segunda-feira, 15 de outubro de 2007

8 - De Torres del Paine a El Calafate



Levantei às três da madrugada e às cinco estava saindo, depois de me despedir dos meus amigos. Logo saí do parque, atravessando um portão que dava acesso à uma fazenda, pela qual a estrada continuava. Fazia muito frio pois ainda estava escuro, e não havia ninguém à vista na saída do parque ou na fazenda.

A estrada logo virou na direção oeste, a direção da Argentina, e começou a subir ligeiramente. Era natural ter subida pois afinal de contas a fronteira entre o Chile e a Argentina é formada pelos Andes, e eu ia ter que atravessá-los. Entretanto sabia através do meu mapa que eu não atingiria uma altitude superior a 800 metros. Apesar disto a pedalada foi bastante cansativa pois havia muitas subidas e descidas íngremes.

Depois de duas horas e meia cheguei a Estância la Porfiada, que quer dizer “A Teimosa”. Havia feito 21 quilômetros de estrada de terra boa da Laguna Azul até ali. Havia vários cachorros e eles latiam desesperados anunciando a minha chegada. Felizmente estavam amarrados.

Resolvi esperar até que alguém aparecesse para me mostrar o caminho a partir dali. Eu podia ver uma trilha que continuava em frente, mas não tinha certeza que aquele era o caminho a seguir. Fiz um lanchinho e deitei na grama, estava um dia lindo e caí num sono gostoso aquecido pelo Sol.

Igor chegou logo depois que eu acordei, e me convidou para entrar e tomar um café.

A casa era bastante simples, de madeira, e ele morava ali sozinho. Seu trabalho era andar a cavalo todas as manhãs para se assegurar que as vacas estivessem bem . A estância era enorme e havia muitas vacas. Apesar disto ele tinha muito tempo livre para fazer o que quisesse, e apenas os cachorros , cavalos, vacas e o rádio para lhe fazer companhia.

O rádio era o elemento mais importante para aliviar a solidão e ficava ligado o tempo todo .Havia um programa especialmente feito para as estâncias, aonde se transmitiam mensagens de amigos, familiares, etc.

Igor me convidou para almoçar, e enquanto esquentava a comida me contou que muitos ciclistas passavam por ali. Ele já havia recebido inclusive pessoas que estavam viajando a pé.

Nunca vou esquecer este almoço, carne de carneiro e batatas assadas no forno. A minha primeira refeição de verdade e com gosto de comida caseira que comi em quase um mês de viagem. Comi muito bem, Igor não parava de me dar mais comida. Com certeza havia aprendido que o ciclista é um tipo com grande apetite.

Para ajudar a fazer a digestão, me ofereceu um chá com pisco, que desceu muito bem,

Retomei a viagem logo em seguida, através de um “sendero”, ou trilha, que Igor me indicou. O caminho estava em boas condições, se tratava de uma antiga estrada desativada por onde passavam apenas vacas e cavalos, e de vez em quando, bicicletas.

Logo após a casa de Igor encontrei o tal rio que devia atravessar carregando a bike. O nível da água estava baixo e por isso foi fácil atravessá-lo. Nem precisei levantar a bike, simplesmente a empurrei pela água, que mal chegava ao meio da roda.

Depois de mais 23 quilômetros, cheguei a casa de Orlando, que é primo de Igor e toma conta do extremo oeste da estância. Ele também vive sozinho, com oito cachorros, dois cavalos e tem uma rotina bastante semelhante a de Igor, basicamente andar a cavalo cuidando das vacas.

A casa dele tinha as paredes feitas de telhas tipo “Eternit”, como muitas outras casas que eu já havia visto antes na Patagônia. A diferença era que na casa não havia piso, apenas chão de terra. A casa havia acabado de ser construída pelo próprio Orlando, e o chão no interior ainda estava coberto de grama, o que tornava a cabana mais original ainda.

Dentro não havia nenhuma parede dividindo o ambiente. Num canto havia a cama de Orlando, e na frente dela havia um latão de óleo de 80 litros que foi transformado em um fogão a lenha, que também servia como aquecedor e churrasqueira. Em baixo da janela estava a mesa e ao lado dela estavam guardados os equipamentos para andar a cavalo, como selas, cabrestos, freios e etc.

Orlando foi um ótimo anfitrião, eu mal havia chegado e já estávamos comendo um delicioso churrasco à base de costelas assadas em frente ao fogão-aquecedor-churrasqueira. Depois de comer ficamos conversando, cada um contando as suas histórias. Orlando havia tido uma vida interessante, com vários empregos diferentes, e estava ali porque gostava da tranquilidade do campo. Era muito inteligente e com um ótimo senso de humor, o que contrastava com a sua aparência de gaúcho sério.

Coloquei o meu colchão e saco de dormir perto do fogão e adormeci, escutando ao rádio, que também aqui era a única ligação com o mundo “civilizado”.

Orlando tem um pouco mais de trabalho que seu primo pois a estância faz fronteira com a Argentina, e não há cercas que impeçam que as vacas passem ao outro lado. Por isso ele tem que acompanhar as vacas mais de perto. Apesar de estar “sozinho”, Orlando contava com a ajuda de seus oito cachorros quando tinha que tocar o gado, e eles eram extremamente eficientes.

A fronteira Argentina estava a apenas um quilômetro de distância, e podíamos ver o marco fronteiriço da porta da cabana. Fomos a pé até o outro lado da fronteira, aonde mora um outro gaúcho que cuida da estância que existe do lado argentino.

O “viejo Pineda” tem 84 anos e leva uma rotina dura como todos os gaúchos, praticamente todos os dias monta em seu cavalo e percorre os campos controlando as vacas. Era inacreditável que ele conseguisse fazer isso realmente pois ele nem conseguia ficar em pé direito e também andava com bastante dificuldade. Mas Pineda era uma espécie de figura lendária por aqueles lados, havia praticamente nascido em cima de um cavalo e iria cavalgar até que realmente não pudesse mais. Ficamos tomando mate, enquanto ouvíamos as intermináveis histórias de Pineda.

Nas histórias sempre havia o mesmo vilão, “El Leon”, ou o puma, que era o inimigo preferido de Pineda. Depois vim a saber que “el viejo Pineda” era famoso como o maior matador de pumas da área e como grande mentiroso também .

Apesar das eventuais mentiras, a essência da história era verdadeira. Gaúchos e pumas nunca se deram bem por aqueles lados, e na maioria das vezes os gaúchos matam os pumas se existe uma oportunidade, pois segundo eles, os pumas matam muitos bezerros e ovelhas, causando grandes prejuízos. Isso abalou bastante a imagem que eu fazia dos gaúchos como um povo que vive em meio à natureza harmoniosamente.

À tarde voltamos a cabana de Orlando que havia insistido para que eu experimentasse dar uma volta à cavalo. Foi um fracasso, eu nunca havia conseguido cavalgar sem problemas antes e essa vez não foi exceção. No início tudo correu bem e eu conseguia controlar o animal, mas o cavalo é um ser muito esperto e percebe quando o cavaleiro não esta à vontade ou está com medo. Assim que ele percebeu que eu não era exatamente um cavaleiro experiente, começou a bufar e sacudir a cabeça, o que me deixou ainda mais nervoso. Em seguida ele começou a aumentar o passo e a galopar, cada vez mais rápido. Eu tentava acalmá-lo e fazê-lo parar, mas a única coisa que consegui era fazê-lo cavalgar em círculos, o que pelo menos servia para abaixar a velocidade.

Acabei conseguindo parar o cavalo e imediatamente o devolvi a Orlando. Estava um pouco desapontado com a minha incompetência como cavaleiro mas não me preocupei muito pois não tinha muitas ilusões em relação a me tornar um.

No dia seguinte Orlando saiu cedo com o cavalo e me deixou sozinho em sua casa enquanto eu me preparava para partir.

Teria que percorrer algo como 20 quilômetros até encontrar a estrada normal no lado argentino. A trilha seria bastante estreita e acidentada e por isso eu coloquei as coisas mais pesadas na mochila, que eu levaria nas costas, e deixei a bike o mais leve possível para poder empurrá-la, atravessar rios, carregá-la, etc.

Por sorte eu teria praticamente apenas descida pela frente, o que facilitava bastante as coisas. A trilha percorria uma área de campo aberto e a orientação era bastante simples, caso eu perdesse a trilha, bastava seguir o curso de um riachinho que me levaria até a estrada.

Apesar de a trilha ser fácil de seguir, não podia pedalar o tempo todo pois o terreno era muito esburacado devido às pegadas feitas pelas vacas que costumavam passear por ali. O dia estava muito bonito, e eu me sentia muito bem. A sensação de estar sozinho trilhando um caminho não convencional aumentava a emoção de tudo.

Depois de um certo tempo, a trilha entrava em uma floresta e eu passei a viajar ainda mais devagar pois tinha que desmontar da bike o tempo todo para passar sobre troncos de árvores caídas.

A floresta não me causou problemas. Quando voltei a entrar em campo aberto, a trilha se tornou mais estreita ainda e bem indefinida, desaparecendo por completo às vezes. Isso não causava problemas de orientação pois àquela altura eu já podia ver a estrada na planície lá embaixo, a mais ou menos 5 quilômetros de distância.

Era impraticável pedalar por causa do terreno acidentado e largura da trilha. Eu tinha que empurrar praticamente o tempo todo, escolhendo se era eu ou a bike a ficar fora da trilha, passando Pelo capim. Quando era eu a caminhar fora da trilha, sofria com as pernas sendo arranhadas, e quando colocava a bike no capim tinha que fazer muita força para empurrá-la.

Ainda bem que era descida, se estivesse tentando atravessar da Argentina para o Chile teria problemas bem maiores. Depois de um certo tempo consegui ver uma estradinha à minha direita que levava diretamente à estrada principal. Ela estava um pouco longe da trilha, mas a descida até ela era forte e por isso optei em tomar um atalho radical pelo capim para ganhar tempo.

Foi fácil pois na descida todo santo ajuda, mas quando fui voltar a pedalar, percebi que o pneu dianteiro havia esvaziado um pouco. Eu não queria parar para trocá-lo pois queria chegar logo à estrada principal, aonde havia uma fazenda, para só ali descansar. Depois de encher o pneu montei na bike e continuei a pedalar. A descida era forte e logo cobri os poucos quilômetros até a estrada.

A Estância Lago Roca tinha um enorme portão, com uma roda de carroça em cada lado. Havia uma placa com o nome da estância pendurada, balançando com o vento. A vegetação era meio desértica, apenas com arbustos rasteiros. A estância parecia abandonada, protegida do vento atrás de uns ciprestes enormes. Para completar o clima de velho oeste só faltava passar uns arbustos ressecados rolando à minha frente.

Atravessei o portão empurrando a bike pois o pneu já estava murcho de novo, e me dirigi à entrada da casa. Não havia ninguém à vista, e fui bater na janela, já que não havia campainha.

Depois de esperar um tempo aparentemente interminável, apareceu um senhor idoso, com cara de personagem de um filme de suspense, destes em que a família toda foi assassinada e enterrada no jardim.

Contei para ele a minha história, apontando para a bicicleta que estava encostada na cerca, para torná-la mais plausível. Ele demorou um pouco para entender que eu estava realmente fazendo aquilo que estava dizendo. Ele me convidou para entrar e tomamos um delicioso chá enquanto conversávamos. Meu anfitrião deu risada ao saber que eu estivera com o “viejo Pineda”, e me disse para dar um bom desconto nas histórias que seguramente o velho havia me contado.

Depois do chá fui remendar o pneu furado. Tive problemas para encontrar os furos pois eles haviam sido provocados por espinhos bem pequenos e eram difíceis de encontrar. Ao todo encontrei quatro furos no pneu da frente, e por isso resolvi deixar para consertar depois, substituindo a câmara furada por uma de reserva que levava comigo. Fiquei surpreso em como o pneu havia demorado para esvaziar mesmo com quatro furos. Os furos eram realmente muito pequenos.

Me despedi do fazendeiro e caí na estrada de novo, faltavam apenas 40 quilômetros de estrada plana para eu chegar em El Calafate, a minha primeira cidade na Argentina. Finalmente estava chegando em uma cidade, depois de 17 dias desde que saíra de Puerto Natales. El Calafate é uma pequena cidade nas margens do Lago Argentino, e sua economia está praticamente toda relacionada com o movimento de turistas que visita o Parque Nacional Los Glaciares, ao norte da cidade.

Logo que saí da Estância Lago Roca, percebi que o meu pneu traseiro estava um pouco vazio, e parei para enchê-lo. Com certeza ele devia ter algum “mini furo” também e talvez fosse possível pedalar até a cidade sem precisar trocar a câmara. Estava enganado, pude pedalar uns 15 minutos e o pneu já estava murcho de novo. Que situação ridícula, eu já não tinha uma câmara de reserva sem furos e teria que remendar pelo menos quatro furos, aliás mini furos, que são difíceis de encontrar. Para aumentar a minha felicidade estava começando a chover, e não havia nenhum lugar protegido da chuva aonde eu pudesse remendar a câmara.

Na verdade eu não estava com a mínima vontade de consertar nada. Eu estava molhado, cansado, com fome, e a apenas trinta quilômetros da cidade, aonde poderia tomar um delicioso banho quente.

A solução óbvia para o problema era pegar uma carona, e logo apareceu o primeiro carro, que foi inútil para mim pois não tinha espaço para a bike. O segundo carro era um caminhão, que parou, mas também não tinha espaço pois estava super carregado com vacas. Que saco, a chuva continuava a cair e eu já estava completamente ensopado. Finalmente o terceiro carro apareceu, uma linda caminhonete ano setenta e pouco, cheia de espaço na caçamba e com um motorista legal que parou ao ver me fazendo gestos alucinados na beira da estrada.

Coloquei a bike na caçamba e entrei na cabine, que estava deliciosamente seca e quentinha. O motorista e seus amigos estavam trabalhando na restauração de um barco que levava turistas para passear no Lago Argentino, e faziam aquele trajeto todos os dias. Era engraçado andar de carro de novo, as subidas e descidas passavam por nós como se nada estivesse acontecendo, nem mesmo barulho de vento havia.

9 - El Calafate e Perito Moreno



El Calafate é bem pequena, mas foi interessante estar de novo em uma cidade, e ver tantos carros, casas e pessoas juntas. Segui diretamente até o “Hotel Los Dos Pinos”, ou “Os Dois Pinheiros”. Eu já havia ligado para eles quando ainda estava no Chile para pedir para usar o endereço deles para receber uma encomenda do Brasil, era o meu tripé para a máquina fotográfica.

Chegando lá descobri que o tripé não havia chegado ainda, estava retido em Buenos Aires e eu teria que pagar 50 dólares de imposto de importação para poder recebê-lo. Fiquei revoltado por ter que pagar para receber uma coisa que era minha, e que depois voltaria de novo ao Brasil. Além de tudo o tripé valia menos que 50 dólares. Resolvi pagar mesmo assim pois estava deixando de bater muitas fotos por não ter um tripé.

Nada podia estragar a minha alegria por estar de volta à civilização e aos chuveiros com água quente. Fiquei embaixo do chuveiro até estar com os dedos enrugados como ameixas, e aí fui até o meu quarto, que até então só tinha eu como ocupante.

Esvaziei todas as mochilas, jogando tudo desordenadamente por todas as camas. Era bom poder ser desorganizado para variar um pouco, pois quando estava “no mato”, tinha que ser bem organizado para não ter que perder tempo procurando coisas ou pensando em como empacotá-las. Quase todas as coisas tinham o seu lugar certo nas mochilas e os penosos processos de empacotar e desempacotar aconteciam quase que automaticamente.

O quarto não ficou vazio por muito tempo, logo chegaram dois argentinos, e depois mais três, que estavam viajando de carona. Viajar “a dedo” é muito popular entre os argentinos, era impressionante o número de mochileiros que eu via pelas estradas ou caminhando pelas cidades, parecia até que estávamos de volta aos anos sessenta.

Logo apareceram mais três pessoas no nosso quarto. Um brasileiro, Fred, de Campinas, que estava viajando de carro e que estava dando carona para duas garotas argentinas.

Foi uma noite divertida e longa, todos estavam com vontade de conversar. O vinho rolou solto a noite inteira animando ainda mais a festa. No fim da noite ainda fizemos uma super macarronada aonde entraram todos os ingredientes que encontramos. Fizemos até umas pizzas com fatias de pão, queijo e orégano.

Após o jantar fomos todos dormir. Na manhã seguinte todos iriam embora, exceto eu, que ainda ia ficar mais um dia na cidade.

Foi gostoso passar um dia como turista, sem pedalar, caminhando à toa pela cidade, comendo biscoitos de chocolate, alfajores, e vendo as lojas de artesanato.

No dia seguinte deixei a bike no hotel, e com a mochila nas costas me uni a dois mochileiros argentinos e fomos até a saída da cidade, tentar uma carona até o Parque Nacional Los Glaciares. Depois de meia hora parou uma caminhonete de um pessoal que estava viajando e pescando trutas pelos rios e lagos da região.

Estava viajando motorizado de novo, e cobrimos os 80km até o parque num piscar de olhos. A entrada no parque foi grátis, pois “mochileiros” não precisam pagar.

O Parque Nacional Los Glaciares tem aproximadamente 200km de extensão de norte a sul e tem como limite a oeste o Campo de Gelo Sul, e a leste as planícies da Patagônia e seus lagos enormes. Durante os 80km de estrada de Calafate até o parque a estrada seguiu praticamente o tempo todo pelas margens do Lago Argentino. A atração principal na parte sul do parque é o Glaciar Perito Moreno, exatamente para onde estávamos nos dirigindo.

Chegando ao parque dei de cara com o Cris e a Jeanine! Para variar nos reencontrávamos de novo, parecia que era impossível nos separarmos. Tomamos uma cerveja enquanto colocávamos as fofocas em dia. Eles estavam hospedados em uma estância na saída do Parque, aonde morava Lautaro, um fazendeiro que já havia acolhido ao irmão de Cris quando ele esteve viajando pela Patagônia. Eles haviam avisado a Lautaro que eu provavelmente apareceria também , de forma que eu poderia ter mais uma amostra de genuína hospitalidade gaúcha.

Nos separamos de novo pois os suíços haviam passado a manhã toda explorando os arredores do Glaciar e iam pegar uma carona para voltar a estância. Fui sozinho observar o Glaciar.

O Glaciar Perito Moreno, provavelmente o glaciar mais famoso do mundo, é realmente uma visão extraordinária. Uma quantidade imensa de gelo descendo do Campo de Gelo Sul até as margens do Lago Argentino. O próprio lago, enorme, tem a maior parte da sua água proveniente do derretimento do gelo do Glaciar Moreno e de outros três glaciares que também desembocam nele. Um paredão de gelo gigante, de quatro quilômetros de largura, e com até 80 metros de altura, avança sobre a superfície da água, quase que dividindo o lago em dois. Essa divisão costumava realmente acontecer, até alguns anos atrás. O lago tinha uma área enorme separada da parte principal. O gelo literalmente isolava as duas partes do lago, e a parte menor tinha o seu nível de água aumentado em até 15 metros de altura! Uma vez a cada quatro anos aproximadamente, a pressão se tornava demasiada, e o gelo acabava se rompendo, permitindo que o excesso de água escorresse de uma parte do lago para a outra num espetáculo de incrível força e beleza.

Infelizmente, já fazem muitos anos que não ocorre mais essa divisão do lago . Uns dizem que o Glaciar está retrocedendo naturalmente, outros dizem que o Glaciar está diminuindo devido ao aquecimento global. O fato é que o lago não se divide mais.

Mesmo assim, ainda pode se observar outros tipos de espetáculos naturais igualmente surpreendentes. Pedaços do glaciar constantemente se rompem, com um barulho ensurdecedor. Os enormes blocos de gelo despencam, desaparecendo momentaneamente na água, para depois ressurgir, como que querendo saltar de volta ao seu lugar original. Esse balanço do gelo levanta uma enorme onda que se espalha em todas as direções podendo facilmente virar uma embarcação que esteja próxima demais.

Fiquei no miradouro, a uma distância de apenas duzentos metros do Glaciar por algumas horas, e pude ver o gelo despencando várias vezes.

No fim da tarde fui até o estacionamento pegar uma carona para encontrar os meus amigos. Existe um movimento muito grande de carros entre o parque e El Calafate e não foi difícil arrumar um que me levasse até a saída do parque.

Localizei a estância facilmente e logo estava com os suíços e Lautaro, que era realmente muito simpático. Ficamos conversando e tomando chimarrão. A erva usada para chimarrão no Chile e Argentina não é tão amarga como a usada no Brasil, aonde eu nunca gostei da bebida. Na Patagônia estava quase me transformando em um fã do “mate”. Se ficasse por lá muito tempo iria acabar como os suíços, carregando a minha própria cuia e erva.

Mais tarde vim a saber que o mate é uma bebida extremamente saudável, com um monte de vitaminas, e que serviria perfeitamente como complemento vitamínico na dieta de um ciclista ou de qualquer pessoa em qualquer lugar. A maioria dos gaúchos não come nada pela manhã antes de sair cavalgando, eles apenas tomam várias cuias de mate, e não apresentam nenhum sinal de debilidade física, muito pelo contrário.

Depois de colocar a prosa em dia começamos a nos preparar para o jantar. O primeiro passo foi picar lenha para podermos cozinhar. Nada de fogões à gaz nas fazendas da Patagônia. A lenha é abundante, e não é necessário derrubar nenhuma árvore para obtê-la, o próprio vento se encarrega disto. Além do mais, ter um fogão à lenha aquece muito a casa, o que torna a lenha a opção mais viável e inteligente para combustível.

Depois disto, Lautaro selecionou a carne que iríamos comer. Ele não tinha geladeira, e mantinha a carne ao ar livre numa espécie de gaiola, só que com paredes de tela bem fina, para que mosquitos não pudessem entrar. O infalível vento se encarregava de manter a carne resfriada. Fiquei feliz em saber que o vento também tinha outras utilidades por ali além da de atrapalhar os ciclistas.

O jantar ficou uma delícia, um guisado de carne de carneiro, com batatas e molho de tomates, acompanhado de muito vinho. Comemos como verdadeiros ciclistas esfomeados recuperando os quilos perdidos.

Após o jantar ficamos um bom tempo ouvindo as histórias de Lautaro, que já havia inclusive participado de caminhadas através do Campo de Gelo Sul.

Ele também costumava trabalhar guiando turistas em cavalgadas de vários dias levando cavalos extras carregados com os equipamentos de camping e mantimentos. Me senti um inútil lembrando a minha incompetência como cavaleiro. Realmente o cavalo era o meio de transporte ideal na Patagônia. Com ele é possível andar em praticamente qualquer lugar, passando por áreas literalmente intocados pela mão do homem , usufruindo de uma liberdade enorme. Além disto, viajando desta forma a pessoa fatalmente desenvolve uma relação íntima com a cultura gaúcha, penetrando em um universo exótico, aonde há muito para se aprender em relação à convívio com a natureza .

Lautaro me falou que raramente cavalgava por estradas, os caminhos eram todos através do campo ou florestas de Lenga. É necessário se informar com os fazendeiros para saber sobre os melhores caminhos e os lugares certos para atravessar rios e outros obstáculos. Ele me disse também que alguns viajantes compram cavalos para realizar viagens longas, e ao final da viagem os vendem de novo.

Eu estava impressionado, não imaginava que ainda fosse possível viajar assim, sem estradas e cavalgando livremente por terras de outras pessoas. Deveria ser uma experiência incrível, talvez ainda volte a procurar Lautaro, caso algum dia consiga aprender a andar à cavalo.

No dia seguinte nos despedimos de Lautaro, os suíços voltaram para Calafate pedalando e eu peguei mais uma carona, estava curtindo dar um descanso para as pernas, e pegar carona é sempre uma experiência interessante, aonde tudo pode acontecer. Eu mal cheguei na estrada e apareceu um carro que parou. Eram turistas australianos, muito simpáticos, que ficaram preocupados ao me ver tentar pegar carona naquele “fim de mundo”.

Engraçado como as coisas podem ser tão relativas e as aparências podem enganar tanto. Eu não estava sofrendo nenhum pouco, as coisas estavam acontecendo com grande facilidade e naturalidade, era muito fácil pegar carona, e estava perfeitamente habituado a pedalar e carregar tudo que eu necessitava na bike ou na mochila. Comia também muito bem e afinal de contas não ventava tanto assim na Patagônia. O vento estava sempre ali, mas raramente me atrapalhava seriamente. A chuva também , até então não tinha visto nenhuma chuva de verdade, iguais as que temos no Brasil. A chuva era mais garoa do que chuva, e não ocorria com tanta frequência como as pessoas e os livros diziam.

Isso confirmava a hipótese que eu tinha levantado quando ainda estava planejando a viagem. As pessoas enxergam problemas demais quando consideram a hipótese de manter um contato mais estreito com a natureza . Com um certo preparo, equipamento e paciência, é possível superar os problemas que surgem pelo caminho.

Tudo é uma questão de hábito. Eu já estava habituado a viver daquela maneira, e não achava desconfortável. Quando chovia ou ventava mais forte eu reclamava para mim mesmo, mas era natural, havia um preço a pagar por aquela liberdade, e de vez em quando eu pagava umas “prestações” de desconforto, às vezes eu pagava outras de solidão. Mas eu estava totalmente feliz, fazendo a coisa certa para mim, saboreando várias vezes ao dia aquele gostinho de realização pessoal. O legal é que todos os dias acontecia algo diferente, e os lugares por onde passava pareciam ser sempre mais bonitos que os anteriores.

Bom, de volta a Calafate tomei outro banho delicioso e aproveitei para lavar roupas pois na manhã seguinte iria partir de novo com a bike.

Havia combinado de me encontrar com os suíços às dez da manhã do dia seguinte para partirmos juntos mas eu não consegui fazer todas as compras a tempo e eles acabaram indo sem mim. Acabei saindo às 11:30. Estava com a bike carregada ao máximo pois estávamos indo para Chalten, que é uma cidade bem pequena e tinha fama de ser super cara por ser muito turística. Na verdade Calafate também é bem cara e os preços acabaram sendo praticamente os mesmos.

O vento estava a meu favor e fiz uma media de 25 km/hora por 30 km. Depois o asfalto acabou e eu entrei na famosa “Ruta 40”. A Ruta 40 atravessa toda a Patagônia Argentina de norte a sul e entre os ciclistas é famosa por causa dos terríveis ventos, a falta de água e também falta de locais protegidos para acampar.

O vento estava forte, agora soprando de lado e me atrapalhando um pouco. Mas depois de mais 50 km cheguei a uma espécie de posto rodoviário aonde reencontrei o Cris e a Jeanine. Era um lugar bem estranho, havia uma casa enorme que era ocupada por apenas uma pessoa, que passava o dia todo sentado junto ao fogão, ouvindo rádio, olhando pela janela, e contando os raros carros que passavam. Tomamos um pouco de mate com ele e fomos dormir no galpão aonde havíamos guardado as bikes.

Na manhã seguinte estava bem frio, a Patagônia Argentina é bem mais seca que a Chilena e acho que isso contribui para aumentar a sensação de frio. Saímos cedo para os meus padrões, às 9:30 da manhã, e depois de duas horas paramos no Hotel La Leona para descansar, comer um pedaço de torta e tomar um chocolate quente. Acabamos comendo vários pedaços de torta, que era realmente deliciosa.

O Hotel La Leona é realmente um lugar estranho. Um Hotel na beira da Ruta 40, aonde passam pouquíssimos carros. Quase ninguém se hospeda lá, e o negócio vive de vender tortas, sanduíches e etc. aos turistas que passam por ali. O lugar é administrado por uma senhora e suas duas filhas, o que torna o lugar mais original ainda. A paisagem é bem desértica e venta muito.

Resolvemos passar o resto do dia por lá mesmo. O Cris aproveitou para fazer pão, Jeanine ficou escrevendo e eu fiquei ajudando uma das garotas a plantar umas árvores que formariam uma barreira para o vento quando crescessem. Para mim foi muito legal fazer algo diferente da nossa rotina de viajante, algo importante e concreto, como plantar aquelas árvores. Fico curioso em saber se elas realmente sobreviveram à falta de água e ao vento.

No fim da tarde fui até o rio que passava perto da fazenda, que era tido como bom para pescar, e resolvi tentar a sorte na pescaria junto com o Cris. Depois de experimentar em diferentes lugares acabei fisgando uma truta. Para minha surpresa a truta não lutou ao ser arrastada para fora, parecia até que ela queria ser pescada. Finalmente tinha valido a pena trazer o equipamento de pesca.

A truta era de tamanho médio, com um quilo e meio, e junto com outras duas que o pessoal do hotel tinha, fizemos um belo jantar para todos.

No dia seguinte o nosso objetivo era chegar a Chalten, uma pequena vila dentro da parte norte do Parque Nacional Los Glaciares. A distância até lá era de aproximadamente 90 quilômetros na direção oeste, exatamente a direção da qual vinham os ventos.

10 - Los Glaciares - Fitz Roy



A estrada até Chalten é uma estrada secundária e não recebe muita manutenção. Resolvemos fazer esse trecho de carona pois o vento estava muito forte.

O Cris e a Jeanine partiram cedo pela manhã com o ônibus que leva turistas até o Parque, deixando as bikes no Hotel para virem buscá-las depois. Eu preferi esperar mais tempo pois queria pegar uma carona com uma caminhonete para poder levar a bike comigo. Combinamos de nos encontrar no parque mas não combinamos nenhum lugar especifico, já que sempre nos encontrávamos automaticamente. Nos despedimos com um casual aceno de mão já que eu estava longe plantando mais árvores. Mal sabíamos que não iríamos mais nos encontrar.

Duas horas depois que os suíços foram embora, apareceu uma caminhonete que aceitou levar a mim e a bike. Eles não iam até Chalten e sim até a ultima Estância antes da vila, que segundo o motorista ficava a apenas dois quilômetros de distância da mesma.

A viagem correu sem problemas, mas as condições da estrada eram bastante ruins e teria sido penoso pedalar por ali. Logo chegamos na última estância onde o motorista me deixou, mas Chalten ainda estava bem distante, com certeza a mais de dois quilômetros.

Demorei mais de duas horas para chegar. Foram dezesseis quilômetros, fazendo uma média de apenas 6,5 km/hora, pois o vento estava soprando com muita força.

Chalten funciona como base para se explorar a parte norte do Parque Nacional Los Glaciares, e ali pode se encontrar Hospedajes, hotéis mais luxuosos e campings também. Para acampar não é necessário pagar nada, mas também não há infra-estrutura nenhuma. Pega-se água para cozinhar no rio e o único banheiro disponível é o da guarderia do parque, que só abre durante o dia. Há ainda mini mercados, restaurantes, posto de gasolina e correio.

A atração principal desta parte do Parque são as montanhas, e a mais famosa de todas é o Cerro Fitz Roy, uma enorme coluna de diorito, de cor alaranjada, que se eleva a 3441 metros de altura. Igualmente famosos e impressionantes são os Cerros Torre e Torre Egger que se erguem como agulhas apontando para o céu.

Cheguei ao entardecer no parque e armei minha barraca na área livre de campismo. No dia seguinte fui e voltei até a Laguna Torre para ver mais de perto o Cerro Torre. Foram seis horas de caminhada, sem mochila, mas não dei sorte e o Cerro Torre estava parcialmente encoberto por nuvens. Mesmo assim valeu a pena pois a área ao redor da montanha é muito bonita.

Retornando à Chalten conheci um grupo de turistas argentinos muito simpáticos e comprei uma garrafa de cinco litros de vinho para tomarmos juntos. Passamos uma noite muito agradável conversando e bebendo à beira de uma fogueira.

No dia seguinte desmontamos as barracas. Os argentinos estavam indo embora do parque de carona, e eu estava partindo para ir até a base do Fitz Roy. Deixei a bike na guarderia junto com as coisas que não iria usar na caminhada. Havia sobrado bastante vinho e enchi a minha garrafa de água com ele para levar na caminhada, seguindo o conselho dos argentinos.

Nos despedimos, para provavelmente nunca tornarmos a nos encontrar. Viajar é assim, ganha-se a companhia de pessoas muito agradáveis e especiais, e depois de um breve tempo, perde-se a companhia delas pois os caminhos se separam. Novas pessoas vão surgir, com certeza. Havia sido assim com o Cris e a Jeanine, e agora era com os argentinos.

Deixei o acampamento para trás, caminhando em direção ao Fitz Roy, que mesmo à uma distância de 13 quilômetros era bastante imponente. Estava quase chegando ao acampamento Rio Blanco aonde passaria a noite, e parei para bater uma foto com o Fitz Roy ao fundo pois o sol estava se escondendo atrás dele. Era uma visão encantadora, o Fitz Roy sem a luz do sol aparentava ser cinza ao invés de bege. Os raios de sol pareciam querer atravessá-lo, mas não conseguiam, tendo que se contentar em contorná-lo por cima. Podia ver claramente os raios emergindo de um ponto comum além da montanha, abaixo da minha linha do horizonte, como se alguém estivesse atrás do Fitz Roy acendendo vários holofotes em direção ao céu.

Apareceram dois ingleses que estavam voltando para Chalten, e eles me pediram para que tirasse uma foto deles com o pôr do sol atrás. Eles estavam voltando de uma escalada bem sucedida em uma das montanhas menores do maciço do Fitz Roy, e mal podiam esperar para chegar em Chalten para comemorar. Eu lhes disse que nem precisavam esperar tanto pois eu estava com a minha infalível garrafa de vinho bem ali.

Brindamos ali mesmo, à saúde da escalada deles, à saúde do pôr do sol e à saúde da aventura. Foi comovente mas rápido pois tínhamos que chegar aos nossos destinos antes que escurecesse totalmente, e assim nos despedimos.

Logo cheguei ao Campamento Rio Blanco, que oferece uma vista maravilhosa da montanha, e montei a minha barraca, de costas para o oeste, caso o vento começasse a soprar. Havia este detalhe, o vento não estava soprando, e isso realçava ainda mais a beleza do local. Parece até que é possível ver mais quando há silêncio, fica se mais alerta, como se algo tivesse sido esquecido, ou como se algo importante fosse acontecer a qualquer momento.

Não havia muito tempo para divagações e tratei de juntar lenha para uma providencial fogueirinha. Esta tarde dispensei o meu fogareiro e cozinhei na fogueira mesmo, observando o dia acabar de se transformar em noite.

No dia seguinte acordei cedinho para ter uma das visões mais bonitas da viagem. O sol estava nascendo, logicamente no leste, iluminando bem de frente o maciço do Fitz Roy, com a luz mais delicada que pode oferecer. A montanha tinha um tom entre o cor de rosa e o amarelo, difícil de descrever. O céu estava azul clarinho, sem nenhuma nuvem, e o silêncio era o mesmo da tarde anterior.

Havia poucas pessoas acordadas no campamento, elas haviam acordado para ver o nascer do sol e mal ousavam cochichar entre elas para não quebrar a magia do momento. Não havia mesmo o que falar, podíamos apenas olhar, e respirar aquele ar fresco puríssimo. Não valia a pena nem mesmo pensar, tentar definir ou entender a pureza e perfeição da natureza , mais uma vez surpreendendo com outro de seus shows.

Para comemorar tanta poesia fiz uma panelada de musli, afinal o dia seria longo, com muita caminhada para chegar o mais perto possível do grande Fitz Roy, que foi batizado em homenagem ao capitão Fitz Roy, do navio Beagle. Fitz Roy e o naturalista Charles Darwin percorreram em 1834 o Rio Santa Cruz até uma distância bem próxima da cordilheira, tendo sido muito provavelmente os primeiros europeus a avistar a montanha.

Do Campamento Rio Blanco há uma trilha que leva até a Laguna de Los Tres, a 1160 metros de altitude, praticamente aos pés da montanha. A trilha é bastante clara e fácil de seguir, mas a subida é bastante puxada pois há uma diferença de altitude de 450 metros. O Fitz Roy não é visível durante a maior parte da caminhada pois fica encoberto pelo morro que é bastante íngreme. Foi um grande prazer acabar de vencer a subida e dar de cara com a laguna e o Fitz Roy ao fundo. Incrível como basta subir um morro a mais para ter uma visão mais bonita que a anterior. A laguna aumentava ainda mais a beleza do local.

O Fitz Roy estava perto, mas eu queria chegar mais perto ainda, e comecei a analisar os possíveis caminhos para me aproximar mais. Diretamente a minha frente estava a laguna, e parecia ser possível andar pela margem esquerda dela até alcançar um glaciar que descia diretamente da montanha. Ali eu teria que parar pois não tinha equipamento para caminhar no gelo, e nem seria aconselhável fazê-lo sozinho.

A minha direita havia uma montanha, o Cerro Madsen, com aproximadamente 1850 metros. Podia visualizar uma rota até o topo da montanha ali de onde eu estava, e o caminho não parecia ser demasiado íngreme ou passar por partes perigosas. Optei por subí-lo pois lá de cima com certeza poderia ter um campo de visão bem maior que das margens da lagoa.

Iniciei a subir em direção a encosta que planejara seguir até o topo da montanha e lá acabei encontrando uma espécie de trilha que levava para cima, o que era um bom sinal e indicava que eu estava no caminho certo e que era realmente possível subir por ali. A subida era bem puxada e longa, mas eu não tinha pressa e parava o tempo todo para observar o panorama. O meu campo de visão aumentava a medida que eu subia. O Campamento Rio Blanco já estava difícil de localizar mas ainda podia ver a minha barraca minúscula lá embaixo. Podia ver também uma nova lagoa ao sul da Laguna de Los Três, era a Laguna Sucia.

Continuei a subir caminhando tranquilamente sobre pequenos fragmentos de pedra que formavam um piso bastante firme, até encontrar uma parede de pedra praticamente vertical que atravessava o meu caminho. Teria que escalá-la se quisesse prosseguir pois não havia como contorná-la. Felizmente a pedra era toda rachada e não faltavam lugares para apoiar os pés e as mãos. A parede tinha mais ou menos cinco metros de altura e de onde eu estava podia ver que seria possível continuar a caminhar por cima dela.

Escalei com todo o cuidado pois não poderia sofrer nenhum tipo de acidente ali em cima. Não havia ninguém para me resgatar e naquela altitude sem barraca ou saco de dormir eu poderia morrer de frio caso não pudesse me mexer. Escalei devagar testando antes de colocar o meu peso nos apoios para não apoiar em nenhuma pedra excessivamente solta. Era incrível como a pedra estava totalmente fraturada. Era daqui de cima que saiam as pedrinhas sobre as quais eu caminhava lá embaixo.

Logo cheguei ao topo da parede e pude continuar sem problemas, apenas caminhando mais lentamente pois o topo dela era bem irregular. Acabei tendo que descer do outro lado da parede para poder continuar na direção certa. Passei então a caminhar sobre a neve, subindo uma rampa bastante longa e íngreme. Ali também havia perigo pois se por acaso houvesse neve fresca caída em cima de neve congelada, eu poderia facilmente escorregar ao apoiar o meu peso pois eu estava com botas normais sem “grampons” para aderência no gelo. A solução foi avançar bem devagar somente apoiando os pés aonde eu podia sentir firmeza. Já podia ver o topo da minha grande montanha e logo estaria lá.

Antes de chegar no topo tive outra visão maravilhosa. Pude ver, praticamente abaixo de mim, o que havia atrás do Cerro Madsen. Era o Glaciar de Piedras Blancas, simplesmente fantástico, visto assim do alto. Podia ver todas as fendas no gelo. Podia ver também como há áreas onde o gelo se move mais devagar e por isso sofre menos fraturas. O mais impressionante era o lado leste do Glaciar que praticamente desabava em direção ao lago formado por ele mais embaixo. As fendas nesta parte eram realmente enormes.

O topo do Cerro Madsen é formado por uma espécie de pilar de pedra de uns três metros de altura, também fácil de escalar. Fiquei ali sentado, maravilhado com o visual, embelezado desta vez não só pelo silêncio, mas também pela adrenalina que circulava no meu sangue. Aliás àquela altura o meu sangue não se contentava em simplesmente “circular” nas minhas veias, ele estava apostando corrida, quebrando o recorde de velocidade do circuito.

O Fitz Roy continuava bem mais alto do que eu, mas eu o estava vendo de um novo ângulo. Havia realmente valido a pena subir até ali para vê-lo melhor. Todo o maciço do Fitz Roy, composto por várias “agulhas”, montanhas menores mas não menos espetaculares, estava mais bonito lá de cima. Eu me sentia menos diminuído olhando para as montanhas estando eu mesmo no topo de uma delas.

A descida até o acampamento ocorreu sem incidentes, tomei o cuidado de descer bem devagar nos momentos críticos para não ter nenhum acidente, e logo estava caminhando de novo na trilha normal.

De volta a Rio Blanco encontrei com um casal inglês que havia conhecido na subida à Laguna de Los Três e jantamos juntos à beira de uma nova fogueira. Bebemos o meu vinho e comemos um delicioso macarrão. Tivemos até chocolate de sobremesa, e a companhia de um senhor que estava viajando sozinho e era policial em Londres.

Na manhã seguinte tomamos café juntos perto da minha barraca pois durante a noite o tempo havia mudado completamente e estava ventando com muita força e garoando. A garoa parou logo mas o vento continuou a soprar forte o dia inteiro.

Por volta do meio dia comecei a caminhar junto com o casal inglês, Warren e Martha, em direção ao Glaciar de Piedras Blancas, aquele que eu havia visto no dia anterior do topo do Cerro Madsen. Chegamos lá depois de uma hora e meia de caminhada sendo empurrados e sacudidos pelo vento. Almoçamos em meio às enormes “piedras blancas” que existem por ali e em seguida nos separamos.

Os ingleses voltaram ao acampamento enquanto eu prossegui até a Piedra del Fraile. A trilha até lá segue o curso do Rio Blanco para depois virar a esquerda e seguir o leito do Rio Elétrico, que passa ao lado da Piedra del Fraile. Existem várias opções de caminho para sair do Rio Blanco e seguir o Rio Elétrico, e eu tive o azar de escolher uma trilha que simplesmente terminou em lugar nenhum, no meio de uma floresta de Lenga. Felizmente a direção a seguir era bastante óbvia, eu deveria caminhar entre a montanha, que deveria estar sempre a minha esquerda, e o rio, que deveria estar em algum lugar à minha direita. Eu não podia ver o rio por causa do mato que obstruía a visão, mas sabia que ele estava por ali. Mas eu podia ver a montanha e fui caminhando aos pés dela até que acabei por encontrar a trilha de novo e a partir daí segui sem novidades até chegar aonde queria.

Piedra del Fraile é um refúgio e camping de propriedade privada e é necessário pagar em torno de cinco dólares para acampar ali. Mas o local oferece uma comodidade valiosíssima, água quente para tomar banho! A água é armazenada em um tambor de metal que é aquecido com fogo à lenha, bastante engenhoso e deliciosamente confortável. Além disto, em Piedra del Fraile às vezes é possível comprar pão e deliciosos bolos feitos pelo proprietário, tudo depende do quão cheio estiver o camping.

Tomei um delicioso banho, mas não pude demorar muito pois havia várias pessoas na fila, o camping estava lotado de argentinos que estavam se preparando para uma caminhada no Campo de Gelo Sul.

Próximo à Piedra del Fraile existe uma passagem que leva ao Gelo, chamada Passo Marconi. O Passo Marconi é a entrada mais utilizada por grupos que vão caminhar no gelo. Entra se por ali e caminha se até o Passo del Viento aonde é possível sair do gelo e voltar até Chalten. Uma aventura como estas leva entre uma semana e duas, o tempo de duração depende das condições climáticas no Campo de Gelo, e das condições físicas e velocidade do grupo.

O clima no Campo de Gelo pode ser perfeito ou péssimo, com tempestades de neve acompanhadas por ventos fortíssimos e que chegam a durar até uma semana, situação na qual a única coisa a fazer e ficar dentro da barraca e esperar uma melhora no tempo. Realmente não é uma viagem para qualquer um, e olhando para aquelas pessoas me perguntava se elas estariam realmente preparadas para o pior, caso ele viesse a acontecer. O grupo tinha quinze pessoas e dois guias. Várias pessoas me pareciam estar fora de forma para uma atividade física extenuante e prolongada. Além disto havia com eles uma equipe de televisão com três repórteres, que teriam que carregar peso extra, como câmeras de televisão, baterias extras, cabos ,etc.

Não cabia a mim julgá-los, e pensei que o guia não seria irresponsável a ponto de levar pessoas inexperientes ou despreparadas a uma situação potencialmente perigosa.

Na manhã seguinte, bem cedo, o grupo partiu, e eu nem os vi sair. Queria ter visto como um grupo tão grande se locomovia. De qualquer forma acabei levantando cedo também pois queria explorar um pouco os arredores.

Escolhi subir ao miradouro do Fitz Roy e ter uma outra visão da montanha, agora da sua face norte. Para chegar ao miradouro deveria seguir uma trilha que parte da Piedra del Fraile e sobe por uma encosta muito íngreme até uma espécie de vale situado a mais ou menos 1500 metros de altitude, ou seja 1000 metros acima da Piedra del Fraile. O miradouro era ali e segundo o dono do camping seria o fim da trilha para pessoas sem equipamento para caminhadas no gelo.

A subida era realmente cansativa, mas o segredo para não sofrer demais nessas situações é o mesmo, subir devagar, parando para descansar e apreciar o visual.

Depois de uma hora e meia, mais ou menos, cheguei ao miradouro. Era realmente muito bonito, podia ver o Fitz Roy quase até o topo, que estava encoberto por nuvens. Estava ventando bastante e o céu estava escurecendo progressivamente. Também podia ver ali de cima o caminho que levava até o Passo Marconi, um glaciar longo e de inclinação suave.

Diretamente à minha frente, entre eu e o Fitz Roy, havia um glaciar, que representava o fim da caminhada para mim. Se pudesse atravessá-lo, poderia atingir o Passo del Quadrado, de onde poderia avistar o Cerro Torre e toda a cadeia de montanhas a oeste do Fitz Roy. Mas isso estava fora de cogitação pois a subida até o Passo era íngreme demais e havia varias fendas encobertas por neve no caminho.

Entretanto, havia um outro caminho que parecia ser praticável sem grandes problemas. Ele levava até o Passo Guillaumet, a aproximadamente 2200 metros de altitude. Ali de longe a subida não parecia ser impraticável e o mais importante é que ela não estava coberta de neve. O único problema é que eu teria que caminhar sobre um glaciar por uns duzentos metros. Mesmo assim o glaciar aparentava não ter fendas naquele trecho e isso me provocou ainda mais.

Resolvi prosseguir, e quase no início do glaciar encontrei um homem olhando pensativo em direção ao Passo Guillaumet. Puxei conversa com ele, era um Italiano, Maurizio, e me contou que estava no fim da sua viagem. Ele era espeleólogo glacial, ou seja, explorador de cavernas no gelo, e havia participado de uma expedição em busca de cavernas no Campo de Gelo Sul.

Obviamente ele sabia tudo sobre caminhadas no gelo, e eu lhe perguntei se ele achava ser possível caminhar sobre aquele glaciar até o Passo Guillaumet. Ele me disse que o gelo aparentava estar sem fendas e ele também estava pensando em tentar chegar ao Passo. Prosseguimos juntos através do gelo, um na frente do outro para no caso de um cair em alguma fenda o outro poder ajudar.

Atravessamos o gelo sem incidentes e começamos a caminhar pelas pedras. Logo paramos para discutir que rota seguiríamos até o Passo. Acabamos mudando o nosso plano pois um pouco à direita do Passo Gullaumet parecia haver um caminho escalável que nos possibilitaria ver o Cerro Torre e toda a cadeia de montanhas a oeste do Fitz Roy, exatamente a mesma vista que teríamos se subíssemos o Passo del Quadrado. O caminho aparentava ser um pouco difícil, mas resolvemos tentá-lo assim mesmo pois a vista de lá prometia ser muito mais interessante que do Passo Guillaumet.

O tempo estava piorando rapidamente e nos apressamos para chegar no topo antes que ele piorasse de vez. No meio da subida começou a chover, mas não desanimamos. Logo chegamos em um lugar a partir do qual era impossível continuar a caminhar.

Prosseguimos escalando, usando as duas mãos para nos apoiar. A escalada não era muito difícil mas era bem mais longa do que aparentava a princípio, e logo estávamos totalmente molhados.

Depois de algum tempo não tínhamos mais certeza de estar escalando na direção certa, era possível que houvéssemos desviado um pouco da rota certa e isso nos faria chegar em algum trecho mais difícil de escalar. De qualquer maneira a escalada já havia se tornado bastante difícil, especialmente por a pedra estar molhada e estarmos com frio. Além disto não tínhamos nenhuma corda ou equipamento de segurança e uma queda do ponto aonde estávamos seria mortal.

Resolvemos voltar atrás e subir pelo Passo Guillaumet mesmo pois era mais seguro.

Tínhamos que descer devagar antes de poder recomeçar a subir e por isso começamos a sentir ainda mais frio, estávamos até tremendo um pouco. O tempo continuava a piorar e as nuvens acabaram por encobrir o próprio Passo e o local até aonde havíamos escalado.

Seria inútil subir até o Passo, a única coisa que poderíamos ver lá de cima seriam nuvens, e por isso concordamos em descer. Precisávamos nos movimentar para aquecer e não perdemos tempo nos lamentando pela escalada frustrada. Valeu a pena ter subido até ali, havíamos chegado a 2150 metros de altitude, a apenas 50 metros do Passo, e tínhamos uma belíssima vista das montanhas menores à nossa volta e do Passo Marconi à distância. O tempo encoberto e a mistura de chuva e neve que estava caindo dava uma aparência tenebrosa a paisagem e aumentava a nossa emoção. Durante a descida encontrei um pedaço de corda e um bastão de caminhada abandonado por alguma expedição e os levei como souvenir e para nos dar segurança na volta através do glaciar.

Atravessamos o glaciar praticamente correndo sobre nossas pegadas para nos aquecer, e logo chegamos a uma pedra grande atrás da qual nos protegemos do vento e fizemos um delicioso lanche com pão, salame, biscoitos e até chocolate. Isso fez com que nos sentíssemos bem melhor, e logo chegamos de volta à Piedra del Fraile.

Chegando lá encontramos Alessio, companheiro de Maurizio na expedição de espeleologia. Ele nos contou que havia caminhado em direção ao Glaciar Marconi e viu a expedição dos argentinos se preparando para atravessar o Rio Elétrico. Eles estavam atravessando o rio no lugar errado, a apenas um quilômetro do local certo. Ele disse que não entendeu o porque disto pois se ele que havia vindo da Itália sabia onde era o local mais adequado para atravessar o rio, com certeza o guia, que era argentino, sabia também .

O resultado desta imprudência foi que a repórter de televisão e um dos cameraman, perderam o equilíbrio no meio da travessia do rio e foram arrastados pela correnteza. A água estava correndo rápido, na altura da cintura, e é muito difícil recobrar o controle dos movimentos uma vez que se é arrastado, devido ao frio e as roupas molhadas que tornam difícil se mexer. Os guias correram inutilmente pelas margens do rio gritando para que aqueles que estavam na água nadassem em direção à margem. Finalmente os repórteres saíram da água, a mais ou menos trinta metros abaixo do local onde eles haviam escorregado, duros de frio. Os guias então fizeram uma fogueira para aquecê-los e secar as suas roupas, e acabaram acampando por ali mesmo .

Alessio contou tudo isso com um tom de desprezo na voz criticando muito a atitude dos guias, que segundo ele, quase mataram duas pessoas depois de apenas uma hora de caminhada, ainda em uma zona relativamente segura, correndo um risco totalmente desnecessário.

Eu lhe perguntei se o risco havia sido tão grande assim com água apenas na altura da cintura, e ele me respondeu que o risco maior não era devido a profundidade da água e sim devido a temperatura.

Todos esses rios próximos a glaciares são formados pela água do degelo do próprio glaciar e são extremamente frios. Quando uma pessoa cai numa água tão fria e molha a cabeça, corre um grande risco de desmaiar devido ao choque térmico e consequentemente morrer afogado pois é muito difícil que alguém consiga encontrar e retirar o corpo da água a tempo para uma ressuscitação.

A conversa se concentrou então nos riscos que caminhar no gelo pode apresentar. Aproveitei a presença dos dois experts e obtive todas as dicas que podia, afinal eu mesmo estava planejando fazer uma caminhada sobre o Campo de Gelo Sul, e ao que tudo indicava eu iria estar lá sozinho.

Maurizio me explicou que o maior risco em se caminhar no gelo é cair dentro de uma fenda. Os glaciares estão em constante movimento e esse movimento causa fendas na superfície do gelo. Essas fendas variam de tamanho e profundidade mas tem uma característica em comum, se estreitam no fundo assumindo uma forma de “v”, com a parte mais larga na superfície e o vértice no fundo. Essa característica faz com que a pessoa que cai numa fenda tenha grandes possibilidades de se entalar no fundo e ficar praticamente impossibilitada de se mover. Caso isso aconteça a pessoa depende quase que exclusivamente de ajuda externa para sair da fenda. É uma operação trabalhosa que requer técnica no manuseio de cordas e muita força.

Caso uma pessoa caia em uma fenda e não tenha ninguém para resgatá-la, ela terá poucas chances de se auto resgatar, mesmo com equipamento adequado, como grampons (espécie de garras de ferro que se colocam nas botas, para ter aderência no gelo), e picareta para gelo. No meu caso eu não tinha nenhum equipamento e teria que absolutamente evitar cair numa fenda.

As fendas são especialmente perigosas quando estão cobertas de neve pois se tornam praticamente invisíveis. Maurizio me tranquilizou dizendo que na zona onde eu pretendia caminhar não havia fendas e também não havia neve. Ele havia explorado aquela área, próxima ao Passo del Viento, em busca de cavernas no gelo e me garantiu que era seguro caminhar sozinho por ali.

Ele me contou que não havia encontrado grandes cavernas por lá, mas que eu encontraria algumas pequenas se caminhasse nas bordas da geleira, aonde o gelo se encontra com a pedra.

Maurizio me deu outro conselho, o de tomar muito cuidado com os pequenos rios de degelo que correm sobre a geleira. O leito destes rios é extremamente escorregadio e se uma pessoa escorrega ao atravessar, pode ser arrastada pela correnteza ou simplesmente escorregar pelo gelo liso caso o rio seja inclinado. O que ocorre é que muitas vezes estes rios terminam em uma espécie de cachoeira que despenca dentro das famosas cavernas, aonde acabam por formar um lago. É morte na certa. Felizmente os rios que encontraria seriam bem pequenos e não representavam risco algum.

Por falar em rios, eu também teria pela frente, antes de chegar ao Campo de Gelo, uma travessia de rio considerável, e deveria fazê-la de manhã cedo quando o nível da água é mais baixo. Deveria ter cuidado com a profundidade da água e força da correnteza, que pode “arrancar” os pés do chão e dar uma “rasteira” em quem está atravessando, e aí as coisas podem se complicar.

A última recomendação era a de ter bom senso e não se arriscar desnecessariamente, observar o clima atento a mudanças, e não hesitar em recuar caso sentisse necessidade.

Foi ótimo encontrar Maurizio e Alessio. Além se serem simpáticos e interessantes, haviam me esclarecido muitas coisas. Desde o Brasil, eu estava namorando a idéia de caminhar no Campo de Gelo, mas me sentia inseguro pelo fato de não ter nenhuma experiência no gelo e também por estar indo sozinho. O livro do qual eu extraía informações para as caminhadas, o “Trekking in the Patagonian Andes” dizia que a caminhada até o Passo del Viento, o portão de entrada para o Campo de Gelo, só deveria ser feita por grupos, e mesmo assim composto por pessoas super experientes. O livro nem mencionava a possibilidade de caminhar no gelo. Graças aos italianos eu pude fazer uma reavaliação dos riscos e possibilidades de fazer a caminhada, e havia resolvido ir.

A nossa conversa acabou durando o jantar inteiro e fui dormir pensando em quantas coisas legais a viagem havia me proporcionado até então e em quantas ainda me proporcionaria.

Na manhã seguinte comi o resto do jantar para o café da manhã pois a minha comida havia acabado, de forma que também desmontei a minha barraca e me preparei para voltar a Chalten, aonde iria me preparar para ir até o Campo de Gelo Sul.

Em cerca de duas horas descendo pela trilha que acompanhava o rio, cheguei a ponte do Rio Elétrico, e a partir daí caminhei pela estrada que levava a Chalten. Logo passou uma perua carregada de turistas e peguei carona com eles, que pararam ao me ver fazendo sinal. Quase todas as caronas que peguei na Patagônia foram assim, o primeiro carro que passava me levava, não sei se foi por eu ser uma pessoa de sorte ou se é realmente fácil pegar carona por lá.

11 - Los Glaciares - Campo de Gelo



De volta a Chalten não fiz muita coisa até a manhã seguinte, quando fiz as compras e me preparei para seguir até o Passo del Viento. Eu iria sozinho mesmo, já era início de Março e o parque estava com um movimento bem menor de turistas. De qualquer forma eram poucas as pessoas que iam para aqueles lados do parque. Tão poucas que a trilha até lá é bem mal marcada e chega a não existir em vários trechos, aonde caminha-se em campo aberto escolhendo o melhor caminho.

Para ir ao Passo del Viento é necessário obter com os guarda parques uma “autorização de escalada”, que é concedida sem problemas e é grátis. A autorização serve para que os guarda parques possam monitorar o movimento de pessoas na trilha, e possam sair a procura de alguém, caso essa pessoa não retorne dentro do prazo dado.

Os guarda parques me explicaram o caminho a seguir e me mostraram fotos do Passo, para que eu o reconhecesse. Além disto, Maurizio havia desenhado dois mapas, um mostrando o caminho até o passo, e outro indicando o caminho até o refúgio que existe na beira do Campo de Gelo. A existência de dois refúgios no caminho facilitava muito as coisas e pude viajar mais leve, sem levar a minha barraca.

Comecei a caminhar às 12:30 e depois de duas horas e meia de subida moderada, cheguei ao topo da encosta da montanha pela qual havia subido. De lá podia ver o Vale do Rio Túnel pelo qual iria prosseguir, até as margens do Lago Toro aonde dormiria no refúgio. Também podia ver o Passo, que ainda estava bem longe, mas diretamente à minha frente. Era tranquilizador vê-lo de tão longe, e o caminho parecia ser bastante óbvio à distância.

Iniciei a descer e logo estava no vale propriamente dito. A partir daí o relevo era praticamente plano, tão plano que grande parte do vale era um grande banhado. A trilha desaparecia e cabia a mim escolher o meu próprio caminho, e eu escolhi justamente o errado. Ao invés de me manter o mais próximo possível do leito do rio, o que seria o caminho certo, escolhi seguir em linha reta em direção ao Lago Toro, para assim caminhar menos.

Depois de mais ou menos quinze minutos comecei a encontrar água na minha frente, mas podia seguir saltando sobre pequenas “ilhas” que estavam acima da água, usando o bastão para caminhadas como apoio. Resolvi andar mais à direita, aonde havia uma floresta, pois ali certamente não haveria água. Na floresta as coisas não melhoraram tanto pois o mato era bastante fechado e era difícil caminhar com a mochila, que enroscava nos galhos várias vezes. Prossegui devagar, atravessando um pequeno rio que encontrei pelo caminho.

Estava revoltado por ter escolhido exatamente o caminho errado. Eu estava caminhando muito lentamente e começava a pensar na ironia que seria caso precisasse acampar no mato logo naquele dia, que tinha deixado a barraca na guarderia.

Depois de um longo tempo, acabei por encontrar a trilha e logo em seguida cheguei ao refúgio.

O refúgio era realmente engraçado, uma casinha de metal pintada de laranja, em forma de triângulo. Exatamente como uma casa de cachorro em tamanho exagerado. Não havia janelas, e dentro havia espaço para quatro pessoas apenas, o que permitia um rápido aquecimento do lugar.

Ao lado da casinha encontrei um outro refúgio improvisado por expedições anteriores, uma espécie de barraco, cujas paredes eram feitas de troncos de árvores caídas, e o teto era feito de lona, coberta com outras árvores menores para evitar que o plástico fosse arrancado pelo vento. Havia até uma porta, essa feita de tábuas mesmo. A decoração do lugar era feita com caveiras de vacas mortas, penduradas ao lado da porta. Dentro era bem escuro e havia um local para se fazer uma fogueira e cozinhar. Várias panelas enormes, de expedições anteriores, estavam empilhadas em um canto. Havia também latas de açúcar, chá, e algumas velas , que foram muito úteis pois eu tinha apenas uma lanterna como fonte de luz e não queria cozinhar gastando pilhas.

Fazia muito frio, com certeza devido à proximidade do Campo de Gelo, e dormi pesadamente logo após terminar o jantar.

Na manhã seguinte comi a minha tradicional panelada de Musli, à qual eu vinha acrescentando chocolate em pó, uma delicia.

Saí cedo, pois não tinha barraca para desarmar e também teria que atravessar o Rio Túnel, e como o rio é alimentado pelo degelo do glaciar, o melhor seria atravessá-lo o mais cedo possível, antes que o sol derretesse muito gelo.

Segui o Rio Túnel até chegar ao Lago Toro, que contornei pela direita conforme as indicações de Maurizio. Ao chegar ao lado oposto do lago, encontrei o trecho onde o rio que escorria do glaciar encontrava o lago. Neste ponto, o rio se dividia em vários braços menores, formando um delta, mais fácil de se transpor que o rio inteiro.

Me preparei para entrar na água, tirando as botas e as meias. Infelizmente eu não tinha sandálias, que seriam perfeitas para proteger os pés. Fiquei apenas de calças curtas e jaqueta, com o capuz levantado para proteger a cabeça da água caso eu escorregasse.

Me restava então escolher o lugar para a travessia, e foi aí que novamente eu cometi um erro, que poderia ter me custado muito caro. O pequeno delta entre o glaciar e o lago tinha algo como 50 metros de comprimento. Próximo ao glaciar a água era mais funda e a correnteza mais forte, pois eram poucos os canais por onde a água corria. Próximo ao lago o número de canais era bem maior, a correnteza mais fraca, e também a profundidade da água era menor. Logicamente escolhi fazer a travessia o mais próximo do lago possível.

Esse foi o meu erro. Eu não sabia que a água que escorre do degelo de um glaciar é carregada de sedimentos, e esses sedimentos se depositam ao longo do leito dos rios. Se a água corre com grande velocidade os sedimentos se mantém suspensos, depositando-se lentamente, dispersos em uma grande área. Se a água corre lentamente, os sedimentos se depositam em maior concentração naquele local. Era exatamente isso que acontecia nas margens do lago.

Tudo correu bem enquanto eu caminhei pela margem do lago aonde ela havia passado a noite toda sem estar coberta pela água. O piso era firme e plano. Assim que coloquei a perna dentro da água, para atravessar o primeiro canal, senti o meu pé tocar a areia do fundo e continuar a afundar, até a água estar pela metade da minha coxa. Tomei um susto enorme, e inclinei o corpo para trás, enquanto enfiei a outra perna na água para poder retirar a primeira.

Tudo foi muito rápido, e com movimentos um tanto desesperados consegui sair do pequeno canal, molhado até a cintura. Ninguém havia me prevenido sobre aquilo, e se eu tivesse encontrado a “areia movediça” longe da margem, tenho minhas dúvidas se teria conseguido sair da água.

Voltei com as pernas tremendo pela descarga de adrenalina até a parte alta do delta, e iniciei ali a travessia, utilizando o bastãozinho de caminhada como apoio. A água atingiu a altura do meio da minha coxa mas a travessia foi tranquila. O único problema é que por estar descalço tive que caminhar devagar para não machucar os pés e também tinha um pouco de dificuldade para manter o equilíbrio.

Uma vez do outro lado parei um pouco para secar os pés e me recuperar do susto, que foi sem duvida nenhuma o maior da viagem

A partir deste ponto segui uma trilha bem marcada que subia a montanha, contornando o glaciar. Depois de uns duzentos metros a trilha levava até o glaciar, por onde continuei a caminhar. O glaciar estava sem neve alguma e não havia fendas na beira dele. Somente ao caminhar mais para o interior é que se viam as fendas, que se aprofundavam e alargavam, até transformar a superfície do glaciar em uma coisa totalmente caótica e inóspita.

E lá estava eu, dando os meus primeiros passos em um glaciar de verdade. A caminhada com Maurizio havia sido fichinha perto desta. Era o Glaciar do Rio Túnel, as fendas eram enormes, e eu podia escutar os rios que corriam pelo fundo delas.

Continuei a seguir pela beira do glaciar, totalmente tomado pela emoção. Tudo ali era novo para mim, um universo enorme e desconhecido, de uma beleza estonteante, com formas estranhas e de dimensões enormes. As forças que moldavam aquela paisagem eram gigantes e me faziam sentir muito pequeno e insignificante.

Depois de andar mais ou menos um quilômetro sobre o gelo voltei a seguir a trilha, que reiniciava às margens do glaciar. Ela seguia paralela ao glaciar mas eu deveria virar a esquerda e subir uma rampa íngreme, aonde, segundo Maurizio, encontraria uma outra trilha, que era mais fácil de seguir. Subi a rampa procurando a segunda trilha, e quando a vi não pude alcançá-la pois no meu caminho havia uma encosta muito inclinada e escorregadia. Percebi então que havia cometido outro erro, havia subido a rampa que saía da trilha cedo demais. Se tivesse caminhado uns cem metros a mais antes de subir, não teria problemas com a rampa inclinada. A solução foi voltar até a trilha original, mas desta vez resolvi não tentar pegar a trilha de Maurizio, e seguir pela trilha normal.

A trilha normal me levou às margens de um lago formado por um segundo glaciar. A trilha terminava na margem esquerda do lago e era óbvio que devia seguir por ali mesmo, pois a apenas 300 metros dali acabava o vale e iniciava-se uma subida íngreme que levava até o Passo. Cheguei ao início da subida, mas não encontrei trilha alguma. Isso significava que a trilha que eu estava seguindo provavelmente não era a trilha “normal”. A trilha “normal” era a de Maurizio. De qualquer forma isso não importava mais muita coisa, e comecei a subir pela rampa, que era bastante íngreme, e coberta de grama.

Logo perdi contato visual com o Passo e me limitei a subir pelo caminho mais fácil, que por sorte me levava na direção certa. Continuei a subir, sempre procurando encontrar sinais de pessoas que houvessem passado por ali, mas não encontrava nada. Era uma sensação meio estranha, eu sabia que estava na direção certa, mas a falta de uma trilha ou algo que me confirmasse a direção, me fazia ficar um pouco nervoso. Procurava ver o Passo, mas como a rampa era íngreme demais, não o encontrava.

Depois de quase uma hora por essa subida pude ver o Passo a uns quinhentos metros de distância, à minha direita. Em seguida encontrei uma espécie de rampa que levava diretamente ao Passo, e era com certeza a “trilha”. Entretanto, não havia nenhum sinal da passagem de pessoas por ali. A grama, que é facilmente danificada ao ser pisada, estava em perfeitas condições.

Em dez minutos estava no topo, finalmente no Passo del Viento, que no Brasil se apresentava para mim como um dos pontos altos da viagem. E era realmente um ponto alto, a 1500 metros de altura. O vento, apesar de estar soprando bem forte não me impressionou muito pois eu esperava encontrar aqueles ventos que mal te permitem manter o equilíbrio em pé.

O mais impressionante de tudo era o visual. Atrás de mim podia ver os glaciares por onde passei, o Lago Toro, todo o Vale do Rio Túnel e também a encosta que o separa de Chalten. À minha frente porém, estava o lugar que sonhara ver desde que saíra de São Paulo, o Campo de Gelo Sul.

É difícil descrever o lugar e a emoção que senti ao vê-lo. O gelo estava a 800 metros de altitude, bem mais baixo que eu, e portanto podia vê-lo muito bem. Um verdadeiro mar, riscado por longas faixas marrom. O gelo não era branco como eu esperava, e sim meio cinza, devido à grande quantidade de pedras que o glaciar triturava com a sua passagem. As faixas marrom se formavam nas áreas onde havia maior atrito entre o gelo e a pedra. A superfície era plana, mas pontuada por “ilhas” que eram as montanhas cuja altura excediam a altitude do gelo.

O tempo estava encoberto, era difícil saber o que era nuvem e o que era neve. Era impossível identificar a linha do horizonte, e a sensação era a de estar penetrando em um outro mundo, em uma outra era. O campo de gelo parecia imutável, absolutamente poderoso, maior e mais pesado do que qualquer coisa ao seu redor. A imponência do visual me fez prender a respiração e praticamente calou o vento, que fazia barulho na minha orelha.

Podia ver o gelo se estender por aproximadamente 30 quilômetros à minha frente, aonde parecia estar o horizonte. O fim do campo de gelo era muito mais além. À minha direita a visão não alcançava muito longe pois era obstruída pela cordilheira aonde eu estava, mas eu podia ver ao longe um cordão de “ilhas” maravilhosamente brancas, que se elevavam do “mar” cinzento.

À esquerda havia uma espécie de “península” que avançava sobre o gelo. O gelo a contornava para em seguida iniciar uma longa e suave descida que iria levar ao Lago Viedma, o qual não era visível pois estava atrás de outra montanha. Essa parte do gelo que desce em direção ao lago, recebe o nome de Glaciar Viedma, o maior da América do Sul.

Fiquei por um bom tempo ali, paralisado pelo impacto do visual. O ponto onde eu estava representava o limite entre os domínios do homem , que ficavam para trás, e uma área aonde o homem não significava nada, e não havia nem mesmo plantas . Uma bandeira argentina hasteada de cabeça para baixo e meio destruída pelo vento, marcava este limite.

Apesar de o campo de gelo ser uma área absolutamente inóspita, ele é o motivo de uma séria disputa territorial entre o Chile e a Argentina, cujas relações diplomáticas estão razoavelmente abaladas por causa dela.

Durante um bom tempo ouvi falar da disputa sem entender o que poderia haver ali de tão valioso, até que li em um cartaz que o campo de gelo é uma enorme reserva de água doce para o futuro, quando, segundo algumas previsões, a água potável será uma mercadoria rara e valiosíssima.

Talvez o gelo não fosse tão inatingível como aparentava. Talvez ele tivesse sobrevivido milhões de anos intocado apenas para ser desperdiçado, usado para matar a sede de “progresso” do homem moderno.

Engraçado como podia ver estas coisas tão claramente estando tão mergulhado na natureza . A maneira absurda como o homem obtêm o seu sustento da natureza , lesando cada vez mais os recursos naturais em busca de mais dinheiro e conforto. Esquecendo se o quão pequena a espécie humana é perante a natureza e ignorando como estamos nos condenando a viver um futuro trágico por não condicionarmos o uso da tecnologia e a exerção de nossas atividades à uma manutenção do nosso patrimônio natural.

Previsões apocalípticas à parte, iniciei a descida em direção ao Campo de Gelo. Desci por uma trilha que acabou por desaparecer, mas o caminho a seguir era claro, devia virar a esquerda ao chegar ao final da descida, e seguir um riozinho, até que ele terminasse em um pequeno lago. Às margens do lago deveria encontrar o refúgio. Fazia bastante frio e cheguei ao refúgio sob uma fina “garoa” de neve.

O refúgio era bastante grande, com beliches para dez pessoas e mais espaço no chão para quem necessitasse. Fiz um chá e uma sopa para me recompor. Eu havia caminhado 5 horas do Lago Toro até o Passo del Viento (das quais uma hora e meia foram gastas em caminhos errados), e do Passo até o refúgio gastara 2 horas. Havia sido um dia cansativo, mas maravilhoso, e antes de dormir ainda dei mais umas voltas pelos arredores.

No dia seguinte saí para explorar o gelo. Desenhei um mapa com o trajeto que iria fazer e deixei em cima da mesa para o caso de eu sofrer algum acidente. Levei comigo roupas quentes, um pouco de comida, lanterna, um pedaço de corda e o meu fiel bastãozinho para caminhadas.

Pretendia caminhar em direção ao sul pela terra, para tentar ver o ponto onde o Glaciar Viedma encontra o lago de mesmo nome. Olhando do refúgio parecia ser logo ali, e mais uma vez eu me deixei enganar por esse tipo de ilusão. Eu estava a uma distância muito grande do lago, e caminhei por duas horas sem ver nenhum sinal dele. Havia sempre uma encosta a mais para subir ou uma curva a mais na montanha. Acabei desistindo, meio revoltado por gastar o meu escasso tempo caminhando em uma direção inútil. Voltei ao refúgio para comer e descansar um pouco.

À tarde saí na direção oeste, pela península que avançava para dentro do Campo de Gelo. Caminhei por uma hora e cheguei no topo da península, de onde podia ver gelo em quase todas as direções, simplesmente fantástico. De lá desci para finalmente caminhar sobre o gelo.

A área onde um glaciar encontra a pedra é uma zona interessante, aonde ocorre um incrível confronto de forças. A pedra tenta permanecer imóvel, mas o glaciar força a passagem, erodindo-a e às vezes perdendo pedaços também . Nessa zona há sempre pequenos rios de água correndo sobre gelo, erodindo o mesmo no processo.

Cheguei ao gelo justamente em uma área aonde havia uma espécie de reentrância no perfil da pedra. Isso fazia com que houvesse um grande buraco entre o gelo e a pedra pois o glaciar, ao correr paralelo à pedra, não preencheu esta reentrância. O resultado disto é que era possível se aproximar do glaciar “por baixo” dele.

Nesse local específico, a parede de gelo tinha apenas dez metros de altura, e não era uniforme, havia enormes rachaduras no gelo, através das quais era possível entrar no glaciar. Dentro destas pequenas cavernas a água escorria pelas paredes, formando pequenos rios no chão. Em certos lugares a água caía livre desde o teto até o chão, formando pequenas cascatas.

Era uma surpresa para mim encontrar logo de cara com uma caverna, pena ela ser tão pequena. Podia caminhar somente por uns dez metros no seu interior. As formas esculpidas no gelo pela água eram absurdas. A água correndo pelas paredes, caindo do teto, fazendo barulho ao tocar o chão, e depois continuando a correr, dava a impressão de o glaciar ser uma coisa viva, um monstro de água solidificada que avançava lenta, porém inexoravelmente.

Saí da “caverna” e escalei pela pedra para poder subir no topo do glaciar e finalmente caminhar sobre ele.

Era realmente como Maurizio me havia dito, não existiam fendas, e era seguro caminhar. O tempo estava encoberto desde a manhã, com uma cara ameaçadora, e eu o observava constantemente para evitar ser surpreendido por uma tempestade.

Aparentemente havia nevado um pouco a noite anterior pois a superfície do gelo estava coberta por grandes flocos brancos congelados. A superfície do gelo era bastante áspera e permitia um caminhar bastante seguro, se bem que um tanto assustador a princípio pois a cada passo eu esmagava os flocos congelados, que faziam barulho ao se romper.

A sensação que eu tinha era a de estar realmente em outro planeta, totalmente desconhecido. Não podia ver nenhuma fenda, mas podia ver algumas mini fendas, que aparentavam ser antigas fendas, recomprimidas e forçadas a se fechar de novo, porém deixando pequenas falhas na superfície. Essas pequenas falhas estavam cheias de água, cuja superfície estava congelada.

Quebrei a superfície gelada de algumas destas mini fendas para ver o quão fundo elas eram, e constatei que elas eram bem fundinhas, o suficiente para engolir uma pessoa.

Por sorte elas eram bem visíveis, e seria difícil cair em uma delas, de modo que me pus a caminhar pelo gelo, em direção ao horizonte. Depois de uns dez minutos não havia mais nenhuma “mini fenda”, o gelo se tornara ainda mais plano, e a única particularidade na superfície eram as ocasionais faixas marrons geradas pelos sedimentos que afloravam à superfície.

Pude perceber porém, que onde ocorriam as faixas marrom, o gelo apresentava pequenas rachaduras na sua superfície, o que podia esconder fendas maiores, e isso começou a me fazer sentir medo.

Parei para pensar no que Maurizio me havia dito, eles haviam passado duas semanas explorando aquela região e não encontraram fendas ou cavernas grandes, e por isso eu podia me tranquilizar e caminhar em paz.

Na realidade o que estava acontecendo é que eu estava me impressionando por estar em um lugar totalmente surreal e desconhecido, e estava com a minha capacidade de julgamento um pouco alterada. Por exemplo, eu escutava o barulho de minúsculos rios que correm pelo glaciar, e cogitava a hipótese de o barulho estar vindo de algum rio invisível que estivesse correndo bem embaixo dos meus pés, e que a superfície do gelo fosse ceder a qualquer momento e eu cairia em algum rio subterrâneo. Depois de pensar isso, o barulho que eu fazia ao caminhar esmagando o gelo, parecia ser o barulho de placas de gelo se rompendo para que eu caísse em alguma fenda invisível.

Eu sabia que estava exagerando, mas quando se está sozinho em um lugar estranho é muito mais fácil sentir medo. De qualquer forma o medo é uma sensação desagradável, mas super benéfica pois te impede de cometer excessos inúteis e perigosos.

Eu já estava caminhando pelo gelo há um bom tempo, e se eu estava começando a me sentir desconfortável, deveria ir embora sem me recriminar, afinal de contas aonde eu poderia chegar caminhando uma hora a mais, ou mesmo cinco horas a mais?

Chegaria a algum outro ponto onde encontraria gelo, pedra e água combinados de uma maneira bastante parecida às que já havia visto.

O ideal seria retornar ao gelo com mais algumas pessoas, com equipamento adequado, e com conhecimento sobre o local, para aí sim poder explorar e sentir a sensação de estar caminhando em outra dimensão sem sentir mais medo do que o necessário.

Resumindo, voltei ao refúgio. Havia tido bastante aventura nos últimos dias e estava acabando mais uma fase de caminhadas. Breve estaria pedalando de novo em direção a novas emoções.

Fui dormir cedo e continuei a viver grandes aventuras, desta vez em forma de sonho. Eu era perseguido por uma espécie de baleia assassina, azul clara e branca, as cores do gelo. Essa baleia simplesmente se materializava do gelo, era feita de gelo do glaciar. A minha sorte é que ela se despedaçava ao saltar fora do gelo. Mas ela se rematerializava em seguida, e continuava a me perseguir através dos glaciares.

Esse foi realmente um sonho muito louco, mas não foi o único nem o mais violento. Várias vezes durante a viagem tive sonhos estranhos e emocionantes, muito vívidos, e o melhor de tudo é que eu não os esquecia.

No dia seguinte me despedi do gelo. Parti ao meio dia, e prossegui por cinco horas, incluindo uma parada para almoço no meio do caminho, até o refúgio no Lago Toro.

Lá encontrei as primeiras pessoas que via em três dias, um casal de americanos e dois casais sul africanos. Nenhum deles estava planejando ir ao Campo de Gelo. Os americanos acabaram indo até o Passo del Viento no dia seguinte pois eu jurei que aquela era a visão mais impressionante que eles podiam ter no Parque. Eles foram, e concordaram comigo mais tarde quando nos reencontramos.

No dia seguinte caminhei com os sul africanos de volta a Chalten. Em Chalten fui tomar umas cervejas e escrever umas cartas. No dia seguinte iria embora do Parque em direção ao norte.

12 - Ruta 40 e Cerro Castillo



Fui colocar as cartas no correio e lá conheci uma mulher muito simpática com quem fiquei conversando por um bom tempo. Eu estava a fim de pegar uma carona até a Ruta 40, a 80 km de distância, pois a estrada até lá era péssima. Perguntei se ela conhecia alguém que fosse para lá no dia seguinte e para minha sorte ela tinha um amigo indo para lá na manhã seguinte. Logo fui apresentado a Max, um baixinho loiro com uma cara entre engraçada e estranha. Ele era simpático e me falou que estava indo até Bariloche, a uns 1500km mais ao norte, e se eu quisesse poderia ir com ele até lá.

Isso era mais sorte do que eu poderia esperar, e eu topei na hora, só que não iria até Bariloche e sim até Perito Moreno, a mais ou menos 700km, aonde eu reentraria no Chile. Combinamos de nos reencontrar no dia seguinte pela manhã.

Eu estava feliz, ia economizar 700km de Ruta 40, aonde não há muita coisa para ver, há pouca água, e o vento sopra mais forte do que no Chile.

Eu não tinha nenhum problema em pegar caronas. Não estava pedalando para acumular quilômetros ou bater recordes, e sim para me divertir. Além disto, com essa carona economizaria um bom tempo e poderia utilizá-lo para fazer algo diferente mais tarde.

No dia seguinte fui falar com Max, já com a minha bagagem arrumada, e as coisas mudaram de figura. Max começou dizendo que teria de cobrar para me levar com ele. Eu respondi que não havia problema nenhum e contribuiria dividindo os custos da gasolina.

Ele me disse, meio sem graça, que não era só aquilo. Eles (iriam ele e mais um amigo) passariam em vários lugares turísticos antes de chegar a perito Moreno, aonde eu ficaria. A viagem levaria dois dias e, resumindo, ele queria me cobrar 80 dólares.

Eu disse que não tinha muito dinheiro e realmente não poderia gastar tanto, podendo contribuir apenas para a gasolina.

Ele me respondeu, fazendo um ar sério, que teria que conversar com o “sócio” dele, e foi em direção a uma construção de onde se podia ouvir um som trash metal dos mais barulhentos. Lá ele começou a conversar com um tipo mal encarado.

Enquanto isso eu pensava na ironia de estar fazendo uma viagem tão legal e ter de lidar com esse tipo de situação. Mas não quis me precipitar e julgar a ele ou ao sócio, até que percebi que eles estavam rindo da minha cara sem nem ao menos disfarçar. Eu não precisava deles, pensei. Caminhei até eles, apertei a mão de Max, e disse que estava tudo bem, eu iria me virar sozinho pois não podia pagar mais que a gasolina.

Aí o “sócio” falou que eu estava sendo tolo pois 80 dólares era um preço muito baixo, e normalmente eles cobrariam mais de 100 para levar um turista “normal”.

Deixei os ali mesmo sem discutir mais e fui em direção a estrada, pensando algo como “se não consegui carona com eles é que algo mais legal vai acontecer”. Uma vez na estrada me preparei para pegar outra carona pois àquela altura havia decidido evitar a Ruta 40.

O problema é que o movimento na estrada era super fraco, e não passou nenhum carro durante horas.

O inevitável aconteceu, e vi o Land Rover de Max saindo da cidade. em minha direção. Fiz sinal para eles pararem e pedi para que me levassem pelo menos até a Ruta 40.

Ele me respondeu com um sorriso, “Diez dolares”.

Eu lhe disse com delicadeza para deixar de ser mercenário pois realmente não tinha dinheiro e iria ter que pedalar se ele não quisesse me ajudar.

Ele topou. Coloquei a bike atrás e me acomodei por cima da bagagem. Fomos conversando enquanto íamos até a Ruta 40, e acabei convencendo-o a me levar até Perito Moreno por vinte dólares. Eu não estava desesperado pela carona como pode parecer, mas ela cairia como uma luva para mim, e eu estava determinado a facilitar um pouco a minha vida.

Era estranho viajar de carro, a distância era percorrida em um piscar de olhos, mas eu não me importava pois a Ruta 40 mostrava ser aquilo mesmo que eu ouvira falar, monótona, sem água, e também com poucos veículos para se pedir água.

Finalmente chegamos em Perito Moreno, e eu estava pronto para pedalar de novo. A estrada era de asfalto, e o relevo plano, de modo que em três horas percorri os 60 km que me separavam de Los Antiguos, fazendo uma média de 20km/hora, a maior até então.

O visual era bem bonito, estava às margens de um grande lago dividido entre Argentina e Chile. Do lado argentino ele se chama Lago Buenos Aires, e do lado chileno ele se chama Lago General Carreira.

Em Los Antiguos parei para tomar algo e comer um chocolate. Em seguida prossegui até a fronteira, que atravessei rapidamente, logo chegando em Chile Chico, aonde dormiria.

Já era noite, e fui procurar uma hospedaje. Encontrei uma por 4000 pesos, mais ou menos dez dólares, sem café da manhã. Era um pouco caro, mas não importava. Eu precisava tomar um banho, fazer a barba, e também lavar roupa. Fazia 9 dias que não tomava banho, o último havia sido na Piedra del Fraile.

O assunto banho é uma questão polêmica em um lugar tão frio. Nunca há água quente para se lavar, mas com o frio não se transpira tanto e é possível passar um longo tempo sem banho. É uma questão de decidir o que incomoda mais, se é estar sujo ou se é passar frio, cada um estabelece os seus próprios limites. Posso dizer que o meu não vai muito além destes nove dias.

Era bom estar em uma cidade e usufruir das duas vantagens da civilização que eu mais sentia falta, luz elétrica e água quente. De quebra eu ainda tinha um quarto, também com luz é claro, aonde podia esparramar as minhas coisas desordenadamente.

Passei o dia seguinte descansando e nadando no lago, que era muito bonito. No outro dia peguei uma balsa para atravessá-lo e voltei a pedalar.

Eu estava seguindo pela Carretera Austral, que corta a Patagônia chilena no sentido norte-sul, unindo Puerto Montt, ao norte, a Tortel, ao sul.

Para mim a característica mais marcante deste trecho foi a umidade e riqueza da vegetação. A Carretera Austral está a oeste da Cordilheira dos Andes, a qual funciona como uma espécie de “barreira de chuvas”. Quase toda umidade existente no ar e que atinge o continente vindo do Oceano Pacifico se condensa e se precipita na forma de chuvas ao atingir o lado oeste da cordilheira.

Isso faz com que os lados oeste e leste da cordilheira sejam muito diferentes. No oeste há muita chuva e por isso toda a região é coberta por uma verdadeira floresta tropical, muito densa e úmida. Já no leste da cordilheira, os ventos secos varrem as extensas planícies argentinas, os pampas, cuja vegetação predominante é seca e rasteira.

A Carretera Austral ainda não foi concluída, está sendo trabalhado o último trecho que levará a estrada à cidade de Villa O’Higgins, na fronteira com a Argentina. Isso faz com que esta parte do Chile seja muito pouco explorada ou povoada, e por isso eu sentia muita expectativa ao começar a minha viagem por ali.

A estrada era de terra e mais movimentada do que eu esperava, com vários caminhões que levantavam enormes nuvens de poeira. Mas a paisagem era muito agradável, e o tempo passou rápido enquanto eu percorri 50 km até Villa Castillo, aonde eu planejava deixar a bike para fazer umas caminhadas na Reserva Nacional Cerro Castillo, que fica praticamente em cima da vila.

Chegando à vila fui comprar comida para levar durante a caminhada e aproveitei para pedir ao dono do mercado para que ele guardasse a bike para mim até que eu voltasse.

Ele concordou, e logo eu estava partindo de novo, “convertido” mais uma vez em trekker.

Peguei uma carona que me economizou 9 km de caminhada na subida, e comecei a caminhar em direção ao lugar aonde iniciava a trilha propriamente dita, que ainda estava a uns 10km de distância.

Esperava encontrar uma carona pois era fim de tarde e pensei que haveria um maior movimento de carros, mas eles iam todos na direção “errada”. Segui caminhando e de repente vi uma bicicleta vindo em minha direção. Ela era pedalada por um francês, que havia começado a viajar nos Estados Unidos, 14 meses antes!

Ficamos conversando por um bom tempo, e quando ele se foi já estava praticamente anoitecendo, e por isso fui obrigado a me afastar da estrada e procurar um lugar para acampar.

Armei a barraca rapidamente e cozinhei no escuro pois estava dentro do mato, aonde escurece mais rápido.

No dia seguinte caminhei por mais duas horas antes de conseguir arrumar uma carona que me levasse até o ponto aonde se inicia a trilha, um local aonde dois rios se encontram e recebe o nome de Las Horquetas Grandes.

Iniciei a caminhar às 11:00 da manhã, seguindo por uma estrada que passava através de uma floresta. Não havia ninguém para me explicar o caminho a seguir e eu estava me orientando por indicações que recebera de um suíço que havia encontrado ainda em Chile Chico.

Depois de caminhar por mais ou menos quatro horas, cheguei em um vale pelo qual iria prosseguir e que me levaria ao ponto de onde se sobe para caminhar entre as montanhas.

Depois de 5 horas de caminhada cheguei ao fim do vale, aonde se iniciava uma trilha que subia, até o Passe Peñon, que funciona como entrada para o maciço do Cerro Castillo. Eu só iria encarar a subida na manhã seguinte pois já estava anoitecendo e por isso acampei por ali mesmo, às margens de um riacho.

Comecei a caminhar cedo na manhã seguinte, às 8:40 já estava com o pé na estrada, e depois de uma hora e meia já estava no Passe Peñon, a 1450m de altitude. A subida até lá foi moderada, e a passagem pelo passe, apesar de ele estar com um pouco de neve, foi tranquila.

Logo após o passe, pude ter a primeira visão do maciço do Cerro Castillo. Realmente impressionante, a montanha se ergue imponente e quase verticalmente, como um castelo.

Continuei seguindo a trilha, que agora descia às margens de um riacho, se afastando do Passe. Na realidade não havia uma trilha propriamente dita, mas eu tinha um mapa que me indicava o caminho, e o único caminho razoável a seguir era pelas margens dos rios. De vez em quando eu encontrava pedras pintadas de vermelho ou então pilhas de pedras, que me confirmavam estar na direção certa.

Depois de descer até uma altitude de 900 metros, encontrei um outro rio, que vinha descendo as encostas do Cerro Castillo à direita. Segui por ali de acordo com a indicação no meu mapa, e recomeçei a subir.

O caminho se tornou um pouco mais complicado pois como não havia trilha eu tinha que caminhar sobre pedras às margens do rio.

Parei para almoçar por volta do meio dia. Eu estava fazendo dois almoços por dia. Comia menos comida e assim podia caminhar mais facilmente e também tinha uma parada a mais para descansar.

Depois de mais duas horas de caminhada cheguei às margens da Laguna Castillo, que como o nome indica, fica diretamente abaixo do Cerro de mesmo nome, e tem suas águas fornecidas pelo degelo da neve e glaciar que existem no mesmo.

Eu estava planejando acampar por ali pois a região é muito bonita e interessante para ser explorada, com paisagens encantadoras e variadas. Mas eu estava me sentindo um pouco inquieto, com vontade de seguir caminhando, e por isso continuei, desta vez subindo, em direção ao Morro Rojo, à 1690 metros.

Estava cansado, mas o cenário mudava o tempo todo, me incentivando a caminhar mais. Do topo do Morro Rojo eu tinha uma visão privilegiada da trilha que havia percorrido desde o Passe Peñon até a Laguna Cerro Castillo, cujas águas refletiam a imagem das nuvens no céu. Podia ver o glaciar com suas colunas de gelo precariamente equilibradas sobre a laguna. Acima do glaciar se erguiam as negras paredes de um castelo de pedra, o Cerro Castillo.

Eu tinha também um outro tipo de incentivo para seguir caminhando. Ao longo do dia o tempo havia mudado, e o céu estava carregado de nuvens negras que se dirigiam em minha direção.

Acabei decidindo por sair da reserva pois parecia que no dia seguinte iria chover e eu não estava a fim de caminhar na chuva.

Do topo do Morro Rojo desci diretamente em direção a saída da reserva, deixando de visitar o lado norte do Cerro Castillo.

Cheguei à saída da reserva no fim da tarde, tendo caminhado por oito horas e meia neste dia. Estava cansado como nunca e tratei de ir para a cama rapidinho.

Na manhã seguinte minha decisão se mostrou correta pois durante a noite chovera, sendo que na parte mais alta da montanha havia nevado e o tempo continuava encoberto, com nuvens que prometiam ainda mais neve.

Caminhei por duas horas e já estava de volta à Vila, aonde encontrei a minha bike, me reconverti em ciclista, e voltei à estrada.

Parei na saída da cidade pois pretendia pegar uma carona para vencer os primeiros 15km de subida, os quais já havia percorrido para chegar até lá.

Enquanto esperava, acabei sendo convidado por uns tratoristas que estavam fazendo manutenção na estrada a tomar um lanche com eles. Aceitei na hora e devorei vários bolinhos deliciosos enquanto conversávamos sobre as condições da estrada.

O meu objetivo era chegar ainda naquele dia a Coihaique, que estava a aproximadamente 100km de distância. Chegamos a conclusão que só conseguiria completar aquela distância se arrumasse uma carona para vencer os 15 km de subida.

Com um pouquinho da minha sorte logo apareceu uma caminhonete que concordou em me levar até o topo da subida, que tinha até nome, “Cuesta del Diablo”, ou Costas do Diabo.

Do topo da Cuesta del Diablo até Coihaique eram 85km, com muita descida. A estrada era de cascalho em ótimas condições por 45km, e depois de asfalto pelos próximos 40. Acabei completando a distância depois de um pouco menos que cinco horas de pedal, a uma velocidade média de 18 km/hora.

13 - De Coihaique a Puerto Montt


Cheguei em Coihaique ao cair da noite e fui em busca de uma hospedaje. Encontrei dois mochileiros israelenses na rua e fui com eles até uma. Depois de um pouco de negociação conseguimos até um desconto no aluguel do quarto. De fato os israelenses são ótimos para indicar aonde dormir com pouco dinheiro.

Tanto isso é verdade que a hospedaje estava lotada de israelenses. Era um choque para mim, depois de tanto tempo viajando sozinho, encontrar um grupo de mais ou menos vinte mochileiros.

Passei uma noite muito agradável, com direito a banho quente e bastante conversa.

O dia seguinte estava reservado para descanso e passei o tempo explorando a cidade, comendo e conversando com os israelenses. Coihaique é uma cidade bastante grande, com 40.000 habitantes, e é a capital da IX região do Chile. Foi a minha primeira cidade de tamanho razoável que eu encontrei desde que saíra de Punta Arenas, um mês e meio antes.

Estava um pouco perdido em meio à “multidão” de pessoas que caminhava pelas ruas. Havia até mesmo semáforos, trânsito, sorveterias, bancos com caixas automáticos. Uma verdadeira cidade moderna.

Eu continuava sem concordar com a maneira com que o homem “evoluiu” e organizou a vida em sociedade. Eu parava em frente às vitrines e ficava pensando nisso. Havia uma loja que vendia infinitos tipos de presilhas para cabelos e outros acessórios. Uma outra vendia uma enorme variedade de tubos e tubinhos, que continham ”produtos de beleza” dentro deles.

Que distanciamento da natureza, passar o dia dentro de uma loja esperando que pessoas entrem para comprar alguma coisa totalmente artificial e essencialmente desnecessária.

Era irônica a minha situação, pois eu faço parte desta mesma sociedade à qual estou criticando. É inviável reverter a nossa evolução e renunciar aos “brinquedos” e utilidades que a tecnologia nos proporciona. Eu mesmo estava viajando com bicicleta, fogareiro, barraca e roupas produzidos com alta tecnologia, mas ainda assim eu não conseguia deixar de considerar toda essa parafernália que criamos como uma coisa vã, que não leva o Homem a nenhuma melhora, pelo contrário, serve para distraí-lo e até fazê-lo esquecer o porque de estar vivendo como vive.

Nossa sociedade está organizada de uma maneira que nos torna dependentes dos confortos inventados por nós mesmos, e estamos cercados por esses confortos de uma maneira tal que se torna difícil perceber o quanto de nossa liberdade sacrificamos para poder ter acesso a essas facilidades.

Momentaneamente eu era livre, podia ir, em qualquer direção, ou ficar. Podia viver sem presilhas de cabelo e sem roupas novas. E podia utilizar um espaço quase infinito. O meu limite era a estrada, mas ela era longa. A paisagem mudava sempre e eu podia enxergar longe. Tédio, nem pensar.

Acabei ficando mais dois dias em Coihaique pois junto com os confortos da civilização veio uma diarréia, a primeira e única da viagem. A diarréia foi adquirida comendo um delicioso prato de “comida caseira” na própria hospedaje aonde eu estava.

Acabei partindo antes de ter sarado completamente pois estava cansado de ficar naquela hospedaje decrépita. Além disto, todos os Israelenses haviam ido embora e eu ficara sozinho.

Saí da cidade ao meio dia pedalando no asfalto que cobre os primeiros quilômetros da estrada, e depois de meia hora arrebentou um raio na roda traseira. Por sorte não era do lado direito da roda e pude consertá-lo sem problemas, mas demorei 45 minutos para acabar o conserto pois tive que esvaziar e depois reencher o pneu, e a minha bomba de ar estava se revelando péssima companheira de viagem. Ela era bem pequena, de “dupla ação” e com design moderno, mas exigia uma força descomunal para encher o pneu, por isso eu tinha que parar várias vezes para descansar antes de conseguir enchê-lo direito.

Continuei pedalando, era só subida por 20 quilômetros, mas eu tentava não reclamar pois afinal eu estava na estrada de novo. Finalmente o terreno começou a ficar mais plano, e logo eu estava descendo com o vento assobiando nos meus ouvidos. Mas o assobio do vento foi interrompido por um ruído que àquela altura eu já aprendera a reconhecer, o barulho de outro raio estourando.

Parei a bike, revoltado, mas fingi para mim mesmo que aquela era a primeira vez que aquilo acontecia no dia. Troquei o raio mecanicamente, perdendo os mesmos 45 minutos, e continuei a pedalar até o fim do dia sem nenhum outro problema.

No dia seguinte continuei a descer e depois de algumas horas cheguei à Mañihuales aonde parei para um lanche rápido na beira de um rio.

Ao norte de Mañihuales a paisagem começou a se tornar ainda mais bonita e selvagem. Depois de algumas horas pedalando avistei ao longe uma pessoa caminhando pela estrada carregando uma mochila. Pensei que era mais um mochileiro que estava tentando arrumar carona e parei para conversar.

O mochileiro era belga, e falava espanhol muito bem. Paramos para almoçar à beira de um lindo lago, e ele me contou sobre a sua viagem. Ele estava viajando a pé com a esposa. Eles se orientavam com os mapas do I.G.M. (Instituto Geográfico Militar) e escolhiam o seu próprio caminho, na maioria das vezes andando pelo meio do mato através das florestas de Lenga, que são pouco densas e fáceis de percorrer.

Na região aonde estávamos a vegetação era muito mais densa que as florestas de Lenga e por isso ele estava caminhando na beira da estrada com uma certa frequência. A sua esposa estava em Santiago e se juntaria a ele em breve. Juntos eles já haviam caminhado mais de 5000 km, somando as viagens que fizeram ao Japão, Alaska, e à Patagônia.

A aventura de caminhar fazendo a sua própria trilha na Patagônia, apesar de ser bem radical e não convencional, pode ser realizada por pessoas que tenham experiência em caminhadas e façam uma pesquisa prévia adequada. A boa notícia é que como as florestas são quase todas “atravessáveis” sem trilhas, resta apenas determinar um caminho que seja percorrível a pé, ou seja, que não tenha inclinações demasiadamente acentuadas. Isso pode ser feito tranquilamente com os mapas do I.G.M., que são topográficos e com escala de 1/50.000 , que permite uma boa visualização do terreno.

Continuamos a conversar, e apenas por desencargo de consciência, lhe perguntei a respeito da data, pois estava se aproximando o aniversário do meu filho e eu precisaria planejar estar em uma cidade para poder lhe telefonar. O belga me disse que era 24 de
Março. Segundo os meus cálculos era apenas 21 de Março, mas se eu estivesse errado deveria telefonar no dia seguinte, pois o aniversário era dia 25.

Resumindo, depois de me despedir do belga eu segui pedalando, imaginando quem seria o “perdido no tempo”, eu ou ele. No fim da tarde apareceu um jipe que ia em direção à Villa Amengoal, que seria a próxima cidade, a uns 30km de distância. Eu perguntei para o motorista se em Villa Amengoal havia telefone, e ele respondeu que logicamente sim.

Não resistindo à tentação eu lhe pedi uma carona pois assim ligaria à noite e teria certeza de encontrar alguém em casa.

O motorista aceitou e seguimos viagem juntos, logo chegando. Somente então lembrei de perguntar a data ao motorista, e ele me disse que era dia 21 de Marco, exatamente como eu pensava!

Bom, azar, eu iria ligar antes mesmo pois assim não correria o risco de estar sem telefone na hora de telefonar. Entrei na “Villa”, que na minha opinião deveria ser classificada como “Pueblito”, pois tinha apenas 154 habitantes, segundo indicava uma placa na beira da estrada.

Entrei em um bar e perguntei se por ali havia telefone, e como eu suspeitava, a resposta foi não. Irônico como às vezes tudo pode dar errado. Eu ainda tinha três dias para chegar à próxima cidade e por isso não haveria problema algum. Comprei vários pacotes de biscoito de chocolate e algumas frutas para me consolar, e fui em direção ao rio mais próximo para passar a noite.

Na manhã seguinte voltei à cidade e comprei um pouco de pão antes de continuar. A estrada tinha muitas descidas e me diverti descendo o mais rápido que podia. Depois o terreno tornou a ser mais ou menos plano e pude curtir mais o visual. A vegetação se tornava cada vez mais densa e úmida, inclusive com várias espécies de samambaias e bambu, lembrando muito as matas do Brasil.

No final da tarde entrei em outro parque, o Parque Nacional Queullat, e topei com um homem caminhando pela estrada. Era Sergio, que trabalhava como guarda parque. Ele era jovem, com apenas 24 anos, e me convidou para dormir em sua casa, que ficava a apenas alguns quilômetros mais adiante.

Ótimo programa, tomei banho, lavei roupa e ficamos conversando sobre os nossos mundos. Sergio tinha virado guarda parque por acaso, para mudar de vida após terminar um relacionamento com uma mulher. Ele havia pensado em se tornar policial mas acabou se tronando guarda parque para não correr o risco de levar um tiro à toa. E ali estava ele sozinho no meio do mato, com muito tempo disponível e pouca coisa para fazer. Com uma moto para patrulhar o Parque e sem ter que dar satisfações à muitas pessoas sobre a sua vida.

Na manhã seguinte fiz uma limpeza e regulagem geral na bike, saindo para pedalar às 13:30. Os primeiros 5 km foram de subida mas em seguida iniciou se uma descida muito longa e íngreme, que me trouxe de volta ao nível do mar. Podia sentir a umidade ao respirar, e a temperatura também estava mais alta que o normal.

Depois de mais alguns quilômetros, cheguei ao Fiorde Queullat, banhado pelas águas do Oceano Pacifico. Foi uma bela visão, as montanhas desciam íngremes até a água, que estava calma como um espelho. Não se podia ver à grande distância pois o Fiorde era estreito e havia montanhas por todos os lados, mas aquelas águas eram realmente do Oceano Pacifico, o qual eu havia deixado em Puerto Natales, a 1200 km, e sete semanas atrás.

Parei próximo à água para bater umas fotos e apreciar melhor o visual, e tive o privilégio de ver três golfinhos bem escuros, quase pretos, nadando lado a lado. Era um lugar maravilhoso, o mar parecia estar escondido ali. Não havia ondas ou qualquer tipo de ruído, nem mesmo o vento estava soprando. Também não se via nenhum indício de presença humana.

Continuei a pedalar, parando muitas vezes para tentar guardar comigo para sempre a calma e força da paisagem. No fim da tarde cheguei ao camping na área do Ventisquero Colgante, ou Glaciar Pendurado.

Conversei com o guarda parque, que me fez um desconto no preço do camping, e armei a minha barraca. O Ventisquero Colgante é uma visão realmente impressionante e inusitada, um glaciar precariamente “pendurado” no topo de uma montanha, diretamente acima da floresta.

Frequentemente o gelo se rompe e cai, fazendo um grande ruído, que se assemelha a trovões, e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Ao cair o gelo se assemelha a uma gigantesca cachoeira, despencando livre até atingir as águas do lago que existe a seus pés

É um espetáculo chocante, e para mim foi uma das visões mais impressionantes em toda a viagem. É uma pena que o acesso à base do glaciar seja complicado e a maioria dos turistas, assim com eu, acaba contemplando o espetáculo a distância.

Na manhã seguinte passei mais um tempo observando o glaciar enquanto esperava uma melhora no tempo. Na noite anterior havia chovido muito e continuava a chover pela manhã.

Por volta das 11:00 da manhã resolvi partir. Ainda garoava levemente mas o tempo prometia melhorar. E realmente acabou melhorando, mas a umidade no ar era uma coisa impressionante, havia nuvens pairando à uma altura muito baixa, e uma espécie de neblina contribuía para tornar o visual ainda mais surreal e reforçar a sensação de se estar em uma espécie de “mundo perdido”.

Esse dia foi um dos mais gostosos para se pedalar, a estrada estava em ótimas condições, absolutamente vazia, e eu seguia a grande velocidade, tendo ótimas vistas da floresta e do Fiorde cobertos pela neblina.

Parei na Vila de Puyuhuapi para um rápido lanche com iogurte e biscoitos e prossegui viagem por mais um tempo, parando para almoçar as margens de um lago com águas bem escuras, o Lago Riso Patron.

Logo após o lago, saí do parque nacional, e o visual se humanizou um pouco mais, com a presença de algumas fazendas. Mas tudo sempre em grande harmonia com a natureza mantendo uma aparência exótica e intocada.

No fim do dia, depois de ter pedalado 72 km, cheguei a La Junta aonde fui dormir em uma hospedaje e pude finalmente telefonar ao meu filho.

Na manhã seguinte amanheceu chovendo, e segundo o rádio iria chover por vários dias. Eu realmente havia tido muita sorte em pedalar a Carretera Austral sem problemas com a chuva até então, mas a minha sorte havia acabado e as chuvas, que estavam atrasadas, haviam chegado para ficar, trazendo o outono.

Me preparei para a novidade que seria pedalar com a chuva. Vesti minha capa de chuva amarela, e protegi as bolsas da bike com uma capa impermeável que tinha para a mochila de caminhadas.

No início tudo correu bem, a chuva não estava muito forte e a capa não deixava passar nada de água. O problema é que a capa, por ser tão impermeável, não deixava a transpiração evaporar, e eu acabava me molhando com o meu próprio suor. Depois de um certo tempo, até mesmo a minha bota estava totalmente molhada.

Eu não tinha frio, pois a temperatura não estava tão baixa e eu estava em movimento, me exercitando. O problema seria parar para almoçar ou dormir. Eu precisaria de um lugar protegido da chuva para parar, pois assim não sentiria frio e poderia colocar as roupas e a bota para secar.

A única opção seria pedir para dormir em fazendas, apesar de eu não ser muito fã da idéia de chegar pedindo abrigo para pessoas desconhecidas e depois partir cedo na manhã seguinte. Eu sabia que as pessoas ficavam felizes em receber viajantes e hospedá-los, mas mesmo assim eu ainda preferia não fazer isso.

A chuva começou a cair mais forte e eu comecei a considerar a hipótese de pegar uma carona até Chaiten. Chaiten é a última cidade na Carretera Austral e faltavam apenas 120 km para chegar lá. Eu hesitava em pegar carona pois a região era muito bonita e seria uma pena fazer o trajeto de carro.

Continuei argumentando comigo mesmo sobre pegar ou não pegar uma carona, pois havia pouquíssimo movimento na estrada e não poderia desperdiçar oportunidades caso passasse algum carro. Exatamente nesse momento, escutei o ruído de um carro que se aproximava pelas minhas costas.

Eu estava numa descida, indo muito rápido, e por isso o carro demoraria um pouco para me ultrapassar, eu teria que decidir naqueles segundos.

Acabei não resistindo à tentação e fiz sinal para que o carro parasse. Era uma caminhonete, e ela encostou um pouco mais à frente. Eu perguntei se eles poderiam me levar até Chaiten, e eles responderam que sim.

Em poucos minutos já havia desmontado a bike, posto roupas secas por baixo da capa de chuva, e me acomodado na caçamba da caminhonete.

Com o movimento do carro, a chuva deixou de me molhar, e eu via a paisagem passar por mim rapidamente. Era muito fácil viajar de carro, e eu não conseguia evitar me sentir um pouco inútil por estar acabando aquela etapa da viagem de uma maneira tão pouco louvável.

Mas afinal de contas, o que seria viajar de uma “maneira louvável”? Eu estava viajando. Podia estar de carro, mas ainda estava viajando. De bike eu tinha muito mais chances de me relacionar com o ambiente e as pessoas, mas eu nunca iria poder viver todas as experiências vivíveis, nem estar em todos os lugares possíveis.

Quando escolhemos ir em uma direção, deixamos de ir em várias outras, que também seriam válidas e interessantes. É impossível fazer todo o possível. E era inútil me recriminar por deixar de pedalar aquele pequeno trecho. Eu havia deixado de pedalar muitas estradas que haviam por ali, e nunca poderia pedalá-las todas.

Essa carona acabou sendo muito útil, pois o fato de eu estar mudando os meus planos, associado à velocidade do carro, fez meus pensamentos rolarem rápido, e comecei a reavaliar os meus planos de viagem futuros, mudando-os também .

Meu plano original era pegar um barco de Chaiten para a ilha de Chiloé, pedalar até o lado norte dela e aí pegar outro barco até Puerto Montt, de onde eu partiria para explorar outros parques que existem na área.

Mas eu estava com medo de encontrar muita chuva, pois afinal já era fim de Março e o tempo só tendia a piorar. Eu estava querendo mudar de planos radicalmente, e a chegada das chuvas foi a desculpa que eu precisava.

Meu novo plano abortava totalmente a Ilha de Chiloé, e incluía somente um parque nas imediações de Puerto Montt. Depois disto eu iria seguir de ônibus até Santiago, e lá pegaria outro ônibus em direção ao Deserto do Atacama, aonde eu voltaria a pedalar.

O Atacama sempre esteve nos meus planos, mas eu achava difícil conciliar em uma viagem de bike de apenas três meses, duas regiões tão diferentes e distantes uma da outra. Eu ainda tinha quase um mês de férias, e poderia dar uma boa olhada no deserto.

O tempo passou rápido enquanto eu fazia meus novos planos, e logo chegamos em Chaiten. Eu não me recriminava mais por terminar a Carretera de carro, e estava animado com os novos rumos que eu estava dando à viagem.

Chaiten é uma cidade agradável, de tamanho médio, mas que conserva um ar de cidade isolada em um lugar inóspito. O lugar é cercado de montanhas cobertas por densa vegetação e pelo Oceano Pacífico.

Acabei tendo que dormir em Chaiten pois só haveria barco para Puerto Montt na tarde seguinte. Na hora do embarque tive que me empenhar bastante para evitar pagar uma taxa extra por estar levando um “veículo”. Era absurdo, havia transportado a minha bike de avião sem pagar nada, e de ônibus pagando uma pequena taxa. A empresa de navegação queria cobrar dez dólares para carregá-la.

A solução me foi sugerida pela empregada do hotel aonde dormi, e foi uma idéia bem original e simples. Bastava pedir aos passageiros que estavam embarcando com caminhonete para que levassem a bike na caçamba.

Eu dei risada ante a simplicidade e originalidade da idéia, e fui até o porto conversar com os passageiros que estavam junto aos seus veículos. Eu não estava com muita sorte pois todas as caminhonetes estavam totalmente carregadas e também não havia muitos veículos.

Nos últimos instantes antes do embarque, apareceu um pequeno furgão, totalmente carregado, mas com um bagageiro vazio no teto. Fui conversar com o motorista. Ele trabalhava para alguma igreja, cujo nome não me recordo, e estava viajando pela Carretera divulgando-a. Ele foi muito simpático e concordou em levar a bike no bagageiro.

A cena foi um tanto cômica, ele me ajudou a desmontar a bike e a carregá-la, tudo isso bem na frente do barco, às vistas de toda a tripulação. Finalmente embarcamos, e não tive que pagar taxa alguma.

A viagem de barco foi bastante agradável, o mar estava tranquilo e a chuva acalmou um pouco durante a noite. Na manhã seguinte chegamos a Puerto Montt, e fui imediatamente à hospedaje onde havia me hospedado quando passara por ali. Foi bom rever a dona da hospedaje, uma mulher simpática, que ao saber dos meus planos de pedalar pela Patagônia me havia dito que eu morreria de frio e solidão.

Deixei a bike na hospedaje e peguei um ônibus em direção à cidade de Correntoso, de onde prossegui a pé em direção ao Parque Nacional Alerce Andino.

Caminhei pelo parque por dois dias antes de voltar a Puerto Montt. Foi uma experiência incrível, a floresta no parque era extremamente úmida, com uma vegetação muito densa. Os Alerces Andinos são as árvores mais impressionantes na floresta, alguns tem mais de 4000 anos de idade e 4 metros de diâmetro.

Encontrei também muitas Copihue, que é a flor nacional do Chile. Elas tem um tom de rosa muito bonito e a forma de sino, e são encontradas na beira das trilhas aparentando ser lanternas indicando o caminho a seguir.

O lugar é muito exótico e contrastava muito com tudo que eu havia visto na Patagônia até então. É incrível como o Chile possue paisagens tão variadas e interessantes.

Voltando a Puerto Montt, tratei de pegar o primeiro ônibus em direção à Santiago, mas antes comprei um mapa rodoviário do Chile, à venda em uma rede de postos de gasolina. Esse mapa foi todo o material que usei para preparar a minha ida ao Atacama. No caminho à Santiago eu defini que roteiro iria seguir.