura. Max começou dizendo que teria de cobrar para me levar com ele. Eu respondi que não havia problema nenhum e contribuiria dividindo os custos da gasolina.

Ele me disse, meio sem graça, que não era só aquilo. Eles (iriam ele e mais um amigo) passariam em vários lugares turísticos antes de chegar a perito Moreno, aonde eu ficaria. A viagem levaria dois dias e, resumindo, ele queria me cobrar 80 dólares.

Eu disse que não tinha muito dinheiro e realmente não poderia gastar tanto, podendo contribuir apenas para a gasolina.

Ele me respondeu, fazendo um ar sério, que teria que conversar com o “sócio” dele, e foi em direção a uma construção de onde se podia ouvir um som trash metal dos mais barulhentos. Lá ele começou a conversar com um tipo mal encarado.

Enquanto isso eu pensava na ironia de estar fazendo uma viagem tão legal e ter de lidar com esse tipo de situação. Mas não quis me precipitar e julgar a ele ou ao sócio, até que percebi que eles estavam rindo da minha cara sem nem ao menos disfarçar. Eu não precisava deles, pensei. Caminhei até eles, apertei a mão de Max, e disse que estava tudo bem, eu iria me virar sozinho pois não podia pagar mais que a gasolina.

Aí o “sócio” falou que eu estava sendo tolo pois 80 dólares era um preço muito baixo, e normalmente eles cobrariam mais de 100 para levar um turista “normal”.

Deixei os ali mesmo sem discutir mais e fui em direção a estrada, pensando algo como “se não consegui carona com eles é que algo mais legal vai acontecer”. Uma vez na estrada me preparei para pegar outra carona pois àquela altura havia decidido evitar a Ruta 40.

O problema é que o movimento na estrada era super fraco, e não passou nenhum carro durante horas.

O inevitável aconteceu, e vi o Land Rover de Max saindo da cidade. em minha direção. Fiz sinal para eles pararem e pedi para que me levassem pelo menos até a Ruta 40.

Ele me respondeu com um sorriso, “Diez dolares”.

Eu lhe disse com delicadeza para deixar de ser mercenário pois realmente não tinha dinheiro e iria ter que pedalar se ele não quisesse me ajudar.

Ele topou. Coloquei a bike atrás e me acomodei por cima da bagagem. Fomos conversando enquanto íamos até a Ruta 40, e acabei convencendo-o a me levar até Perito Moreno por vinte dólares. Eu não estava desesperado pela carona como pode parecer, mas ela cairia como uma luva para mim, e eu estava determinado a facilitar um pouco a minha vida.

Era estranho viajar de carro, a distância era percorrida em um piscar de olhos, mas eu não me importava pois a Ruta 40 mostrava ser aquilo mesmo que eu ouvira falar, monótona, sem água, e também com poucos veículos para se pedir água.

Finalmente chegamos em Perito Moreno, e eu estava pronto para pedalar de novo. A estrada era de asfalto, e o relevo plano, de modo que em três horas percorri os 60 km que me separavam de Los Antiguos, fazendo uma média de 20km/hora, a maior até então.

O visual era bem bonito, estava às margens de um grande lago dividido entre Argentina e Chile. Do lado argentino ele se chama Lago Buenos Aires, e do lado chileno ele se chama Lago General Carreira.

Em Los Antiguos parei para tomar algo e comer um chocolate. Em seguida prossegui até a fronteira, que atravessei rapidamente, logo chegando em Chile Chico, aonde dormiria.

Já era noite, e fui procurar uma hospedaje. Encontrei uma por 4000 pesos, mais ou menos dez dólares, sem café da manhã. Era um pouco caro, mas não importava. Eu precisava tomar um banho, fazer a barba, e também lavar roupa. Fazia 9 dias que não tomava banho, o último havia sido na Piedra del Fraile.

O assunto banho é uma questão polêmica em um lugar tão frio. Nunca há água quente para se lavar, mas com o frio não se transpira tanto e é possível passar um longo tempo sem banho. É uma questão de decidir o que incomoda mais, se é estar sujo ou se é passar frio, cada um estabelece os seus próprios limites. Posso dizer que o meu não vai muito além destes nove dias.

Era bom estar em uma cidade e usufruir das duas vantagens da civilização que eu mais sentia falta, luz elétrica e água quente. De quebra eu ainda tinha um quarto, também com luz é claro, aonde podia esparramar as minhas coisas desordenadamente.

Passei o dia seguinte descansando e nadando no lago, que era muito bonito. No outro dia peguei uma balsa para atravessá-lo e voltei a pedalar.

Eu estava seguindo pela Carretera Austral, que corta a Patagônia chilena no sentido norte-sul, unindo Puerto Montt, ao norte, a Tortel, ao sul.

Para mim a característica mais marcante deste trecho foi a umidade e riqueza da vegetação. A Carretera Austral está a oeste da Cordilheira dos Andes, a qual funciona como uma espécie de “barreira de chuvas”. Quase toda umidade existente no ar e que atinge o continente vindo do Oceano Pacifico se condensa e se precipita na forma de chuvas ao atingir o lado oeste da cordilheira.

Isso faz com que os lados oeste e leste da cordilheira sejam muito diferentes. No oeste há muita chuva e por isso toda a região é coberta por uma verdadeira floresta tropical, muito densa e úmida. Já no leste da cordilheira, os ventos secos varrem as extensas planícies argentinas, os pampas, cuja vegetação predominante é seca e rasteira.

A Carretera Austral ainda não foi concluída, está sendo trabalhado o último trecho que levará a estrada à cidade de Villa O’Higgins, na fronteira com a Argentina. Isso faz com que esta parte do Chile seja muito pouco explorada ou povoada, e por isso eu sentia muita expectativa ao começar a minha viagem por ali.

A estrada era de terra e mais movimentada do que eu esperava, com vários caminhões que levantavam enormes nuvens de poeira. Mas a paisagem era muito agradável, e o tempo passou rápido enquanto eu percorri 50 km até Villa Castillo, aonde eu planejava deixar a bike para fazer umas caminhadas na Reserva Nacional Cerro Castillo, que fica praticamente em cima da vila.

Chegando à vila fui comprar comida para levar durante a caminhada e aproveitei para pedir ao dono do mercado para que ele guardasse a bike para mim até que eu voltasse.

Ele concordou, e logo eu estava partindo de novo, “convertido” mais uma vez em trekker.

Peguei uma carona que me economizou 9 km de caminhada na subida, e comecei a caminhar em direção ao lugar aonde iniciava a trilha propriamente dita, que ainda estava a uns 10km de distância.

Esperava encontrar uma carona pois era fim de tarde e pensei que haveria um maior movimento de carros, mas eles iam todos na direção “errada”. Segui caminhando e de repente vi uma bicicleta vindo em minha direção. Ela era pedalada por um francês, que havia começado a viajar nos Estados Unidos, 14 meses antes!

Ficamos conversando por um bom tempo, e quando ele se foi já estava praticamente anoitecendo, e por isso fui obrigado a me afastar da estrada e procurar um lugar para acampar.

Armei a barraca rapidamente e cozinhei no escuro pois estava dentro do mato, aonde escurece mais rápido.

No dia seguinte caminhei por mais duas horas antes de conseguir arrumar uma carona que me levasse até o ponto aonde se inicia a trilha, um local aonde dois rios se encontram e recebe o nome de Las Horquetas Grandes.

Iniciei a caminhar às 11:00 da manhã, seguindo por uma estrada que passava através de uma floresta. Não havia ninguém para me explicar o caminho a seguir e eu estava me orientando por indicações que recebera de um suíço que havia encontrado ainda em Chile Chico.

Depois de caminhar por mais ou menos quatro horas, cheguei em um vale pelo qual iria prosseguir e que me levaria ao ponto de onde se sobe para caminhar entre as montanhas.

Depois de 5 horas de caminhada cheguei ao fim do vale, aonde se iniciava uma trilha que subia, até o Passe Peñon, que funciona como entrada para o maciço do Cerro Castillo. Eu só iria encarar a subida na manhã seguinte pois já estava anoitecendo e por isso acampei por ali mesmo, às margens de um riacho.

Comecei a caminhar cedo na manhã seguinte, às 8:40 já estava com o pé na estrada, e depois de uma hora e meia já estava no Passe Peñon, a 1450m de altitude. A subida até lá foi moderada, e a passagem pelo passe, apesar de ele estar com um pouco de neve, foi tranquila.

Logo após o passe, pude ter a primeira visão do maciço do Cerro Castillo. Realmente impressionante, a montanha se ergue imponente e quase verticalmente, como um castelo.

Continuei seguindo a trilha, que agora descia às margens de um riacho, se afastando do Passe. Na realidade não havia uma trilha propriamente dita, mas eu tinha um mapa que me indicava o caminho, e o único caminho razoável a seguir era pelas margens dos rios. De vez em quando eu encontrava pedras pintadas de vermelho ou então pilhas de pedras, que me confirmavam estar na direção certa.

Depois de descer até uma altitude de 900 metros, encontrei um outro rio, que vinha descendo as encostas do Cerro Castillo à direita. Segui por ali de acordo com a indicação no meu mapa, e recomeçei a subir.

O caminho se tornou um pouco mais complicado pois como não havia trilha eu tinha que caminhar sobre pedras às margens do rio.

Parei para almoçar por volta do meio dia. Eu estava fazendo dois almoços por dia. Comia menos comida e assim podia caminhar mais facilmente e também tinha uma parada a mais para descansar.

Depois de mais duas horas de caminhada cheguei às margens da Laguna Castillo, que como o nome indica, fica diretamente abaixo do Cerro de mesmo nome, e tem suas águas fornecidas pelo degelo da neve e glaciar que existem no mesmo.

Eu estava planejando acampar por ali pois a região é muito bonita e interessante para ser explorada, com paisagens encantadoras e variadas. Mas eu estava me sentindo um pouco inquieto, com vontade de seguir caminhando, e por isso continuei, desta vez subindo, em direção ao Morro Rojo, à 1690 metros.

Estava cansado, mas o cenário mudava o tempo todo, me incentivando a caminhar mais. Do topo do Morro Rojo eu tinha uma visão privilegiada da trilha que havia percorrido desde o Passe Peñon até a Laguna Cerro Castillo, cujas águas refletiam a imagem das nuvens no céu. Podia ver o glaciar com suas colunas de gelo precariamente equilibradas sobre a laguna. Acima do glaciar se erguiam as negras paredes de um castelo de pedra, o Cerro Castillo.

Eu tinha também um outro tipo de incentivo para seguir caminhando. Ao longo do dia o tempo havia mudado, e o céu estava carregado de nuvens negras que se dirigiam em minha direção.

Acabei decidindo por sair da reserva pois parecia que no dia seguinte iria chover e eu não estava a fim de caminhar na chuva.

Do topo do Morro Rojo desci diretamente em direção a saída da reserva, deixando de visitar o lado norte do Cerro Castillo.

Cheguei à saída da reserva no fim da tarde, tendo caminhado por oito horas e meia neste dia. Estava cansado como nunca e tratei de ir para a cama rapidinho.

Na manhã seguinte minha decisão se mostrou correta pois durante a noite chovera, sendo que na parte mais alta da montanha havia nevado e o tempo continuava encoberto, com nuvens que prometiam ainda mais neve.

Caminhei por duas horas e já estava de volta à Vila, aonde encontrei a minha bike, me reconverti em ciclista, e voltei à estrada.

Parei na saída da cidade pois pretendia pegar uma carona para vencer os primeiros 15km de subida, os quais já havia percorrido para chegar até lá.

Enquanto esperava, acabei sendo convidado por uns tratoristas que estavam fazendo manutenção na estrada a tomar um lanche com eles. Aceitei na hora e devorei vários bolinhos deliciosos enquanto conversávamos sobre as condições da estrada.

O meu objetivo era chegar ainda naquele dia a Coihaique, que estava a aproximadamente 100km de distância. Chegamos a conclusão que só conseguiria completar aquela distância se arrumasse uma carona para vencer os 15 km de subida.

Com um pouquinho da minha sorte logo apareceu uma caminhonete que concordou em me levar até o topo da subida, que tinha até nome, “Cuesta del Diablo”, ou Costas do Diabo.

Do topo da Cuesta del Diablo até Coihaique eram 85km, com muita descida. A estrada era de cascalho em ótimas condições por 45km, e depois de asfalto pelos próximos 40. Acabei completando a distância depois de um pouco menos que cinco horas de pedal, a uma velocidade média de 18 km/hora.

13 - De Coihaique a Puerto Montt


Cheguei em Coihaique ao cair da noite e fui em busca de uma hospedaje. Encontrei dois mochileiros israelenses na rua e fui com eles até uma. Depois de um pouco de negociação conseguimos até um desconto no aluguel do quarto. De fato os israelenses são ótimos para indicar aonde dormir com pouco dinheiro.

Tanto isso é verdade que a hospedaje estava lotada de israelenses. Era um choque para mim, depois de tanto tempo viajando sozinho, encontrar um grupo de mais ou menos vinte mochileiros.

Passei uma noite muito agradável, com direito a banho quente e bastante conversa.

O dia seguinte estava reservado para descanso e passei o tempo explorando a cidade, comendo e conversando com os israelenses. Coihaique é uma cidade bastante grande, com 40.000 habitantes, e é a capital da IX região do Chile. Foi a minha primeira cidade de tamanho razoável que eu encontrei desde que saíra de Punta Arenas, um mês e meio antes.

Estava um pouco perdido em meio à “multidão” de pessoas que caminhava pelas ruas. Havia até mesmo semáforos, trânsito, sorveterias, bancos com caixas automáticos. Uma verdadeira cidade moderna.

Eu continuava sem concordar com a maneira com que o homem “evoluiu” e organizou a vida em sociedade. Eu parava em frente às vitrines e ficava pensando nisso. Havia uma loja que vendia infinitos tipos de presilhas para cabelos e outros acessórios. Uma outra vendia uma enorme variedade de tubos e tubinhos, que continham ”produtos de beleza” dentro deles.

Que distanciamento da natureza, passar o dia dentro de uma loja esperando que pessoas entrem para comprar alguma coisa totalmente artificial e essencialmente desnecessária.

Era irônica a minha situação, pois eu faço parte desta mesma sociedade à qual estou criticando. É inviável reverter a nossa evolução e renunciar aos “brinquedos” e utilidades que a tecnologia nos proporciona. Eu mesmo estava viajando com bicicleta, fogareiro, barraca e roupas produzidos com alta tecnologia, mas ainda assim eu não conseguia deixar de considerar toda essa parafernália que criamos como uma coisa vã, que não leva o Homem a nenhuma melhora, pelo contrário, serve para distraí-lo e até fazê-lo esquecer o porque de estar vivendo como vive.

Nossa sociedade está organizada de uma maneira que nos torna dependentes dos confortos inventados por nós mesmos, e estamos cercados por esses confortos de uma maneira tal que se torna difícil perceber o quanto de nossa liberdade sacrificamos para poder ter acesso a essas facilidades.

Momentaneamente eu era livre, podia ir, em qualquer direção, ou ficar. Podia viver sem presilhas de cabelo e sem roupas novas. E podia utilizar um espaço quase infinito. O meu limite era a estrada, mas ela era longa. A paisagem mudava sempre e eu podia enxergar longe. Tédio, nem pensar.

Acabei ficando mais dois dias em Coihaique pois junto com os confortos da civilização veio uma diarréia, a primeira e única da viagem. A diarréia foi adquirida comendo um delicioso prato de “comida caseira” na própria hospedaje aonde eu estava.

Acabei partindo antes de ter sarado completamente pois estava cansado de ficar naquela hospedaje decrépita. Além disto, todos os Israelenses haviam ido embora e eu ficara sozinho.

Saí da cidade ao meio dia pedalando no asfalto que cobre os primeiros quilômetros da estrada, e depois de meia hora arrebentou um raio na roda traseira. Por sorte não era do lado direito da roda e pude consertá-lo sem problemas, mas demorei 45 minutos para acabar o conserto pois tive que esvaziar e depois reencher o pneu, e a minha bomba de ar estava se revelando péssima companheira de viagem. Ela era bem pequena, de “dupla ação” e com design moderno, mas exigia uma força descomunal para encher o pneu, por isso eu tinha que parar várias vezes para descansar antes de conseguir enchê-lo direito.

Continuei pedalando, era só subida por 20 quilômetros, mas eu tentava não reclamar pois afinal eu estava na estrada de novo. Finalmente o terreno começou a ficar mais plano, e logo eu estava descendo com o vento assobiando nos meus ouvidos. Mas o assobio do vento foi interrompido por um ruído que àquela altura eu já aprendera a reconhecer, o barulho de outro raio estourando.

Parei a bike, revoltado, mas fingi para mim mesmo que aquela era a primeira vez que aquilo acontecia no dia. Troquei o raio mecanicamente, perdendo os mesmos 45 minutos, e continuei a pedalar até o fim do dia sem nenhum outro problema.

No dia seguinte continuei a descer e depois de algumas horas cheguei à Mañihuales aonde parei para um lanche rápido na beira de um rio.

Ao norte de Mañihuales a paisagem começou a se tornar ainda mais bonita e selvagem. Depois de algumas horas pedalando avistei ao longe uma pessoa caminhando pela estrada carregando uma mochila. Pensei que era mais um mochileiro que estava tentando arrumar carona e parei para conversar.

O mochileiro era belga, e falava espanhol muito bem. Paramos para almoçar à beira de um lindo lago, e ele me contou sobre a sua viagem. Ele estava viajando a pé com a esposa. Eles se orientavam com os mapas do I.G.M. (Instituto Geográfico Militar) e escolhiam o seu próprio caminho, na maioria das vezes andando pelo meio do mato através das florestas de Lenga, que são pouco densas e fáceis de percorrer.

Na região aonde estávamos a vegetação era muito mais densa que as florestas de Lenga e por isso ele estava caminhando na beira da estrada com uma certa frequência. A sua esposa estava em Santiago e se juntaria a ele em breve. Juntos eles já haviam caminhado mais de 5000 km, somando as viagens que fizeram ao Japão, Alaska, e à Patagônia.

A aventura de caminhar fazendo a sua própria trilha na Patagônia, apesar de ser bem radical e não convencional, pode ser realizada por pessoas que tenham experiência em caminhadas e façam uma pesquisa prévia adequada. A boa notícia é que como as florestas são quase todas “atravessáveis” sem trilhas, resta apenas determinar um caminho que seja percorrível a pé, ou seja, que não tenha inclinações demasiadamente acentuadas. Isso pode ser feito tranquilamente com os mapas do I.G.M., que são topográficos e com escala de 1/50.000 , que permite uma boa visualização do terreno.

Continuamos a conversar, e apenas por desencargo de consciência, lhe perguntei a respeito da data, pois estava se aproximando o aniversário do meu filho e eu precisaria planejar estar em uma cidade para poder lhe telefonar. O belga me disse que era 24 de
Março. Segundo os meus cálculos era apenas 21 de Março, mas se eu estivesse errado deveria telefonar no dia seguinte, pois o aniversário era dia 25.

Resumindo, depois de me despedir do belga eu segui pedalando, imaginando quem seria o “perdido no tempo”, eu ou ele. No fim da tarde apareceu um jipe que ia em direção à Villa Amengoal, que seria a próxima cidade, a uns 30km de distância. Eu perguntei para o motorista se em Villa Amengoal havia telefone, e ele respondeu que logicamente sim.

Não resistindo à tentação eu lhe pedi uma carona pois assim ligaria à noite e teria certeza de encontrar alguém em casa.

O motorista aceitou e seguimos viagem juntos, logo chegando. Somente então lembrei de perguntar a data ao motorista, e ele me disse que era dia 21 de Marco, exatamente como eu pensava!

Bom, azar, eu iria ligar antes mesmo pois assim não correria o risco de estar sem telefone na hora de telefonar. Entrei na “Villa”, que na minha opinião deveria ser classificada como “Pueblito”, pois tinha apenas 154 habitantes, segundo indicava uma placa na beira da estrada.

Entrei em um bar e perguntei se por ali havia telefone, e como eu suspeitava, a resposta foi não. Irônico como às vezes tudo pode dar errado. Eu ainda tinha três dias para chegar à próxima cidade e por isso não haveria problema algum. Comprei vários pacotes de biscoito de chocolate e algumas frutas para me consolar, e fui em direção ao rio mais próximo para passar a noite.

Na manhã seguinte voltei à cidade e comprei um pouco de pão antes de continuar. A estrada tinha muitas descidas e me diverti descendo o mais rápido que podia. Depois o terreno tornou a ser mais ou menos plano e pude curtir mais o visual. A vegetação se tornava cada vez mais densa e úmida, inclusive com várias espécies de samambaias e bambu, lembrando muito as matas do Brasil.

No final da tarde entrei em outro parque, o Parque Nacional Queullat, e topei com um homem caminhando pela estrada. Era Sergio, que trabalhava como guarda parque. Ele era jovem, com apenas 24 anos, e me convidou para dormir em sua casa, que ficava a apenas alguns quilômetros mais adiante.

Ótimo programa, tomei banho, lavei roupa e ficamos conversando sobre os nossos mundos. Sergio tinha virado guarda parque por acaso, para mudar de vida após terminar um relacionamento com uma mulher. Ele havia pensado em se tornar policial mas acabou se tronando guarda parque para não correr o risco de levar um tiro à toa. E ali estava ele sozinho no meio do mato, com muito tempo disponível e pouca coisa para fazer. Com uma moto para patrulhar o Parque e sem ter que dar satisfações à muitas pessoas sobre a sua vida.

Na manhã seguinte fiz uma limpeza e regulagem geral na bike, saindo para pedalar às 13:30. Os primeiros 5 km foram de subida mas em seguida iniciou se uma descida muito longa e íngreme, que me trouxe de volta ao nível do mar. Podia sentir a umidade ao respirar, e a temperatura também estava mais alta que o normal.

Depois de mais alguns quilômetros, cheguei ao Fiorde Queullat, banhado pelas águas do Oceano Pacifico. Foi uma bela visão, as montanhas desciam íngremes até a água, que estava calma como um espelho. Não se podia ver à grande distância pois o Fiorde era estreito e havia montanhas por todos os lados, mas aquelas águas eram realmente do Oceano Pacifico, o qual eu havia deixado em Puerto Natales, a 1200 km, e sete semanas atrás.

Parei próximo à água para bater umas fotos e apreciar melhor o visual, e tive o privilégio de ver três golfinhos bem escuros, quase pretos, nadando lado a lado. Era um lugar maravilhoso, o mar parecia estar escondido ali. Não havia ondas ou qualquer tipo de ruído, nem mesmo o vento estava soprando. Também não se via nenhum indício de presença humana.

Continuei a pedalar, parando muitas vezes para tentar guardar comigo para sempre a calma e força da paisagem. No fim da tarde cheguei ao camping na área do Ventisquero Colgante, ou Glaciar Pendurado.

Conversei com o guarda parque, que me fez um desconto no preço do camping, e armei a minha barraca. O Ventisquero Colgante é uma visão realmente impressionante e inusitada, um glaciar precariamente “pendurado” no topo de uma montanha, diretamente acima da floresta.

Frequentemente o gelo se rompe e cai, fazendo um grande ruído, que se assemelha a trovões, e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Ao cair o gelo se assemelha a uma gigantesca cachoeira, despencando livre até atingir as águas do lago que existe a seus pés

É um espetáculo chocante, e para mim foi uma das visões mais impressionantes em toda a viagem. É uma pena que o acesso à base do glaciar seja complicado e a maioria dos turistas, assim com eu, acaba contemplando o espetáculo a distância.

Na manhã seguinte passei mais um tempo observando o glaciar enquanto esperava uma melhora no tempo. Na noite anterior havia chovido muito e continuava a chover pela manhã.

Por volta das 11:00 da manhã resolvi partir. Ainda garoava levemente mas o tempo prometia melhorar. E realmente acabou melhorando, mas a umidade no ar era uma coisa impressionante, havia nuvens pairando à uma altura muito baixa, e uma espécie de neblina contribuía para tornar o visual ainda mais surreal e reforçar a sensação de se estar em uma espécie de “mundo perdido”.

Esse dia foi um dos mais gostosos para se pedalar, a estrada estava em ótimas condições, absolutamente vazia, e eu seguia a grande velocidade, tendo ótimas vistas da floresta e do Fiorde cobertos pela neblina.

Parei na Vila de Puyuhuapi para um rápido lanche com iogurte e biscoitos e prossegui viagem por mais um tempo, parando para almoçar as margens de um lago com águas bem escuras, o Lago Riso Patron.

Logo após o lago, saí do parque nacional, e o visual se humanizou um pouco mais, com a presença de algumas fazendas. Mas tudo sempre em grande harmonia com a natureza mantendo uma aparência exótica e intocada.

No fim do dia, depois de ter pedalado 72 km, cheguei a La Junta aonde fui dormir em uma hospedaje e pude finalmente telefonar ao meu filho.

Na manhã seguinte amanheceu chovendo, e segundo o rádio iria chover por vários dias. Eu realmente havia tido muita sorte em pedalar a Carretera Austral sem problemas com a chuva até então, mas a minha sorte havia acabado e as chuvas, que estavam atrasadas, haviam chegado para ficar, trazendo o outono.

Me preparei para a novidade que seria pedalar com a chuva. Vesti minha capa de chuva amarela, e protegi as bolsas da bike com uma capa impermeável que tinha para a mochila de caminhadas.

No início tudo correu bem, a chuva não estava muito forte e a capa não deixava passar nada de água. O problema é que a capa, por ser tão impermeável, não deixava a transpiração evaporar, e eu acabava me molhando com o meu próprio suor. Depois de um certo tempo, até mesmo a minha bota estava totalmente molhada.

Eu não tinha frio, pois a temperatura não estava tão baixa e eu estava em movimento, me exercitando. O problema seria parar para almoçar ou dormir. Eu precisaria de um lugar protegido da chuva para parar, pois assim não sentiria frio e poderia colocar as roupas e a bota para secar.

A única opção seria pedir para dormir em fazendas, apesar de eu não ser muito fã da idéia de chegar pedindo abrigo para pessoas desconhecidas e depois partir cedo na manhã seguinte. Eu sabia que as pessoas ficavam felizes em receber viajantes e hospedá-los, mas mesmo assim eu ainda preferia não fazer isso.

A chuva começou a cair mais forte e eu comecei a considerar a hipótese de pegar uma carona até Chaiten. Chaiten é a última cidade na Carretera Austral e faltavam apenas 120 km para chegar lá. Eu hesitava em pegar carona pois a região era muito bonita e seria uma pena fazer o trajeto de carro.

Continuei argumentando comigo mesmo sobre pegar ou não pegar uma carona, pois havia pouquíssimo movimento na estrada e não poderia desperdiçar oportunidades caso passasse algum carro. Exatamente nesse momento, escutei o ruído de um carro que se aproximava pelas minhas costas.

Eu estava numa descida, indo muito rápido, e por isso o carro demoraria um pouco para me ultrapassar, eu teria que decidir naqueles segundos.

Acabei não resistindo à tentação e fiz sinal para que o carro parasse. Era uma caminhonete, e ela encostou um pouco mais à frente. Eu perguntei se eles poderiam me levar até Chaiten, e eles responderam que sim.

Em poucos minutos já havia desmontado a bike, posto roupas secas por baixo da capa de chuva, e me acomodado na caçamba da caminhonete.

Com o movimento do carro, a chuva deixou de me molhar, e eu via a paisagem passar por mim rapidamente. Era muito fácil viajar de carro, e eu não conseguia evitar me sentir um pouco inútil por estar acabando aquela etapa da viagem de uma maneira tão pouco louvável.

Mas afinal de contas, o que seria viajar de uma “maneira louvável”? Eu estava viajando. Podia estar de carro, mas ainda estava viajando. De bike eu tinha muito mais chances de me relacionar com o ambiente e as pessoas, mas eu nunca iria poder viver todas as experiências vivíveis, nem estar em todos os lugares possíveis.

Quando escolhemos ir em uma direção, deixamos de ir em várias outras, que também seriam válidas e interessantes. É impossível fazer todo o possível. E era inútil me recriminar por deixar de pedalar aquele pequeno trecho. Eu havia deixado de pedalar muitas estradas que haviam por ali, e nunca poderia pedalá-las todas.

Essa carona acabou sendo muito útil, pois o fato de eu estar mudando os meus planos, associado à velocidade do carro, fez meus pensamentos rolarem rápido, e comecei a reavaliar os meus planos de viagem futuros, mudando-os também .

Meu plano original era pegar um barco de Chaiten para a ilha de Chiloé, pedalar até o lado norte dela e aí pegar outro barco até Puerto Montt, de onde eu partiria para explorar outros parques que existem na área.

Mas eu estava com medo de encontrar muita chuva, pois afinal já era fim de Março e o tempo só tendia a piorar. Eu estava querendo mudar de planos radicalmente, e a chegada das chuvas foi a desculpa que eu precisava.

Meu novo plano abortava totalmente a Ilha de Chiloé, e incluía somente um parque nas imediações de Puerto Montt. Depois disto eu iria seguir de ônibus até Santiago, e lá pegaria outro ônibus em direção ao Deserto do Atacama, aonde eu voltaria a pedalar.

O Atacama sempre esteve nos meus planos, mas eu achava difícil conciliar em uma viagem de bike de apenas três meses, duas regiões tão diferentes e distantes uma da outra. Eu ainda tinha quase um mês de férias, e poderia dar uma boa olhada no deserto.

O tempo passou rápido enquanto eu fazia meus novos planos, e logo chegamos em Chaiten. Eu não me recriminava mais por terminar a Carretera de carro, e estava animado com os novos rumos que eu estava dando à viagem.

Chaiten é uma cidade agradável, de tamanho médio, mas que conserva um ar de cidade isolada em um lugar inóspito. O lugar é cercado de montanhas cobertas por densa vegetação e pelo Oceano Pacífico.

Acabei tendo que dormir em Chaiten pois só haveria barco para Puerto Montt na tarde seguinte. Na hora do embarque tive que me empenhar bastante para evitar pagar uma taxa extra por estar levando um “veículo”. Era absurdo, havia transportado a minha bike de avião sem pagar nada, e de ônibus pagando uma pequena taxa. A empresa de navegação queria cobrar dez dólares para carregá-la.

A solução me foi sugerida pela empregada do hotel aonde dormi, e foi uma idéia bem original e simples. Bastava pedir aos passageiros que estavam embarcando com caminhonete para que levassem a bike na caçamba.

Eu dei risada ante a simplicidade e originalidade da idéia, e fui até o porto conversar com os passageiros que estavam junto aos seus veículos. Eu não estava com muita sorte pois todas as caminhonetes estavam totalmente carregadas e também não havia muitos veículos.

Nos últimos instantes antes do embarque, apareceu um pequeno furgão, totalmente carregado, mas com um bagageiro vazio no teto. Fui conversar com o motorista. Ele trabalhava para alguma igreja, cujo nome não me recordo, e estava viajando pela Carretera divulgando-a. Ele foi muito simpático e concordou em levar a bike no bagageiro.

A cena foi um tanto cômica, ele me ajudou a desmontar a bike e a carregá-la, tudo isso bem na frente do barco, às vistas de toda a tripulação. Finalmente embarcamos, e não tive que pagar taxa alguma.

A viagem de barco foi bastante agradável, o mar estava tranquilo e a chuva acalmou um pouco durante a noite. Na manhã seguinte chegamos a Puerto Montt, e fui imediatamente à hospedaje onde havia me hospedado quando passara por ali. Foi bom rever a dona da hospedaje, uma mulher simpática, que ao saber dos meus planos de pedalar pela Patagônia me havia dito que eu morreria de frio e solidão.

Deixei a bike na hospedaje e peguei um ônibus em direção à cidade de Correntoso, de onde prossegui a pé em direção ao Parque Nacional Alerce Andino.

Caminhei pelo parque por dois dias antes de voltar a Puerto Montt. Foi uma experiência incrível, a floresta no parque era extremamente úmida, com uma vegetação muito densa. Os Alerces Andinos são as árvores mais impressionantes na floresta, alguns tem mais de 4000 anos de idade e 4 metros de diâmetro.

Encontrei também muitas Copihue, que é a flor nacional do Chile. Elas tem um tom de rosa muito bonito e a forma de sino, e são encontradas na beira das trilhas aparentando ser lanternas indicando o caminho a seguir.

O lugar é muito exótico e contrastava muito com tudo que eu havia visto na Patagônia até então. É incrível como o Chile possue paisagens tão variadas e interessantes.

Voltando a Puerto Montt, tratei de pegar o primeiro ônibus em direção à Santiago, mas antes comprei um mapa rodoviário do Chile, à venda em uma rede de postos de gasolina. Esse mapa foi todo o material que usei para preparar a minha ida ao Atacama. No caminho à Santiago eu defini que roteiro iria seguir.

14 - Deserto do Atacama


Sobre o deserto propriamente dito, eu sabia que era um dos mais secos do mundo, se é que não era o mais seco. Sabia também que a altitude média era bastante alta e que por isso eu teria problemas com a rarefação do ar e com o frio. A paisagem seria marcada pela presença de vários vulcões e também pelos vários Salares, ou lagos salgados ressecados.

Essas informações eram realmente poucas mas a bicicleta é um meio de transporte extremamente versátil, e os equipamentos que eu usara na Patagônia seriam praticamente os mesmos que usaria no deserto. O único equipamento que precisei comprar foi um porta garrafas para garrafas de um litro e meio. O resto eu já tinha. Aliás, eu acabei deixando em Santiago o meu equipamento de pesca e a jaqueta amarela de chuva.

Em Santiago embarquei para Calama, viajando por vinte e quatro horas de ônibus. A paisagem mudou radicalmente, se tornando extremamente desértica.

Em Calama eu começaria a pedalar, em direção a cidade de San Pedro de Atacama, de onde eu iria prosseguir deserto adentro. Eu tinha apenas duas semanas para explorar a região e por isso não poderia ir muito longe. Resolvi fazer um percurso de forma circular, saindo de San Pedro e retornando ao mesmo local depois de percorrer aproximadamente 500 km.

A partir de San Pedro eu seguiria por uma estrada na direção oeste, até o Salar de Cauchari, que fica na Argentina. Em Cauchari eu prosseguiria por outra estrada que retornaria a San pedro, atravessando o “Paso Sico”. Eu iria pedalar a uma altitude média de 4500m, mas que atingiria até 5000m em alguns trechos! O cenário prometia ser fantástico conforme ia me informando com as pessoas.

Me informei sobre as condições da estrada entre Calama e San Pedro, inicialmente com um motorista de ônibus que “conocia bien lá region”. Ele me disse que a estrada era toda asfaltada, com muita descida. Quando eu lhe perguntei se era possível conseguir água pelo caminho ele me respondeu que não haveria problema algum pois estava sendo construída uma ferrovia paralela à estrada e havia vários acampamentos de operários aonde eu poderia conseguir água.

Tendo recebido tão boas notícias fui almoçar em um pequeno restaurante, aonde fiz amizade com o proprietário, que era caminhoneiro e havia morado no Brasil. Depois do almoço, enquanto me despedia, comentei sobre a estrada de ferro em construção entre Calama e San Pedro. Ele me olhou com um olhar de interrogação e me perguntou; “Que estrada é essa?”

Resumindo, o motorista de ônibus com o qual eu havia me informado, não conhecia a região tão bem assim, ou tinha um péssimo senso de humor, pois não havia nenhuma estrada em construção, e muito menos acampamentos aonde se pudesse encontrar água.

Por sorte eu havia checado a informação. O dono do restaurante me deu um garrafão com capacidade para cinco litros de água, que somados a outras duas garrafas de um litro e meio cada, me davam uma autonomia de 8 litros de água, que eu calculava serem suficientes para um pouco menos de dois dias de viagem.

Tinha pela frente 92 km de estrada asfaltada até San Pedro, e 8 litros deveriam ser mais do que suficientes. Além do mais, a estrada era muito movimentada e poderia parar um carro caso tivesse alguma dificuldade.

Acabei começando a pedalar no meio da tarde e até o anoitecer completei 46 km. A estrada era relativamente plana, mas eu sentia um pouco o efeito da altitude e tinha um pouco de dor de cabeça.

A emoção por estar pedalando de novo e em um lugar diferente era grande. Armei a barraca a uns cem metros de distância da estrada e jantei olhando as estrelas.

Na manhã seguinte, depois de tomar café da manhã, me livrei do excesso de água que estava carregando, ficando com apenas três litros de água. Tinha mais 47 km pela frente e calculava completá-los em 4 horas no máximo.

Começei a pedalar às 8 e meia da manhã, um verdadeiro acontecimento! Entretanto, depois de apenas 20 km, dois raios da roda traseira arrebentaram.

Troquei-os rapidamente, mas não conseguia encher o pneu com a minha bomba. Depois de insistir por mais algum tempo acabei ficando totalmente revoltado e resolvi pegar uma carona até San Pedro. Aquilo era o cúmulo, estar pedalando do outro lado da América do Sul com uma bomba de ar ineficiente. Já tinha feito uma bolha feia na mão de tanto tentar encher o pneu, e ele continuava meio murcho.

Com a carona cheguei logo em San Pedro, aonde fui imediatamente procurar um posto de gasolina para encher o pneu. Não encontrei posto algum e por isso fui até o posto de fronteira para ver se encontrava alguma bomba. Apesar de San Pedro estar a mais de cem quilômetros da fronteira, o controle da alfândega e da imigração são feitos ali mesmo.

Na fronteira não havia carro algum, apenas uns turistas esperando na sombra por um ônibus. Para minha surpresa, vi uma bicicleta de um cicloturista encostada na parede. Imediatamente identifiquei o proprietário da bicicleta sentado no chão junto a alguns dos turistas.

“Ótimo”, pensei, ele deve ter uma bomba que sirva para alguma coisa e deve ter boas informações sobre o deserto. Fui me aproximando e fiquei chocado com o que vi. Ele estava sentado de costas para mim e vestia uma camiseta toda rasgada. Nos lugares onde a camiseta havia rasgado eu podia ver marcas de queimaduras de Sol. A pele já havia descascado uma vez e bolhas haviam se formado na pele nova que havia ficado exposta sem proteção.

“Nossa!”, pensei, com certeza esse cara deve ter alguma história pesada para contar. Deve ter se perdido em algum lugar e passado por apuros.

Cumprimentei as pessoas e perguntei quem seria o dono da bike. Andreas virou e nos apresentamos. Ele estava sorridente e despreocupado, não aparentava ter passado por nenhuma dificuldade. Só depois, ao conhecê-lo melhor é que vim a saber o quanto ele era despreocupado em relação à sua aparência e a outras coisas também . Para ele era normal andar com as roupas cheias de buracos e não se preocupar com o sol lhe queimando.

Apesar da aparência de “selvagem da bicicleta”, Andreas era extremamente simpático e logo simpatizamos um com o outro. Ele me emprestou a sua bomba, que funcionava com uma leveza deliciosa. Só de birra me deu vontade de encher e esvaziar os meus pneus várias vezes, mas me contive.

Andreas era alemão, mas como ele mesmo dizia, também era meio uruguaio, pois vivia por lá há 11 anos criando gado. Ele era uma figura muito interessante, e todo ano fazia uma longa viagem de bicicleta. Ele havia acabado de chegar em San Pedro, tendo chegado através do Paso Sico, na fronteira com a Argentina. Ele iria ficar na cidade por uns dois dias e depois regressaria à Argentina pelo Paso de Jama, exatamente como eu planejava fazer. Imediatamente concordamos em viajar juntos, e fomos à cidade procurar por um camping.

Depois de devidamente instalados, fui dar umas voltas pela cidade sozinho, pois Andreas já conhecia o local de outras viagens que havia feito por ali.

San Pedro é um oásis no meio do deserto, com casas de parede de barro, algumas pintadas de branco, e outras sem pintar, de cor bege claro, a cor da terra por ali. A cidade vive em um ritmo lento, pois não há muito para se fazer e o calor não permite que nada seja feito às pressas. A cidade é pequena e bem arborizada graças à um engenhoso sistema de irrigação que transporta a água por vários quilômetros, desde as nascentes até a cidade.

Apesar de o Atacama ser uma região extremamente inóspita, existe grande quantidade de sítios arqueológicos na região, que indicam a presença do homem na área a mais de 10.000 anos. No museu da cidade pode se ter uma boa idéia de como a vida evoluiu na área, e de como o homem foi aprendendo a transformar o ambiente e extrair o seu sustento dele. O mais impressionante no museu são as múmias, com mais de 10.000 anos , e que se mantiveram incrivelmente conservadas devido a baixa umidade do ar.

San Pedro é muito pitoresca e funciona como uma perfeite base para se explorar o deserto. Existem várias agências de turismo que oferecem passeios às regiões mais interessantes, inclusive excursões ao Salar de Uyuni, na vizinha Bolivia. É possível inclusive alugar mountain bikes de boa qualidade para fazer pequenas excursões.

Acabamos ficando dois dias em San Pedro pois encontramos muitas pessoas interessantes por lá. O lugar é uma verdadeira encruzilhada aonde os viajantes se encontram e se concentram, e conta com várias opções de divertimento noturno.

Infelizmente, nem eu nem Andreas tínhamos dinheiro para aproveitarmos o que o local tem para oferecer e por isso nos conformamos em partir o mais rápido possível.

Tive a surpresa de constatar que Andreas era ainda mais lento do que eu para levantar acampamento pela manhã, de forma que somente às 10:30 começamos a pedalar.

Nossa meta para o dia era pedalar aproximadamente 35 km de subida, e depois 15 de descida, entrando na Bolívia para visitar a Laguna Blanca. O nosso grande obstáculo seria a altitude pois estaríamos saindo de San Pedro, a uma altitude de 2000 m, para subir até um passe de 4700m, e depois descer até a Laguna Blanca, a 4400 m.

À distância a subida não parecia ser difícil de ser vencida pois o aclive não era muito acentuado. Oque ocorre é que devido à baixa umidade do ar, tem-se a impressão de estar muito mais perto dos lugares do que na realidade se está, conforme logo iríamos descobrir.

Os primeiros 15 km de estrada eram planos além de serem asfaltados, moleza. Em seguida iniciava-se a subida, muito suave, mas longa. Não precisávamos usar a marcha mais leve da bike, mas não tínhamos energia como de costume, por causa da rarefação do ar, e pedalávamos sentindo uma leve dor de cabeça.

Depois de uma hora subindo nestas condições percebi que seria difícil chegarmos a Bolívia naquele dia se continuássemos tão lentos.

A solução logo surgiu na forma de um pesadíssimo caminhão, que vinha se arrastando lentamente subida acima. Quando ele nos ultrapassou agarramos na sua traseira e prosseguimos assim por oito quilômetros. O asfalto acabava ali e não era possível seguir daquela forma por causa da poeira do caminhão. A partir de então teríamos somente estrada de terra pela frente.

San Pedro já estava longe, minúscula, bem mais baixo do que nós.

Reiniciamos a pedalada, progredindo devagar, sofrendo com o sol e a altitude. Depois de uma hora paramos para descansar às margens de uma espécie de lago artificial de águas bastante repugnantes.

Logo surgiu um outro caminhão, que encostou no laguinho para encher o radiador, que estava quase fervendo com o esforço da subida. O motorista era um boliviano muito simpático, que veio conversar conosco. Ele tinha uma informação desagradável para nós. Ainda estávamos no meio da subida apenas, e a partir dali o aclive se tornava mais acentuado. Como se isso não bastasse, teríamos pela frente vários trechos de areia fofa, oque logicamente iria tornar as coisas mais difíceis ainda.

Nosso amigo gentilmente se ofereceu para nos levar na caçamba, o que aceitamos sem muita hesitação. Pudemos observar o quão longe ainda estávamos do fim da subida, e chegamos a conclusão que éramos duas pessoas de sorte por não termos que pedalar aquilo tudo respirando um ar tão rarefeito.

Voltamos a pedalar a partir da encruzilhada que levava à Bolívia. O visual era impressionante, estávamos à 4600m de altitude, deixando para trás a enorme planície de onde havíamos saído. Bem à nossa frente tínhamos o majestoso vulcão Licancabur, um cone perfeito coberto de neve, com 5900 m de altitude.

O relevo à nossa frente era uma espécie de platô, com uma altitude média de 4500m, interrompido por montanhas, em sua maioria vulcões extintos, que tinham uma altitude entre 5500 e 5900 m. A paisagem variava entre o marrom bem claro e o escuro, chegando até a ser vermelha às vezes. Algumas encostas avermelhadas estavam cobertas por uma espécie de grama dourada, compondo um cenário incrível e inesperado em um deserto.

O Atacama não me parecia ser tão seco assim, no meio deste platô estava a Laguna Blanca, que já podíamos ver à distância. Ela era obviamente branca, devido à alta concentração de sal em suas águas. A água estava absolutamente calma, refletindo o cume nevado dos vulcões que rodeavam a Laguna.

Foi uma delícia descer observando um visual tão especial. Bem ao lado da Laguna Blanca estava a Laguna Verde, que aparentava estar ali somente para provar que aquele era um lugar totalmente inusitado, com combinações surpreendentes de cores.

Na fronteira da Bolívia não havia controle algum e por isso prosseguimos até as margens da Laguna Blanca, aonde havia uma espécie de hotel, que também aparentava estar abandonado. Fizemos um lanche e uma siesta pois estávamos cansados e com dor de cabeça.

Acabou aparecendo um senhor que cuidava do hotel e ele nos deu as boas vindas, nos mostrando também aonde podíamos pegar água fresca. Ele nos contou que o pessoal da imigração Boliviana apareceria na manhã seguinte, e também nos indicou um bom lugar para acampar. Em seguida comentou que à noite fazia uma temperatura media de quinze graus negativos por ali.

Eu mal podia acreditar, pois estava de shorts e camiseta, mas a partir do momento que o sol começou a abaixar no horizonte, começou a soprar um forte vento que fez com que a temperatura abaixasse rapidamente. Nos dirigimos ao local de acampamento, a dois quilômetros das margens da Laguna, enquanto eu me perguntava como iria fazer para suportar o frio, já que o meu saco de dormir era feito para suportar até apenas oito graus negativos, em condições extremas.

Montei a minha barraca rapidamente e depois me ofereci para ajudar Andreas, que ainda não havia acabado. Ele me disse que estava tudo sob controle e por isso entrei na minha barraca e me enfiei no meu saco de dormir.

Depois de alguns instantes ouvi um barulho estranho, de pano sendo sacudido pelo vento e de algo sendo arrastado pelo chão. O barulho veio em direção a minha barraca e depois se afastou rapidamente. Em seguida escutei Andreas proferindo uma série de palavrões em alemão, espanhol e inglês, ao mesmo tempo que começava a correr. Abri o zíper da minha barraca para ver a cena mais tragicômica de toda a viagem, Andreas em inútil perseguição a sua barraca que estava sendo levada pelo vento e descia velozmente em direção à laguna.

Felizmente a barraca enroscou em uns arbustos alguns metros antes de entrar na laguna. Andreas voltou uma hora mais tarde, exausto por tentar correr com tamanha rarefação no ar.

Nos despedimos e fomos dormir. Eu vesti todas as minhas roupas e cobri o saco de dormir com meu cobertor de alumínio. Ao contrário do que esperava dormi muito bem, provavelmente devido ao cansaço gerado pela altitude. De manhã cedo o lado externo de meu saco de dormir estava ligeiramente congelado. Uma garrafa de água que eu havia guardado dentro da mochila, dentro da barraca, estava totalmente congelada!

Levantamos tarde, quando o sol já havia aquecido um pouco a temperatura. Não iríamos pedalar para dar aos nossos corpos chance de se habituar à diferença de altitude. Havíamos inicialmente planejado caminhar até o cume do vulcão Licancabur, com 5900m, mas a subida aparentava ser demasiado íngreme, precisaríamos de mais um dia de aclimatização antes de subir até lá.

Resolvemos caminhar até o cume do vulcão Juriques, que estava imediatamente atrás de nossas barracas, era muito menos íngreme, e segundo Patricio, o senhor que cuidava do hotel, tinha apenas 4700m, somente 300m a mais de onde estávamos.

Começamos a subir, era incrível como estávamos sem fôlego. Mesmo no plano caminhávamos com dificuldade. Depois de mais de duas horas de caminhada, se tornou óbvio que Patrício havia se enganado em relação à altitude da montanha (descobri depois que a altitude correta era de 5700m, e não 4700). Estávamos muito alto, e tínhamos a impressão de estar olhando para uma foto de satélite quando olhávamos para baixo.

Estávamos sofrendo bastante para subir pois não havia trilha alguma e a encosta da montanha era coberta por pequenos fragmentos de pedra que afundavam sob nossos pés, dificultando ainda mais o nosso avanço. Parávamos frequentemente, e cada vez demorávamos mais para recomeçar a caminhar.

A aproximadamente duzentos metros abaixo do topo, comecei a me sentir enjoado, com vontade de vomitar, e resolvi desistir. Aquilo havia se transformado em sofrimento puro, e além disto eu sabia que não devia subestimar os efeitos da altitude. Eu não sabia exatamente quais eram os sintomas que tornavam uma descida para altitude menor obrigatória, mas estava desconfiado que enjôo era um deles.

Andreas resolveu continuar, mesmo sabendo que, devido ao horário, só tinha mais duas horas para chegar ao topo e começar a descer.

Nos separamos, e ainda demorei um bom tempo para chegar ao acampamento. Aproveitei o tempo que me sobrara e fui até o hotel carimbar o meu passaporte com a imigração Boliviana. Fui atendido por um rapaz agressivo de uns vinte anos, que insistia em que eu lhe pagasse vinte dólares pelo “visto”. Eu lhe disse que havia me informado com o consulado da Bolívia antes de ir para lá e sabia que o que ele me daria seria somente um carimbo de entrada no país, e não um visto, e portanto eu não tinha que pagar nada. Para acalmar o guarda eu lhe ofereci a minha bike para que ele desse uma voltinha caso quisesse.

Ele topou e chamou um colega para fotografá-lo enquanto andava em círculos pelo pátio do hotel. Engraçado como ele se transformou tão rapidamente de um rapaz agressivo em uma criança.

No fim da tarde Andreas apareceu, ele havia demorado apenas uma hora a mais para chegar ao topo, e não havia tido nenhum incidente no caminho.

Na manhã seguinte voltamos a pedalar, mais aclimatizados à altitude e devidamente abastecidos com folhas de coca para amenizar a dor de cabeça que não nos abandonava.

As folhas de coca são comercializadas livremente em todo o Altiplano Boliviano e utilizadas para combater os efeitos da altitude como dor de cabeça e tonturas. A coca age como uma espécie de anestesia, eu sentia a minha boca ligeiramente dormente, e um alívio na dor de cabeça.

Os primeiros vinte quilômetros foram de subida leve, voltando pelo mesmo caminho pelo qual havíamos descido, e depois viramos à esquerda em direção ao Paso de Jama, na fronteira com a Argentina.

Depois disto a estrada se tornou razoavelmente plana, seguindo a uma altitude média de 4500m, com descidas e subidas ocasionais, que não atrapalhavam muito o nosso rendimento.

As condições da estrada eram ótimas e seguimos sem problemas por mais 25 km, aonde encontramos um grande acampamento de trabalhadores que estavam ampliando a estrada. Entramos no acampamento e nos dirigimos ao refeitório, aonde perguntamos ao cozinheiro se podíamos “filar” uns copos de chá enquanto fazíamos o nosso lanche.

O cozinheiro não se opôs a nossa idéia e assim pudemos lanchar tranquilamente em um lugar aquecido, e tomar algo quente sem ter que ferver água.

Continuamos a pedalar, a estrada agora estava descendo e continuou assim por mais 20km, antes de recomeçar a subir.

Começamos a subir com vontade, mas logo o nosso rendimento caiu pois não tínhamos resistência. Continuamos a subir por mais de uma hora, atingindo uma altitude de 4800m antes de recomeçar a descer.

A esta altura já estava quase anoitecendo e estávamos literalmente tremendo de frio pois não tínhamos parado para por roupas mais pesadas. Fizemos uma rápida parada para nos agasalhar antes de começar a descer, e eu tive problemas para encaixar o zíper da minha jaqueta pois as minhas mãos tremiam demais.

Descemos com os corpos rígidos em cima das bikes até uma altitude mais baixa aonde encontramos um barranco que nos protegia do vento, que soprava forte todas as tardes.

Montamos as barracas, lutando contra o vento que as sacudia de um lado para outro, e nos enterramos dentro de nossos sacos de dormir para nos aquecermos um pouco. Depois de estar me sentindo melhor começei a me preparar para dormir de verdade. Havia desistido de cozinhar pois não tinha fome, apenas frio, e além disto as pilhas da minha lanterna haviam acabado.

Já estava escuro dentro da barraca e eu me preparava para dormir me orientando pelo tato. Primeiro vesti quase todas as minhas roupas. Deixava apenas uma calça e a jaqueta, que dobradas formavam o meu travesseiro. Feito isso eu preparei o meu invólucro de cobertor de alumínio, esticando um barbante por cima do meu corpo e pendurando o cobertor por cima dele. Feito isso eu colocava as garrafas de água junto aos meus pés para que a mesma não congelasse durante a noite.

Pronto, finalmente eu estava pronto para dormir e fui relaxando rapidamente. Quando estava quase adormecendo tive a impressão de que a minha mão estava na água. Acordei melhor e percebi que não estava sonhando, a minha mão realmente estava na água. Uma das garrafas estava mal fechada e toda a água havia vazado dentro da barraca!

A barraca estava inclinada para um dos lados e rolei, ainda dentro do saco de dormir, para a parte mais elevada, aonde não havia água.

Por sorte o meu saco de dormir não havia molhado, a água escorregou para o canto mais baixo da barraca, molhando apenas o colchão e o chão da barraca.

Para poder dormir sem risco de me molhar saí da barraca levando o colchão e coloquei-o no chão, inclinado, de modo que o vento o secasse. Usando uma toalha retirei a água que havia formado um pequeno lago dentro da barraca e depois posicionei a mesma de maneira que o vento acabasse de secá-la. Enquanto isso esperei, enrolado no saco de dormir do lado de fora da barraca. Em quinze minutos de vento já estava tudo seco e eu pude repetir todo o ritual para dormir, desta vez me certificando que a minha última garrafa de água estava bem fechada.

Acordei cansado na manhã seguinte e fiz uma panelada de musli para me recompor. Enquanto arrumávamos as nossas coisas um caminhão passou por nós e fizemos sinal para que eles parassem e assim pudéssemos encher as nossas garrafas de água.

Durante os sete dias que pedalei pelo deserto, acabei nunca carregando mais de três litros de água. Eu tinha o garrafão que havia ganho do dono do restaurante mas havia sempre carros passando pela estrada. Eles paravam ao nos ver fazendo sinal e nos davam água sem nenhum problema. Por isso eu nem enchia o garrafão, que tinha capacidade para 5 litros, e assim podia viajar com menos peso.

Deixando o local onde acampamos, seguimos por uma leve descida por 15 km e depois contornamos um grande lago de águas salgadas. Depois de mais 14 km paramos de novo pois eu estava muito cansado, e fizemos um lanche.

Deitamos no meio da estrada e ficamos tomando um pouco de sol e conversando. O tempo foi passando e eu fui ficando com mais preguiça ainda pois sabia que a nossa frente teríamos 30 km de subida até o Paso de Jama, na fronteira com a Argentina.

Quando eu havia me resignado a continuar pedalando, vi ao longe uma nuvem de poeira que se movia em nossa direção.

Na realidade eram quatro nuvens de poeira, que pertenciam a quatro caminhonetes dirigidas por paraguaios. Eles pararam para conversar conosco e contaram que haviam comprado os carros em Iquique no Chile. Iquique é uma cidade com isenção de impostos de importação, uma espécie de “Zona Franca”, e ali vão muitas pessoas do Paraguai comprar carros e motos importados para levar ao seu país e aí vendê-los por um bom lucro. Por isso estávamos encontrando tanto movimento naquela estrada perdida no meio das montanhas.

Um dos motoristas nos fez a oferta fatal perguntando se queríamos ser carregados até o Paso de Jama já que até lá seria só subida. Lá fomos nós, os ciclistas mais fajutos do deserto, sentados na boleia de mais uma caminhonete.

Obviamente a distância foi vencida rapidamente, e logo paramos no posto de fronteira argentino. Um guarda mal encarado nos veio dar as boas vindas, implicando com o motorista por estar nos levando na caçamba, o que era proibido. Outros guardas mais simpáticos apareceram e convenceram o primeiro a nos deixar em paz.

Carimbamos nossos passaportes sem problemas e continuamos a pedalar, desta vez em terreno quase plano. Como era fácil viajar assim, pedalando somente no plano ou na descida, e pegando caronas nos trechos mais difíceis.

Continuamos assim por mais 30 km, tendo como único obstáculo o forte vento que soprava todas as tardes vindo do oeste. No fim da tarde começamos a procurar um lugar para acampar, o que era um verdadeiro problema naquela área. Havia espaço de sobra para armar as barracas, o problema é que o terreno era absolutamente plano não oferecendo nenhuma proteção contra o vento.

Acabamos pedalando por 15 km até encontrar um local abrigado do vento, dentro de um buraco cavado por uma escavadeira que havia retirado um pouco de terra dali, por algum motivo desconhecido.

O buraco formava um abrigo perfeito contra o vento, tendo inclusive um delicioso chão plano e macio. Preparamos o jantar enquanto conversávamos. Na realidade eu era o único a comer, Andreas nunca comia à noite e de manhã cedo tomava apenas mate. Eu não conseguia entender de onde ele conseguia tirar energia para pedalar comendo tão pouco.

De qualquer forma ele era um ótimo companheiro de viagem, nos entendíamos perfeitamente, sem muitas discussões. Para ele tudo estava sempre bom, a hora de parar para comer, a hora de parar para acampar, pegar carona.

No dia seguinte pedalamos 30 km até chegarmos a uma bifurcação, as margens do Salar de Cauchari. Ali nossas rotas divergiam, eu iria seguir para o sul, em direção ao Paso Sico, que me levaria de volta ao Chile, e Andreas iria para o norte para depois seguir em direção ao Paraguai.

Almoçamos juntos enquanto esperávamos que passasse algum carro para me dar carona. Desta vez o motivo para pegar carona era a falta de tempo pura e simples. Minhas férias estavam acabando e eu precisava estar em Santiago dentro de apenas uma semana para embarcar de volta ao Brasil.

A estrada que passa às margens do Salar de Cauchari é muito pouco utilizada e por isso precisamos esperar um bom tempo até que passasse o primeiro carro, um caminhão que logo encostou ao nos ver fazendo sinal.

Me despedi rapidamente de Andreas, que me ajudou a carregar a bike no teto do caminhão. Em poucos minutos já estávamos seguindo viagem, o caminhão estava carregado de mercadorias para serem vendidas ao longo do caminho para os moradores que viviam por ali, isolados e sem nenhuma cidade por perto.

Os principais clientes eram os trabalhadores de uma mina de sal localizada no meio do Salar. Além deles havia apenas duas ou três famílias vivendo em pequenos barracos difíceis de serem vistos por olhos que não fossem acostumados àquelas paisagens.

Estávamos dirigindo através de uma planície predominantemente branca, devido ao sal seco que aflorava à superfície. A planície era pontuada por pequenas manchas de capim amarelo e pequenas áreas alagadas que refletiam o azul do céu. A área toda era rodeada por montanhas, aos pés das quais se encontravam ocasionalmente os poucos moradores da região. Era uma região desolada e crua, mas com uma beleza bruta e inusitada devido à predominância do branco no colorido.

Demoramos um longo tempo para atravessar os aproximadamente 70 km do Salar, pois a estrada era péssima, com muitos buracos. Finalmente chegamos nas imediações da vila de Cauchari, de onde partia uma estradinha que levava em direção ao Chile.

Desci do caminhão neste ponto e enchi minhas garrafas de água com três litros apenas, pois a fronteira não estava longe. Me despedi dos meus companheiros vendedores ambulantes motorizados, e começei a pedalar.

Antes de montar na bike tive uma surpresa desagradável, o meu ciclocomputador havia quebrado. Sem ele não teria como saber com precisão quantos quilômetros estava pedalando, e nem as horas.

Era um equipamento importante que eu consultava frequentemente, mas não era absolutamente indispensável. Eu ainda tinha o meu mapa, e também aprendera a avaliar com certa precisão as distâncias somente com a visão.

A fronteira do Chile estava diretamente à minha frente. A estrada descia por 17 km (conforme indicava uma placa) até o Paso Sico. Geralmente “passe” significa o ponto mais alto em um caminho pelas montanhas, mas no Chile e Argentina “Paso” tem a conotação de “Paso Fronteirizo”, e o ponto mais alto de uma estrada recebe o nome de “Portezuelo”.

Em pouco tempo cheguei em Paso Sico, aonde estava sendo construído um posto para a Policia de Fronteira Argentina. Logo após o Paso, que está à uma altitude de 4080 metros, iniciava se uma longa subida. Conforme Andreas havia me informado, eu pedalaria 11 km de Paso Sico até a fronteira propriamente dita, aonde havia apenas uma placa. A partir da fronteira pedalaria mais 18 km de subida até o posto de polícia de fronteira chileno, aonde poderia encontrar água.

Eram portanto somente 29 km de subida até encontrar mais água, e por isso continuei com apenas os meus três litros de água. Poderia pegar mais com carros que eventualmente passassem por ali, caso necessitasse.

Já estava no fim da tarde e portanto não percorri uma grande distância antes de parar para acampar, à apenas 2 km da fronteira.

Armei a barraca e começei a cozinhar. Na maioria das vezes o meu cardápio para o jantar era composto de macarrão feito com um molho à base de sopa tipo Maggi com um pouco de carne de soja (feita no Brasil e exportada para o Chile e Argentina), e alguma verdura fresca que estivesse levando, geralmente cenouras, cebolas e alho.

Durante toda a viagem pelo Atacama eu vinha tendo problemas para cozinhar macarrão, devido à altitude. O macarrão cozinhava excessivamente por fora, permanecendo duro por dentro. Era difícil encontrar um tempo ou ponto de cozimento ideal, e sempre acabava comendo uma gororoba de aspecto e consistência meio duvidosos.

Por esse motivo, nesta noite resolvi abdicar do macarrão e cozinhar somente a sopa com os outros ingredientes.

Quando a sopa mal acabara de começar a ferver, o meu fogareiro começou a falhar. Desliguei tudo e limpei-o como sempre fizera antes. Reacendi o fogareiro, mas não houve nenhuma mudança na intensidade da chama. Havia enchido o fogareiro com querosene de boa qualidade e ele trabalhava bem em altitude, portanto a única hipótese plausível para o problema era que eu não o havia limpado direito.

Repeti a operação meticulosamente e testei o bicho. Continuava a mesma coisa. Parti para uma autopsia. Talvez alguma válvula ou anel de vedação tivesse estragado. Realmente encontrei um anel que parecia folgado demais e resolvi trocá-lo por outro novo. No processo de extração do anel, acabei por arrebentá-lo.

Coloquei o outro anel, que por sua vez era apertado demais e que conforme descobri mais tarde nem devia ser posto ali.

Conclusão, eu acabei matando o paciente de vez, o fogareiro não deu mais sinal de vida.

Àquela altura já havia anoitecido e eu não tinha como procurar lenha para fazer fogo. Me resignei a comer a sopa meio crua, mas depois de um tempo resolvi parar pois achei que aquela coisa crua podia fazer mal para o estômago. Peguei minha lanterna para procurar um pouco de pão, e me lembrei que as pilhas haviam acabado. Encontrei pão e queijo com a ajuda da luz da Lua que estava nascendo a tempo de dar uma forçinha.

Comi enquanto fazia um balanço da situação. Durante o decorrer daquele dia eu havia me separado do meu companheiro de viagem, ficado sem relógio e odômetro, e destruído o meu fogareiro. Além disto os meus lábios doíam cada vez mais. Antes de sair de San Pedro eu comprei apenas manteiga de cacau para evitar que os lábios ressecassem pois pensava em usá-la em conjunto com o protetor solar que eu levava. Essa foi uma idéia bastante infeliz, e não estava adiantando muita coisa contra o sol que àquela altitude queimava muito. Eu lembrava de quando havia visto Andreas pela primeira vez, e ficava curioso em me olhar no espelho e ver a minha aparência.

Havia tido mais um dia cheio de emoções e tratei de dormir logo antes que a minha situação piorasse ainda mais.

Na manhã seguinte, tratei de acordar cedo e procurar lenha para acender um fogo e cozinhar a minha sopinha, mas não é muito fácil encontrar lenha no deserto.

Encontrei apenas os restos de um pneu de caminhão, com o qual improvisei uma fogueira, acendendo-a com um pouco de querosene.

A idéia funcionou bem, mas a comida ficou com cheiro e gosto de borracha queimada. Consegui comer tudo, pensando que o importante era que eu havia solucionado um dos meus problemas.

Coloquei a panela suja dentro de um saco plástico e guardei-a na mochila pois não tinha água suficiente para lavá-la.

Estava planejando chegar até os “Carabineros de Chile”, onde poderia lavá-la e talvez cozinhar a minha fiel panelada de Musli.

A estrada a partir da fronteira continuava a subir e eu pedalava devagar, tendo inclusive que empurrar a bike nos trechos mais íngremes.

Finalmente apareceu um caminhão, vindo do Chile. Ele parou ao ver o meu sinal e me informou que aquela era a última subida antes do posto dos carabineros. Eu lhe perguntei se ele tinha algum creme para proteção dos lábios, e ele me deu um pouco de “creme de Lechuga”, ou creme à base de alface. Era bem refrescante e aliviou bastante o incomodo. Pronto, havia solucionado mais um problema.

Realmente, do topo da subida pude ver o posto dos carabineros, a mais ou menos 8 quilômetros de íngreme descida, que percorri em velocidade máxima.

Os carabineros foram muito gentis e me deixaram cozinhar no fogão deles.

Após o almoço me informei sobre a distância até Socaire, a próxima cidade. Havia dois carabineros e um oficial da saúde pública no posto, e obtive três respostas diferentes, 60, 80, e 130 km.

Incrível um policial não saber a distância até a cidade mais próxima! Fazendo a média entre as respostas obtidas, consultando o meu mapa e lembrando as histórias de Andreas, cheguei à conclusão de que 110 era uma distância mais realista. Eu nunca saberia a distância verdadeira pois nunca obtive a mesma resposta das diversas pessoas a quem fiz essa pergunta.

Resolvi carregar os mesmos três litros de água desprezando o meu garrafão de cinco litros, pois teria muita descida pela frente e esperava encontrar carros pelo caminho.

Após o posto dos carabineros pedalei 5 km de subida e cheguei ao ponto mais alto de toda a viagem, um “portezuelo” com, segundo os carabineros, 5200m de altitude.

Como que para comprovar a veracidade da informação, começou a nevar enquanto eu parei para bater uma foto. Realmente eu sou uma pessoa de sorte, ver neve cair no deserto mais seco do mundo não acontece todos os dias. A neve era bastante fina e não me causou problema algum.

Coloquei todas as roupas para frio pois à minha frente teria quase 100 km de descida! Mal podia esperar para me vingar de todas as subidas que me haviam feito sofrer, fazendo esforço com ar rarefeito.

E difícil descrever a sensação de alívio em ter tamanha facilidade para percorrer tantos quilômetros. Finalmente o vento zunia nas minhas orelhas, e os meus olhos lacrimejavam com a velocidade da descida.

A neve, em altitude mais baixa se transformava em uma leve garoa, que realçava o contraste entre as cores. O cume das montanhas era branco, e as encostas tinham uma cor entre o marrom e o vermelho, de vez em quando interrompidas por manchas douradas de capim.

Eu descia rápido, mas a cada cinco minutos parava para bater fotos.

Prossegui assim até o fim da tarde, encontrando somente um carro, cujo motorista não soube informar a distância até Socaire.

Eu pretendia pedalar pelo menos até a Laguna Miscanti naquele dia pois pensava que lá poderia encontrar turistas acampando e eles poderiam me dar um pouco de água., mas eu parei muito para bater fotos e por isso anoiteceu antes que eu chegasse à laguna.

Continuei pedalando mesmo depois de escuro pois não estava cansado e acreditava estar perto da tal laguna, mas depois de um certo tempo fui obrigado a parar pois não conseguia mais enxergar muita coisa.

Com uma dose extra de sorte, encontrei lenha de ótima qualidade e em grande quantidade exatamente no momento que resolvi parar para acampar. Mal podia acreditar, o meu último problema do dia havia se resolvido!

Que ironia ter tantos problemas na noite anterior e no dia seguinte tê-los todos superados. A Lua apareceu, quase cheia, para iluminar enquanto eu armava a minha barraca.

Aquela era provavelmente a minha última noite acampando no deserto e fiz uma bela fogueira com a qual me aqueci e cozinhei. Desta vez fiz um pouco de purê de batatas desidratado, facilmente encontrado no Chile, acompanhado de uma porção de carne de soja, tudo temperado com curry.

Na manhã seguinte reacendi a fogueira, cozinhei o meu musli, e me preparei para partir, inclusive carregando comigo o que havia sobrado da lenha, para o caso de ter de acampar no deserto de novo.

Esperava encontrar logo a Laguna Miscanti, mas pedalei por um bom tempo sem nenhum sinal dela. Eu tinha apenas 700ml de água, mas estava certo de que encontraria algum carro que me ajudaria. Alem disto o caminho à minha frente era todo em descida e poderia atingir Socaire facilmente com apenas aquilo de água.

Continuei a pedalar, a estrada continuava sendo descida e eu estava andando muito rápido, tão rápido que comecei a me perguntar se a bike aguentaria tanta violência, pois às vezes havia trechos de estrada mais esburacados e eu acabava passando por eles de qualquer jeito, sem reduzir muito a velocidade.

Logo após ter pensado isso, enquanto passava por um destes trechos esburacados, ouvi um estalo metálico bem alto, seguido pelo barulho do pneu traseiro raspando pesadamente contra a bike, freiando-a rapidamente.

Eu tive sorte, pois não foi a bike que havia quebrado, era apenas o parafuso de fixação do bagageiro traseiro que havia arrebentado, de modo que o mesmo inclinou, raspando no pneu e freiando a bike.

Eu tinha comigo algo como dez parafusos de reserva, e em cinco minutos estava na estrada de novo.

A minha sorte estava em ação de novo, pensei, pois a minha frente vi três nuvenzinhas de poeira se aproximando, vindo de Socaire.

Parei a bike, mais ou menos no meio da pista, e comecei a gesticular para que o carro parasse, como sempre fizera antes. O carro nem diminuiu a velocidade.

Desgraçado, pensei. Me preparei para parar o segundo carro, desta vez pegando uma das garrafas de água e fazendo gestos óbvios indicando que eu necessitava de água.

O carro diminuiu de velocidade, mas também não parou.

Desta vez eu xinguei o motorista de algo bem mais pesado que “desgraçado”, e fiz vários gestos obscenos que ele com certeza viu através do espelho retrovisor.

Não conseguia entender porque eles não paravam. Era óbvio que eles entenderam que eu necessitava de água, e eu duvido que eles tenham pensado que eu fosse um ladrão ou algo parecido.

Ainda havia o terceiro carro,o qual me viu dar um verdadeiro show de mímica, mas ainda assim não reduziu a velocidade. Vendo que ele não diminuía, iniciei a segunda parte do show, desta vez composto por gestos menos refinados, destes que todos temos a oportunidade de exercitar de vez em quando no trânsito, mas executados com uma convicção e realismo impressionantes, dignos de um Oscar.

O motorista diminuiu um pouco a velocidade fazendo uma cara de mau, e deu uma freiada brusca depois de haver passado por mim, como se tivesse parado para brigar. Eu não tive nenhuma duvida e corri em direção ao carro, mas o motorista tornou a arrancar, enquanto eu me limitei a fazer a única coisa que podia, iniciar o terceiro ato do meu espetáculo pornográfico, desta vez não usando apenas as mãos, mas sim o corpo inteiro.

Continuei sem entender o porque deste comportamento dos motoristas. A única coisa que deduzi é que eles eram paraguaios pois estavam dirigindo caminhonetes iguais, e no modelo que era mais requisitado por lá.

Continuei a pedalar, e depois de mais alguns quilômetros, encontrei uma placa que indicava, “Socaire- 40 KM”. Bebi um pouco de água para comemorar, afinal era tudo descida, e em duas horas no máximo estaria lá.

Socaire é uma vila empoeirada e minúscula. A estrada passa bem no meio dela. Parei em uma loja e comprei uma lata de salmão e um pouco de maionese. Fiz um enorme almoço na praça da cidade, que parecia abandonada pois não se via ninguém na rua.

Fiquei algumas horas descansando na sombra, e depois prossegui viagem em direção ao Salar de Atacama. Desci por 30 km até a planície aonde se localiza o Salar e depois segui por outra estrada que levava até a Laguna Chaxa, no meio do Salar.

O Salar de Atacama foi uma decepção para mim pois não era tão bonito quanto eu esperava. Depois fiquei sabendo que o motivo por ele não estar tão branco como de costume era a falta de chuvas naquele ano, o que o deixava coberto de poeira marrom. De fato, o Salar de Cauchari, na Argentina, havia me impressionado muito mais.

Já estava anoitecendo e só fui chegar a Laguna Chaxa depois de escuro, tendo percorrido mais 30 km através do Salar.

A Laguna Chaxa faz parte de um Parque Nacional e é muito importante para o ecossistema local pois serve como local de alimentação e nidificação para os flamingos da área.

Próximo à laguna encontrei o guarda parque Armin, que estava em sua casa com três turistas americanos. Eles ficaram bastante surpresos com a minha chegada mas logo estávamos todos conversando animadamente.

Armin me convidou para comer com eles, e fizemos uma macarronada em conjunto. Foi muito bom encontrá-los, e ficamos conversando até tarde da noite.

Na manhã seguinte acordamos bem cedo para observar os flamingos que vem se alimentar na laguna . Incrível que possa haver vida em meio a um ambiente tão hostil. Os flamingos se alimentam de pequenos moluscos encontrados nas águas da laguna. Eles se movem com graça e harmonia, vivendo com tranquilidade no deserto mais árido do mundo.

Ali, observando os flamingos, percebi de repente que a minha viagem chegara ao final. Eu não estava mais sozinho ou isolado no deserto. Estava de novo com pessoas, e cada vez mais próximo à civilização.

Ainda teria que percorrer os últimos 50 km de estrada até San Pedro, mas levaria dois dias para fazê-lo, pois já havíamos combinado que faríamos uma festinha na casa de Armin naquela noite.

É difícil determinar quando uma viagem começa ou termina, e essa definição não é importante e talvez nem seja mesmo possível. Afinal, a vida toda é uma viagem, a única coisa que muda são as pessoas com quem viajamos e os lugares onde estamos.

Em breve estaria no Brasil, viajando de outras formas, e a Patagônia e o Atacama estariam presentes somente na minha memória ou projetados na parede em forma de slides.

Mas a idéia mais importante já estava comigo e eu nunca iria esquecê-la. Devemos lutar para realizar os nossos sonhos. Não importa em que direção eles nos levem, eles são o motivo da nossa existência, e a vida não existe sem eles.

Não há nada de original nesta afirmação, mas ela é absolutamente verdadeira, e se conseguirmos viver de acordo com ela estaremos no caminho certo e tranquilos, cientes de termos conseguido fazer as nossas escolhas.

Passei um dia agradável com Armin e os americanos, e fizemos uma bela festa à noite, regada com muita cerveja e caipirinha.

No dia seguinte segui com os americanos até San Pedro. Eles foram de carona e eu fui pedalando. Ao todo pedalei por volta de 400km no Atacama, e percorri algo como 100km de carona.

Passamos mais um dia juntos em San Pedro, de onde cada um seguiu seu rumo. Eles em direção a Bolívia, e eu de volta ao Brasil.

Aquela viagem havia acabado, e uma outra, que eu ainda não sabia aonde ia me levar, estava começando.

A nova viagem é este livro, e espero que ele possa levar alguém a algum lugar. Talvez sirva de inspiração ou fonte de informação, para que você também pedale seus sonhos.